Testemunho de situações desgraçadas

Quarta-feira, Março 22, 2006

Hortolândia é uma cidade pequena, que fica perto de Campinas. Interior de São Paulo. Não muito tempo atrás, o governo do Estado acabou com a pacata rotina do lugar, instalando lá um grande complexo penitenciário, com cerca de 7.000 detentos. Muitos deles transferidos da Casa de Detenção do Carandiru, palco daquela famosa chacina de 111 presos.
Eu e um colega viajamos para o município pouco tempo depois da inauguração dos presídios. Justamente com o objetivo de dar uma olhada neles, falar com as mulheres dos presidiários, os moradores do entorno, enfim... Realizar algum trabalho a respeito, sem saber ao certo qual.
Acordamos bem cedo, num sábado, pra pegar a estrada. Chegamos na cidade de manhãzinha e já começamos a trabalhar. À tarde, paramos pra almoçar. Batemos uma feijoada nervosa e aí fodeu. Fomos pro hotel "dar uma descansadinha" e depois até tentamos, mas não conseguimos fazer mais nada. A feijuca derrubou a gente
No dia seguinte, teríamos que acordar às 4h da manhã. Pra trocar idéia com os primeiros visitantes de presos que chegariam ao complexo penitenciário. O bom senso mandava que dormíssemos cedo. E é lógico que não fizemos isso. Quando a noite chegou, chamamos um táxi e pedimos pro motorista nos levar a algum boteco. De preferência, freqüentado por mulheres. Ele então nos levou a uma rua não muito longe do hotel, onde havia dois bares abertos. Pelo visto, os únicos de Hortolândia. Escolhemos um, sentamos e começamos a beber cerveja.
O pico era meio barra pesada. Homens mal-encarados e mulheres feias, quase todas acompanhadas, dominavam o lugar. Ficamos na nossa, bebendo e conversando. Dali a pouco, notamos uma movimentação estranha do outro lado da rua, onde um grupinho tomava umas latas ao lado de alguns carros, escutando sambinha vagabundo.
No meio da galera, um cara começou a dar tapões na cara de uma mina gordinha. Todo mundo ficou em volta, assistindo sem mover um dedo. Então o canalha derrubou a garota no chão e passou a chutá-la. E a rapaziada continuou quieta, bebendo a cerveja e olhando. Todos tranqüilos. Ninguém nem tentava segurar o agressor.
"Caralho! A mina tá sendo espancada e ninguém faz nada", eu disse pro colega.
"Bicho. Somos forasteiros, não conheço ninguém aqui e não vou me meter", respondeu o camarada. Eu concordei com ele.
Terminada a sessão de violência, o valentão deixou a mina caída no chão, entrou num carro e saiu cantando pneus.
Para nossa surpresa, a gordinha se levantou logo em seguida. Foi até as amigas que tavam assistindo ela apanhar e pediu um gole de cerveja a uma delas. Depois ficou trocando idéia com o pessoal, bebendo normalmente e fumando cigarro, como se nada tivesse acontecido.
Tomamos mais um pouco de breja, pagamos a conta e vazamos. No dia seguinte, às 5h, estávamos em frente ao complexo de presídios.

Quarta-feira, Março 01, 2006

Faz pelo menos uns três anos que isso aconteceu.
Minha chefia mandou que eu fosse ao velório de uma jovem. Ela havia morrido durante um assalto a ônibus, com um tiro na cabeça. Lá em São Mateus, perifa da zona leste de Sampa.
Já era o segundo dia que eu acompanhava aquela história.
No anterior, à tarde, pouco tempo depois de a garota morrer, cheguei no 49º DP. O busão onde ocorreu a desgraça tava parado em frente à delegacia. No chão do coletivo, entre os bancos, muito sangue e miolos. Da menina, do bandido e de um policial. Seus corpos já haviam sido retirados. Conversei com o cobrador e testemunhas.
Eles contaram que o ladrão entrou na bumba e, armado, anunciou o assalto. Na parte de trás do ônibus, entre os passageiros, viajava um escrivão de polícia. Também armado, ele quis dar uma de herói. Sacou seu cano e deu voz de prisão ao bandido.
Os dois acabaram trocando tiros dentro da busão lotado. E ambos morreram. Só que, no tiroteio, uma das balas, provavelmente da arma do escrivão, estourou a cabeça da pobre moça, que voltava pra casa depois de um dia de trabalho.
E lá fui eu pro velório da garota, no dia seguinte. Era no cemitério da Vila Formosa. O maior da América Latina e um dos mais toscos de São Paulo. Antes de me mandarem pra lá, já sabia que uma equipe de colegas havia sido agredida e expulsa do local pela família da menina. Pensei: "puta merda, a chefia sabe que a família não quer a gente lá e, mesmo assim, me manda". Mas tudo bem. Lá fui eu junto com um motorista gente boa. Um velhinho sossegado, piloto de táxi.
Até chegar no cemitério, eu não tinha comentado com o tiozinho sobre a agressão à equipe de colegas, ocorrida horas antes. Só no estacionamento do velório eu disse a ele: "é melhor o senhor parar o carro aqui na entrada, virado pra lá (saída). Qualquer coisa, entro correndo e a gente vaza". Experiente nesse tipo de situação, ele entendeu. "Já expulsaram alguém daí hoje?", perguntou. "Sim, uma equipe quase foi linchada", repondi. E desci do carro, colocando meu bloco de anotações no bolso pra não dar pala. Mas não fui cuidadoso o suficiente.
Um carinha que estacionava o carro perto da gente ganhou o movimento. Viu que eu escondia o bloco e logo veio perguntar quem eu era. Nessas ocasiões, é melhor não enrolar e já se identificar de cara. Foi o que eu fiz.
O mano então me disse que era primo da morta. E deu um toque: "Cara, na boa, se eu fosse você ia embora. O pessoal tá puto e não quer nenhum de vocês aqui. Se ficar, é melhor que ninguém descubra quem você é". Agradeci pelo aviso e disse a ele que podia ficar tranqüilo. Não abordaria ninguém da família.
Dito isso, fui para o velório. O caixão da mina tava lacrado. E o clima, extremamente tenso. As pessoas estavam revoltadas, putas da vida. Havia ódio no ar. Entre os familiares também vi
um monte de gambés com fardas do COE (Comando de Operações Especiais da PM - um dos grupos de elite da corporação).
Resolvi encostar no balcão da lanchonete do velório e tomar um café. Atento às conversas que rolavam à minha volta, escutei o balconista, um tio gordo e careca, comentar com um freguês: "a coisa tá feia aqui hoje. Querem enterrá a menina do lado do ladrão...". Resolvi me aproximar e entrar na conversa. Pedi detalhes ao tio. Então soube a origem de toda aquela tensão. O enterro da jovem estava marcado para acontecer no mesmo horário que o do assaltante do ônibus. E na mesma quadra do cemitério. As covas ficavam bem próximas uma da outra. Quase lado-a-lado.
"E pra piorar, a menina era namorada de um PM", completou o tio.
Pronto. Vi que podia acontecer uma desgraça a qualquer momento. Já imaginei o meganha namorado da mina atirando em algum parente do ladrão ou algo pior. Então fui conversar com o primo da vítima, aquele que tinha me alertado sobre o risco de apanhar. Ele confirmou a história e disse que toda a família estava muito puta com a situação. Também confirmou que a mina era noiva de um PM do COE. Tentei falar ainda com o oficial do comando que estava entre os gambés, mas ele não quis dizer nada.
No fim, acabei ligando para a administração do cemitério. O responsável pela marcação dos enterros disse que não sabia de nada e etc. E não quis dar declarações. Mas, pouco antes do sepultamento da menina, eu soube que, de última hora, remarcaram o enterro do assaltante para uma hora mais tarde. E mudaram o cara de cova. Ele permaneceria na mesma quadra que a jovem, mas cada um ficaria em uma extremidade dela, na mesma fileira de túmulos.
Acompanhei o enterro da garota de longe, junto com o velhinho taxista, dentro do carro. A expressão tensa permanecia no rosto das pessoas durante todo o enterro. Vira e mexe, algum deles ficava olhando pro nosso táxi, desconfiado. Tipo imaginando "quem são esses caras?".
Enterrada a garota, restavam bem poucos familiares junto ao túmulo dela quando o caixão do assaltante chegava à sua cova, levado pelos seus entes. "Não vai rolar mais nada. Vamo embora", eu disse ao motorista. A tensão havia acabado. Ninguém tentou me linchar.

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