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Testemunho de situações desgraçadas

sábado, janeiro 26, 2008

Nem sei direito há quanto tempo essa história aconteceu. Mas lembro que foi numa noite bem tranqüila de trampo. Eu tava contando as horas pra ir embora, quando algum dos chefes atendeu o telefone. Depois veio me falar pra dar um pulo no 4º DP, da Consolação. Disse que uma atriz, cujo nome eu e ele nunca tínhamos ouvido falar, havia sido agredida pelo síndico do prédio e a confusão tinha ido parar na delegacia.
Peguei o bloco, a caneta e saí. Minutos depois, logo que cheguei no plantão do DP, fui abordado por um tio baixinho. Ele apertou minha mão, disse que era "o empresário" da tal atriz e me levou até ela. A mulher tinha uns 40 e poucos anos. Pele branca, cabelo castanho escuro, comprido e liso. O rosto era bonito, mas o olhar era meio esquisito. Parado e distante.
Pensei que estivesse grávida porque ela tava com um belo barrigão. Mas ela disse que a barriga tinha inchado por causa de um pontapé que o síndico lhe deu no estômago.
"Mas por que o cara te bateu?", eu quis saber. E ela explicou que o síndico a odiava. "Eu não posso levar amigos no meu apartamento, porque ele diz que ator e atriz é tudo drogado. Pra ele, ator é bicha e atriz é puta", contou. Ela tinha saído na mão com o cara um dia depois de uma "reunião com colegas", para "discutir projetos". Além do barrigão inchado, mostrou uns hematomas nos braços.
O síndico tava sentado na delegacia, esperando o B.O. ficar pronto. Fui falar com ele e o cara não quis papo comigo. Então peguei umas poucas palavras do delegado sobre o caso e já tava indo embora, quando o empresário da atriz voltou a me abordar: "Você já tá indo? Peraí que eu vou pegar umas fotos dela pra você levar." Eu disse que não precisava, mas o sujeito insistiu. Então concordei, e o cara foi buscar as fotos no carro ou sei lá onde.
Fui esperar num jardinzinho na frente do DP e a atriz tava lá, fumando um cigarro. Fiquei trocando idéia com ela. A mina era bem melancólica, mas tava querendo conversar. Confesso que avaliei a possibilidade de chamá-la pra tomar uns drinks depois do trampo. Tirando o barrigão inchado, o resto do corpo era bem OK.
Ela me falou da carreira, que tinha feito uma pornochanchada com a Rita Cadillac nos anos 80, que depois dos 40 as atrizes não têm mais chance e blablablá. A certa altura do papo, parou de falar, deu uma tragada no cigarro e olhou para um prédio que fica atrás da delegacia. "Meu marido pulou daquela janela", disparou.
Depois daquilo, a única coisa que me veio na cabeça foi perguntar: "Qual?" E ela apontou uma janela, acho que do oitavo ou sexto andar. "Aquela", disse com voz tremida. "Ele caiu no teto daquela casa e morreu na hora." Fiquei olhando pro teto da tal casa sem saber o que dizer. Foi quando o empresário chegou com as fotos. Peguei, agradeci e caí fora.

sábado, janeiro 19, 2008

Então... Depois de quase um ano sem escrever porra nenhuma aqui, resolvi reaparecer. E vou contar uma historinha que aconteceu há alguns anos. Acho que uns cinco, seis. Época em que eu ainda trabalhava de madrugada.

Eu e os brothers fotógrafo e motorista caímos pra Diadema, onde estradas de terra nos levaram a uma bocada onde havia ocorrido uma quase chacina. Dois baleados e um morto.
Corpo no local, de barriga pra cima, braços e pernas abertos. E cercado de pirulitos, docinhos de abóbora e pés-de-moleque. Uma cena sinistra, que fez o fotógrafo pirar.

Perguntei aos dois PMs que estavam plantados no local, à espera do carro do IML, o que significava aquele monte de doces ao redor do defunto. Aí eles me contaram a história. O sujeito tinha ido num boteco/mercadinho do bairro. E voltava pra casa com os docinhos pra filha pequena.

Tudo indicava que o alvo dos atiradores era o casal baleado. A mina e o cara tinham passagens criminais e tavam envolvidos em várias tretas. Segundo os PMs, o mano dos doces era vizinho deles. Tinha trombado o casal no boteco e voltavam de lá juntos, caminhando. Foi quando os assassinos apareceram e sentaram o dedo nos três. O problema é que acabaram matando o trabalhador e deixado os vagabundos escaparem vivos. Cheios de bala, mas vivos.

História triste. Mas não a ponto de amolecer o coração do companheiro fotógrafo, que estava puto. Poucos dias antes, no trampo, a chefia determinou que o pessoal da fotografia não podia mais gastar filme com cadáveres. "Puta cenário lindo (o morto com os doces) e não posso fotografar! Que merda!", resmungava ele.

Então dei a sugestão: "É... Você não pode fotografar o presunto, mas pode fotografar algum detalhe. Vamos chutar uns doces pra mais perto do pé do morto, aí você faz a foto..." Perguntei aos PMs se podíamos e eles falaram que sim. A perícia já tinha examinado o local do crime.

O que rolou em seguida foi um ensaio fotográfico. Docinhos perto do pé. Um pirulito vermelho, daqueles que tem formato de coração, ao lado da mão, como se o defunto quisesse alcançá-lo. O colega usava toda a sua criatividade. "Porra mano! Essa ficou melhor do que se fotografasse o presunto inteiro!"

Enquanto ele fazia seu trabalho, fiquei jogando conversa fora com os PMs. Nisso, notei que havia um pessoal em cima da laje de uma casa, ali perto, olhando pra gente. Comentei aquilo com os policiais.

"É a família do cara", disse um deles.

Porra, quando o polícia disse aquilo, senti um misto de remorso e vergonha. Tava lá o fotógrafo, empolgado com os doces e o cadáver, seguindo uma sugestão que eu tinha dado, e os familiares do falecido olhando tudo de cima da laje.

Cheguei no colega e falei: "Véio, pára de fotografar que a família do morto tá em cima daquela laje." O mano parou na hora e guardou a máquina na sacola. Depois fiquei em dúvida se ia ou não falar com os parentes. Imaginei que fossem me dar um esporro, chamar de urubu carniceiro e etc. Mas resolvi ir lá. Afinal, era minha obrigação ouvir aquelas pessoas.

E pra minha surpresa, elas me trataram bem. Confirmaram a história que os PMs me contaram, disseram que, realmente, o cara era trabalhador, e lamentaram o fato do sujeito ter encontrado o tal casal no mercadinho. A viúva chorava. Disse que o cara adorava a filhinha de seis anos, para quem levava os doces.
Agradeci e fomos embora de lá.

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