Testemunho de situações desgraçadas

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Madrugada. Fomos todos para Guarulhos. Um vereador petista, presidente da câmara da cidade, havia atropelado três moleques naquela noite, durante a volta de um jogo do Palmeiras. No opalão dele, além de uma camisa do palestra, a polícia encontrou várias latas de cerveja.
Levado ao 7º DP do município, o parlamentar foi indiciado por embriaguez ao volante.
Chegando à delegacia, já encontrei vários colegas. Todos esperando pelo político, que estava trancado em uma salinha. Não saía por medo de ser fotografado. Um batalhão de assessores do cara olhava feio para a gente.
Ficamos em frente à porta da sala, aguardando. Afinal, ele não podia ficar lá dentro para sempre. Mas, como o cara recusava-se a sair devido à nossa presença, aquela situação foi se prolongando. Irritado com a multidão de assessores, repórteres e mais um monte de cidadãos que lotavam o plantão do distrito para registrar ocorrências, o delegado acabou mandando a gente aguardar a saída do vereador na rua. Obedecemos.
O plantão da delegacia funcionava no primeiro andar de um sobrado. O acesso a ele se dava por uma escadinha estreita, em um corredor na lateral do imóvel. Continuamos esperando. Alguns assessores vieram pedir para que a gente saísse fora. "Sem chance", dizíamos a eles.
Dali a pouco, vimos um bloco de puxa-sacos do petista começar a descer a escadinha estreita. O vereador vinha atrás, cambaleando e com os olhos vermelhos. Ainda tava meio breaco.
Dois camaradas meus, fotógrafos, logo começaram a subir os degraus em direção a ele, disparando flashs. E os aspones caíram na besteira de tentar tampar com as mãos as lentes das máquinas. Não sabiam que um dos fotógrafos lutava jiu-jitsu e o outro era um cara esquentado, também bom de briga (o mesmo que socou crentes no 1º DP de SP, alguns posts abaixo).
Começou a pancadaria. Vi os brothers distribuindo socos. O tumulto desceu a escada e uma briga generalizada tomou conta da frente do DP. Todo mundo entrou na treta. Vi um repórter de TV _ que costumava ser um cara bem tranqüilo _ batendo com o microfone na cara de um petista. Relembrando os shows de punk rock e hardcore da minha adolescência, mergulhei na confusão, dando socos, pontapés e cotoveladas. Aquilo realmente estava divertido.
De braços cruzados, alguns PMs assistiam a tudo sem fazer absolutamente nada. Vi uma mulher, também puxa-saco do vereador, chegando até os policiais e dizendo "estamos sendo agredidos, vocês não vão fazer nada?". O meganha então olhou para a cara dela e disse "eu não tô vendo agressão nenhuma". Depois ainda virou para outro PM e perguntou "você tá vendo alguma coisa?". "Não", foi a resposta.
A pancadaria acabou quando os assessores finalmente conseguiram colocar o vereador dentro de um carro. Acho que ele também tomou umas porradas. Na briga, levamos vantagem. Nenhum de nós apanhou. Já os aspones, saíram revoltados, com cara de choro.
Radiantes e rachando o bico, ficamos mais um pouco na frente do DP. Depois saímos de lá rumo ao local do acidente. Queríamos fotos do opalão do político, com as latas de breja e a camisa do verdão.
Chegamos ao local e encontramos o carro enfiado na traseira de um caminhão, onde bateu após atropelar os três moleques. Uma lona o cobria e a retiramos. Como prevíamos, vimos várias latas de cerveja no assoalho e a camisa do Palmeiras. Nossos companheiros então começaram a fazer fotos. Mas, assim que os primeiros flashs foram disparados, um cara saiu puto de dentro de um automóvel que estava parado ali perto. Veio pra cima da gente, gritando. Era o irmão do vereador. Ele pegou a lona do chão e jogou de novo em cima do Opala.
E ficou lá do lado do carro, montando guarda como um idiota.
Nisso, um cara grande saiu de dentro de uma casa do outro lado da rua. Sem cerimônia, ele passou pelo irmão do vereador e arrancou a lona de cima do carro.
- Vai fotografá essa porra sim! O filho da puta atropelou os moleques e tem que se foder! _ disse o grandão, que atravessou a rua com a lona, seguido pelo irmão do vereador. Este dizia "ei!... Ei!... Volta aqui!" Mas o cara não dava ouvidos. Passou pelo portão de sua casa e tacou a lona no chão.
- Qué essa porra? Entra aqui e pega então _ falou em seguida.
Não percebi, mas alguns amigos meus disseram ter notado um volume na cintura do sujeito. Inclusive ele teria desafiado o irmão do bêbado com a mão em cima do tal volume.
Nervoso e contrariado, o mano do vereador deu meia volta, caminhou até seu carro, entrou e bateu em retirada. Os fotógrafos puderam então trabalhar tranqüilos.
Sempre que relembramos essa fita damos risada.

Sexta-feira, Junho 09, 2006

Hoje, primeiro dia da Copa do Mundo, passei pelo viaduto Major Quedinho, a caminho do trampo, e vi um farrapo humano dormindo. Sentado na calçada, com a boca aberta e as costas escoradas no muro. Provavelmente tava com muita cachaça na cabeça. Inchado, vestia roupas sujas.
Sentado no seu colo havia um menino de uns cinco anos, no máximo. Devia ser filho do cara. Também trajava roupas velhas e sujas.
Mas estava contente. Tocava uma pequena corneta de plástico verde e amarela. E gritava "Basil! Basil!"
Como todo o povo brasileiro, aquele garotinho que mal deve ter o que comer quer que o país seja novamente campeão do mundo. Por quê? Sinceramente não sei. Não consigo entender essa euforia que, de quatro em quatro anos, enche a cidade de bandeiras, pinturas, fitinhas verdes e amarelas. E deixa todo mundo retardado.
Já faz anos que desprezo o futebol. Acho que o "amor" que o torcedor fanático tem pelo clube não passa de uma grande estupidez. Uma idiotice sem sentido, característica da raça humana em geral. Que é tremendamente medíocre.
Tô cagando e andando se essa porra de seleção do caralho, com suas estrelinhas de comercial da Nike, vai conseguir essa merda de hexa ou não. Esses caras enchem o rabo com milhões de euros só para serem ídolos de uma gente fracassada que nunca será nada nessa vida.
Torço para que o garotinho da corneta seja retirado da rua, receba educação, cresça inteligente, acredite em algo quando for adulto e tenha algum motivo bom para viver e ser feliz. Mas talvez eu nunca mais o veja. Talvez ele morra amanhã ou depois, incendiado ou espancado por vândalos de classe média alta, enquanto o Brasil inteiro grita gol.
Eta país de bosta.

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