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Testemunho de situações desgraçadas
Quarta-feira, Abril 26, 2006
Aconteceu em um feriado. Fazia um calor da porra. Meus amigos estavam na praia e eu, em São Paulo. Trabalhando.
Fazer plantão em feriado é uma grande merda. Você vai pro trampo vendo as ruas vazias, exceto por alguns tiozinhos de bermuda, passeando com seus cães, ou por moleques jogando pelada com traves improvisadas, de tijolos e pedaços de pau.
Com a cidade nesse clima, o que a gente menos quer é ir para o trabalho, sabendo que só vai sair de lá depois de horas e horas de tédio e enchição de saco.
Enfim; era esse meu estado de espírito quando cheguei na firma e sentei em frente ao computador naquela manhã. O dia, porém, não foi como eu esperava. Logo apareceu a notícia da desgraça, pra me salvar do marasmo. Uma rebelião de presos com carcereiro refém. No 83º DP, responsável pela área do Parque Bristol. Onde, além do Jardim Zoológico, ficam algumas quebradas bem sinistras da cidade.
Aí fiquei eufórico. Avisei um colega, pegamos um táxi e voamos pro DP.
Quando chegamos, o sol castigava pra valer. A porta da delegacia estava cheia de mulheres e mães de presos, repórteres e policiais do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil.
Os tiras não deixavam ninguém passar da porta. Ficamos lá um tempo, loucos pra chegar mais perto, olhando a entrada e saída dos homens do GOE, com armamento pesado.
Aos poucos, porém, os agentes foram relaxando e dando mais liberdade para a gente. Ao contrário do que fizeram com as mulheres e mães de detentos, que foram obrigadas a ficar no meio da rua.
Então vi um grupo delas, de longe, acenando para a lateral do DP. Este fica no alto de um pequeno morro, ao lado de uma rua em declive. Eu e mais alguns manos então demos a volta no distrito e vimos para onde as mulheres acenavam. Atrás de janelinhas com grades entrelaçadas e barras de ferro, pudemos ver os detentos, com camisetas escondendo o rosto e naifas _ aquelas facas que fabricam com pedaços de ferro _ nas mãos. Eles acenavam em resposta aos parentes e esposas.
Começamos a trocar idéia com eles.
- Nóis aqui passa fome, sinhô. Nem os rato come a comida que dão pá nóis. A gente apanha. Tá lotado e não tem onde durmi...
Essas eram algumas das reclamações. Outros presos também pediam para a gente levar mensagens à mãe ou à namorada, que estavam vendo na rua.
- É aquela ali, de camiseta amarela... _ disse um deles.
Segundo os caras, além de transferência para estabelecimentos prisionais menos lotados, eles queriam garantias de que o GOE não fosse "esculachá-los" (como eles chamam o espancamento) e a presença do juiz corregedor dos presídios.
Mas logo a festa acabou. Um tira foi à lateral da delegacia e mandou a gente sair de lá. Depois ficou montando guarda para que não voltássemos.
Como os presos pediram, fui à rua levar as mensagens às mulheres. Elas choravam e narravam mais e mais atrocidades a que os detentos eram submetidos naquela carceragem.
De volta ao DP, o clima entre os jornalistas e os tiras do GOE já era mais descontraído. Um agente fortão, metido a herói de filme americano, chavecava uma repórter da Record, mostrando-lhe suas armas e músculos. Então entrei na delegacia. Devagar, sem ser notado, fui me aproximando da entrada da carceragem.
Lá, os caras do GOE estavam amontoados. Um delegado negociava a libertação do carcereiro com o preso. Fiquei no meio dos brutamontes armados, escutando a negociação. Até que um deles finalmente me notou e disse "ei, caralho, o que você tá fazendo aqui?", e me mandou ficar um pouco mais longe, o suficiente para que eu não escutasse a negociação.
Vendo-me por ali, alguns repórteres também chegaram junto. Entre eles uma mina da Globo. Acostumada a fazer reportagens sobre flores e coisinhas bonitas, ela teve o azar de estar de plantão naquele dia e, por isso, ter sido mandada para lá. O mau-humor e vontade de mandar tudo à merda era evidente em seu rosto.
De onde estávamos, só conseguíamos ouvir alguns gritos de exigências dos presos. Até que alguns começaram a gritar "QUEREMOS A REDE GLOBO AQUI DENTRO DA CARCERAGEM! PRA MOSTRÁ A SITUAÇÃO QUE NÓIS VIVE!!"
Nesse momento, olhei para a cara da repórter das flores. Lentamente, ela baixou a cabeça com cara de choro, apoiando uma têmpora no indicador e a outra, no polegar. Não demorou e o delegado veio falar com ela.
- Então; você pode entrar lá dentro?
Ela levantou a cabeça, titubeou um pouco e fez sinal afirmativo pro delega. Em seguida, vimos ela e o câmera sumirem no corredor que levava aos presos. Mais um tempinho passou.
Logo a repórter saiu da carceragem. Sua cara demonstrava impaciência. Louca para ir embora dali, avisou a gente que o carcereiro seria solto.
Todos os fotógrafos e câmeras ficaram posicionados na saída do corredor. Então o refém saiu. Bem castigado. A cara toda roxa e com sangue pisado. O branco dos olhos estava vermelho de tanta porrada que levou.
E acabou a rebelião. Saí dali satisfeito. Até que o feriado não tinha sido tão escroto...
Fazer plantão em feriado é uma grande merda. Você vai pro trampo vendo as ruas vazias, exceto por alguns tiozinhos de bermuda, passeando com seus cães, ou por moleques jogando pelada com traves improvisadas, de tijolos e pedaços de pau.
Com a cidade nesse clima, o que a gente menos quer é ir para o trabalho, sabendo que só vai sair de lá depois de horas e horas de tédio e enchição de saco.
Enfim; era esse meu estado de espírito quando cheguei na firma e sentei em frente ao computador naquela manhã. O dia, porém, não foi como eu esperava. Logo apareceu a notícia da desgraça, pra me salvar do marasmo. Uma rebelião de presos com carcereiro refém. No 83º DP, responsável pela área do Parque Bristol. Onde, além do Jardim Zoológico, ficam algumas quebradas bem sinistras da cidade.
Aí fiquei eufórico. Avisei um colega, pegamos um táxi e voamos pro DP.
Quando chegamos, o sol castigava pra valer. A porta da delegacia estava cheia de mulheres e mães de presos, repórteres e policiais do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil.
Os tiras não deixavam ninguém passar da porta. Ficamos lá um tempo, loucos pra chegar mais perto, olhando a entrada e saída dos homens do GOE, com armamento pesado.
Aos poucos, porém, os agentes foram relaxando e dando mais liberdade para a gente. Ao contrário do que fizeram com as mulheres e mães de detentos, que foram obrigadas a ficar no meio da rua.
Então vi um grupo delas, de longe, acenando para a lateral do DP. Este fica no alto de um pequeno morro, ao lado de uma rua em declive. Eu e mais alguns manos então demos a volta no distrito e vimos para onde as mulheres acenavam. Atrás de janelinhas com grades entrelaçadas e barras de ferro, pudemos ver os detentos, com camisetas escondendo o rosto e naifas _ aquelas facas que fabricam com pedaços de ferro _ nas mãos. Eles acenavam em resposta aos parentes e esposas.
Começamos a trocar idéia com eles.
- Nóis aqui passa fome, sinhô. Nem os rato come a comida que dão pá nóis. A gente apanha. Tá lotado e não tem onde durmi...
Essas eram algumas das reclamações. Outros presos também pediam para a gente levar mensagens à mãe ou à namorada, que estavam vendo na rua.
- É aquela ali, de camiseta amarela... _ disse um deles.
Segundo os caras, além de transferência para estabelecimentos prisionais menos lotados, eles queriam garantias de que o GOE não fosse "esculachá-los" (como eles chamam o espancamento) e a presença do juiz corregedor dos presídios.
Mas logo a festa acabou. Um tira foi à lateral da delegacia e mandou a gente sair de lá. Depois ficou montando guarda para que não voltássemos.
Como os presos pediram, fui à rua levar as mensagens às mulheres. Elas choravam e narravam mais e mais atrocidades a que os detentos eram submetidos naquela carceragem.
De volta ao DP, o clima entre os jornalistas e os tiras do GOE já era mais descontraído. Um agente fortão, metido a herói de filme americano, chavecava uma repórter da Record, mostrando-lhe suas armas e músculos. Então entrei na delegacia. Devagar, sem ser notado, fui me aproximando da entrada da carceragem.
Lá, os caras do GOE estavam amontoados. Um delegado negociava a libertação do carcereiro com o preso. Fiquei no meio dos brutamontes armados, escutando a negociação. Até que um deles finalmente me notou e disse "ei, caralho, o que você tá fazendo aqui?", e me mandou ficar um pouco mais longe, o suficiente para que eu não escutasse a negociação.
Vendo-me por ali, alguns repórteres também chegaram junto. Entre eles uma mina da Globo. Acostumada a fazer reportagens sobre flores e coisinhas bonitas, ela teve o azar de estar de plantão naquele dia e, por isso, ter sido mandada para lá. O mau-humor e vontade de mandar tudo à merda era evidente em seu rosto.
De onde estávamos, só conseguíamos ouvir alguns gritos de exigências dos presos. Até que alguns começaram a gritar "QUEREMOS A REDE GLOBO AQUI DENTRO DA CARCERAGEM! PRA MOSTRÁ A SITUAÇÃO QUE NÓIS VIVE!!"
Nesse momento, olhei para a cara da repórter das flores. Lentamente, ela baixou a cabeça com cara de choro, apoiando uma têmpora no indicador e a outra, no polegar. Não demorou e o delegado veio falar com ela.
- Então; você pode entrar lá dentro?
Ela levantou a cabeça, titubeou um pouco e fez sinal afirmativo pro delega. Em seguida, vimos ela e o câmera sumirem no corredor que levava aos presos. Mais um tempinho passou.
Logo a repórter saiu da carceragem. Sua cara demonstrava impaciência. Louca para ir embora dali, avisou a gente que o carcereiro seria solto.
Todos os fotógrafos e câmeras ficaram posicionados na saída do corredor. Então o refém saiu. Bem castigado. A cara toda roxa e com sangue pisado. O branco dos olhos estava vermelho de tanta porrada que levou.
E acabou a rebelião. Saí dali satisfeito. Até que o feriado não tinha sido tão escroto...