Testemunho de situações desgraçadas

Domingo, Dezembro 17, 2006

Naquela tarde eu estava no Morumbi, tentando apurar detalhes sobre um assalto na mansão de um ricaço. Mas rico, geralmente, é filho da puta. Olha pra gente como se estivesse num patamar superior, não colabora com nosso serviço e, quando pode, ainda atrapalha. Como diz um grande camarada meu, é o tipo de gente que merece um tour pelo Grajaú no porta-malas de um carro.
Enfim; eu estava lá no Morumbi, insistindo na campainha do grã-fino, quando meu celular vibrou. Era minha ex-chefe, dizendo que tinha rolado um arrastão em um condomínio fechado de Taboão da Serra, cidade relativamente próxima de onde eu estava. "Esquece isso e vai pra lá." E pra lá eu fui.
Pensei que fosse chegar e encontrar mais um monte de playboys cuzões a fim de atrasar meu lado, mas não. Era um condomínio simples. Apesar de ser fechado, com portaria e tal, o local reunia casas não muito grandes. Modestas, até.
Os porteiros não embaçaram. Deixaram eu entrar lá na boa. Ainda descreveram todo o episódio. Narraram a chegada dos encapuzados, armados com fuzis, em um Fiat Doblò. "Eu fiquei na portaria, junto com um cara que apontava o fuzil pra minha cabeça. Tinha que fingir que estava trabalhando normalmente", disse um dos funcionários.
Depois caí pra dentro do lugar e comecei a tocar as campainhas e falar com os moradores. Entre uma e outra história do arrastão, eu soube que, no condomínio, havia uma casa de assistência para crianças com câncer. E o pior: que os bandidos tinham entrado lá e tocado o terror.
Eu e a colega que me acompanhava corremos para a entidade, onde fomos muito bem recebidos e pudemos conversar com as crianças. Aquilo foi muito triste.
A maioria dos moleques tinha idades entre três e dez anos, e deformidades pelo corpo. Uns não tinham a orelha. Em outros faltavam alguns dedos. Um garoto caolho, que usava óculos e tinha a boca meio torta, contou como tinha sido a parada. "Os bandido chegaro apontando a arma e falaro 'fica todo mundo quieto, senão vai tomá tiro,'" disse ele, imitando o jeito dos vagabundos.
As crianças até que não estavam tão apavoradas. A maior parte delas empolgava-se com a presença dos repórteres e das câmeras de TV. Brincava sem parar num pequeno playground.
Já as mães delas, que também estavam no abrigo no momento do assalto, não haviam se recuperado do susto. Várias choraram enquanto conversavam comigo.
Os malditos as haviam trancado com as crianças em quartinhos minúsculos, enquanto levavam computadores e outros objetos. Coisas que haviam sido doadas para a casa assistencial.
Sinceramente, aquilo me deu vontade de chorar. Por toda maldade e filhadaputagem que existe nesse mundo desgraçado. Penso até hoje: "Como um verme desses teve coragem de apontar o fuzil pra uma criancinha deformada pelo câncer?" Mas é foda. O mundo é assim mesmo. Ruim pra caralho. Ricos, ladrões, assassinos, pervertidos... Filho da puta é mato nessa terra de bosta.

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