Testemunho de situações desgraçadas

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Você já trabalhou na noite de Natal? Entrando no trampo às 23h e incumbido de ir para a Catedral da Sé, assistir à Missa do Galo? Pois é... Eu já. No Natal de 2004.
Não sou um cara muito religioso, portanto ia bem desanimado para a catedral, no carro da firma. Mas aí o colega que me acompanhava, fotógrafo, sugeriu que passássemos em um posto de gasolina e comprássemos umas cervejas. É óbvio que eu e o motorista concordamos na hora.
Como morava bem perto do trampo, ainda pedi ao piloto para passar em meu apartamento, onde peguei uma caixa térmica da Sadia. Havia ganhado aquela caixa como brinde natalino da empresa, com um peru dentro. Naquela noite, ela foi preenchida com long necks geladas.
Bebendo nossas cervejas, chegamos à Sé.
Eu e o fotógrafo então deixamos as outras garrafas na caixa, dentro do carro, e entramos na catedral. Ela estava lotada. A missa já havia começado. Algumas das pessoas que a assistiam usavam uma roupa estranha, branca e marrom, com uma cruz esquisita desenhada no peito, além de botas pretas de couro que iam até os joelhos. Nunca havia visto aquela merda. Imaginei que fossem de alguma ordem religiosa fanática. Eram todos brancos e tinham cara de elite.
O colega fez algumas fotos.
Eu ainda tinha que falar com o padre, mas como aquela porra ia longe, resolvemos sair e esperar pelo fim da missa do lado de fora. Junto ao carro, matamos todas as nossas long necks. Confesso que as brejas me deram uma leve entorpecida. Então o celular tocou. Era um companheiro de desgraças, avisando que movimentos de sem-teto haviam acabado de promover uma série de ocupações de prédios na cidade. Um dos imóveis era um quartel desativado da PM, que estava abandonado no Brás.
Segundo o brother, a Tropa de Choque estava indo para lá, sentar o cacete nos sem-teto.
"Foda-se essa missa do caralho, vamo pro quebra-pau!", eu disse pro fotógrafo e pro motora, assim que desliguei o telefone. Saímos cantando pneus e logo estávamos em frente ao quartel. Os sem-teto gritavam em coro algo como "QUEREMOS MORADIA!" Das janelas do prédio, eles balançavam bandeiras do movimento.
Eu e o fotógrafo descemos do carro. Estávamos em frente ao quartel quando vimos o caminhão da tropa de choque chegar e despejar os PMs de escudo e capacete. Os caras não estavam pra brincadeira.
A moleza causada pelas cervejas se foi instantaneamente assim que uma bomba de efeito moral explodiu do meu lado. Como animais, os PMs partiram para cima dos invasores. Dei uma afastadinha pra não ficar no meio da treta. Mesmo assim, vi bem de perto os meganhas descendo o cassetete nos sem-teto. Rangendo os dentes e sem dó, eles sentavam pauladas até na cara de tiazinhas gordas, de meia idade. Também davam tiros com balas de borracha, além de usar as bombas de efeito moral e gás pimenta.
Tudo para esvaziar um prédio velho. Que não era qualquer prédio velho, mas um prédio velho que pertencia à gloriosa Polícia Militar de São Paulo.
Diante de um ataque tão violento, os coitados dos sem-teto saíram fora do pico rapidinho. Quando a treta tava quase no fim, reencontrei o fotógrafo. Havia uma mancha vermelha bem grande em sua calça de cor branca, na região da batata da perna, e ele mancava. Fora atingido por uma bala de borracha que deixou um machucado bem grande. Tanto que, de lá, ele foi direto para um hospital. Mas até que teve sorte, pois os sem-teto tinham ferimentos como aquele na testa ou na bochecha.
Passei o resto da madrugada de Natal percorrendo outros prédios ocupados pelos movimentos. Nesses, porém, a PM limitou-se a deixar meia dúzia de gambés na frente, vigiando para que não ocorressem maiores problemas.
"Nada mal pra uma noite que começou na Missa do Galo", pensei de manhã, ao voltar para minha casa.

Terça-feira, Maio 23, 2006

Um breve comentário:

Não costumo escrever esse tipo de post, mas não podia ficar quieto diante de toda a desgraça vivida por São Paulo nos últimos dias.
Encaminharam-me hoje um e-mail da associação de policiais militares do Estado. O presidente da entidade propõe que a categoria "cruze os braços e deixe que o Ministério Público faça o policiamento da cidade", em resposta aos "ataques" do MP Federal, entre outros órgãos, contra a PM.
O que a associação chama de "ataques" é somente a exigência de que a Secretaria da Segurança Pública aja com transparência, fornecendo aos promotores todos os BOs e laudos de casos onde houve morte de supostos suspeitos em "confrontos" com a PM desde o início da onda de ataques do PCC.
Considero esse tipo de protesto uma afronta ao bom senso.
Policiais não são pessoas acima da lei. Portanto não podem sair por aí matando a torto e a direito, sem que cada uma dessas mortes seja investigada com esmero. Um governo sério tem a obrigação de fazer isso. E de divulgar os resultados desse trabalho para que toda a população saiba como age a polícia que é paga para protegê-la. É uma coisa básica.
Em outras palavras, se o policial matou gente inocente, tem mais é que se foder. E se foder pra caralho.

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Meu expediente tinha se encerrado havia dez minutos, às 23h. E eu continuava no trampo, respondendo um e-mail pessoal. Dali a pouco iria encontrar alguns amigos para tomar cerveja. Entre eles, uma garota que me deixava louco. Ou seja, estava eufórico.
Acabei de mandar o e-mail e ia desligar o computador, quando o telefone tocou na mesa da minha chefe _ que ficava lá até 23h30, meia-noite. Ela atendeu, fez uma cara de susto e disse "O quê!?". Em seguida exclamou, como se repetisse o que lhe diziam ao telefone, que o bispo de um grande império brasileiro da religião evangélica havia acabado de atropelar um motoqueiro na Avenida do Estado.
Rápido, antes que ela largasse o telefone, desliguei o computador, peguei meu casaco, minha mochila e saí andando. Quando já estava fora da empresa, atravessando a rua, o celular tocou. Por um instante, pensei em não atender. Naquele curto espaço de tempo, que deve ter durado, no máximo, dois segundos, pensei na balada, nas minhas responsabilidades, no horário que já havia cumprido e nas possíveis represálias que poderia sofrer se não atendesse aquela ligação.
Acabei atendendo. Era um subchefe, dizendo que a chefe _ a que foi avisada sobre o bispo _ estava puta comigo, pois eu tinha fugido do trabalho. Ela queria que eu voltasse imediatamente.
Ao ouvir aquilo, fiquei insano de tanta raiva. Minha vontade era pegar uma barra de ferro e quebrar aquela firma inteira, inclusive o crânio de quem não saísse da minha frente.
Surtando, passei de novo pela catraca daquele maldito prédio do inferno. O ódio me cegava. "FILHA DA PUTA! FILHA DA PUTA! FILHA DA PUTA!", era o que ecoava em minha mente. Peguei o elevador até o andar onde eu trabalhava. Entrei no recinto dando um soco violento na porta e olhando fixo para a minha chefe. Acho que ela percebeu que corria risco de ser morta, por isso não me encarou. Ficou com o rosto escondido atrás do monitor do computador dela.
Sem tirar os olhos da chefe, fui até minha mesa, atirei a mochila no chão, e, ao pendurar o casaco no encosto da cadeira, o fiz com tanta força que esta caiu, fazendo um puta barulho. O subchefe _ aquele que me ligou _ então perguntou: "que é? Cê tá nervoso?".
Respondi algo como "Tô sim. Nervoso pra caralho." E ele se calou. Depois, peguei o bloco de anotações, fui até minha chefe e perguntei secamente: "qual é o número da avenida do Estado?"
Sem tirar os olhos do computador, ela me disse, quase que sussurrando, que não tinha a numeração. Falei algo como "tá", e saí fora.
No carro da firma, a caminho da porra da avenida do Estado, o celular tocou. Era a minazinha de quem eu era a fim. Dizendo que a galera estava me esperando na casa de uma amiga nossa para irmos ao boteco. Expliquei-lhe o que estava acontecendo e disse que o pessoal podia ir pro bar. Eu iria assim que resolvesse a parada.
Com o motorista, percorri toda a bosta da avenida do Estado e não encontramos absolutamente nada. Liguei para a base e meu subchefe falou para eu ir ao 1º DP, da Sé, responsável por aquela região, para ver se descobria algo. Um colega, fotógrafo, me encontraria lá.
Chegando no distrito, tive que enfrentar a falta de colaboração dos policiais de merda. Eles confirmaram o atropelamento do motoqueiro, mas não queriam dizer, nem fodendo, quem o havia atropelado. Perguntei "é o bispo fulano de tal?". "Não posso dizer", era sempre a resposta. Porém, o tira deixou escapar que o responsável pelo atropelamento estava no andar de cima, onde eu não podia ir, prestando depoimento. Antes de mandar o filho da puta tomar no meio do cu dele e ser preso por desacato, resolvi ir pro pátio da delegacia e esperar.
Logo chegou o fotógrafo, um grande camarada meu, a quem muito admiro. Tramenda figura. Na época, ele trabalhava de madrugada. Relatei-lhe o que ocorria e ficamos na escada que levava ao primeiro andar da delegacia.
O 1 º DP de São Paulo, pra quem não conhece, fica em um casarão antigo. A escada onde esperávamos o líder religioso é larga e de mármore. Liga o pátio ao primeiro andar. Ficamos lá um tempão. Eu, reclamando da vida. O brother, ouvindo. Até que a porta do primeiro andar se abriu. Uma galera começou a descer. Eram crentes que tentavam fazer uma barreira para que o bispo não fosse fotografado. Nesse exato instante, meu celular tocou. O subchefe me pedia informações. Queria saber o que estava acontecendo. Estava acabando o prazo para que eu passasse, por telefone, um texto sobre aquela situação.
Enquanto eu falava com ele, vi meu amigo, que é bom de briga, avançando nos crentes. Um deles tentou tapar a lente de sua máquina com a mão. O camarada logo deu um soco na boca do infeliz, que quase caiu da escada. Foi uma tremenda porrada. Outros evangélicos tentaram barrá-lo, sem sucesso. Pois ele distribuía mais socos.
Então pude ver a cara de quem atropelou o motoqueiro. Não era o bispo que pensávamos, mas outro, líder de um império evangélico rival. Ainda com o subchefe no celular, relatei para ele o que acontecia e quem era o responsável pelo atropelamento. "Ixi... Peraí, peraí...", foi o que ouvi em resposta.
Nesse ínterim, os crentes colocaram o bispo no carro e todos bateram em retirada. O colega veio até mim dizendo que havia conseguido a foto. Estava eufórico, rindo à toa, feliz por ter esmurrado a cara de uns três evangélicos. "Filho da puta que vem tapar minha câmera leva soco na cara!", dizia.
Logo o subchefe voltou ao telefone. Disse que eu podia ir embora. Não precisaria escrever nada, pois aquele bispo estava processando a firma e prestes a ganhar a causa, que envolvia muita grana. Praguejei. Toda aquela correria pra nada.
Entrei no carro da empresa para voltar à base. Cheguei lá e minha chefe já havia saído. Peguei a mochila para ir embora e liguei pro celular de um amigo meu, que estava na balada com os demais. "Porra, mano, acabamos de sair fora", ele disse. A gatinha, pelo que me contou, também tinha ido embora, de carona com uma amiga nossa. Só então olhei o relógio e vi que já tinha passado das duas da manhã.

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