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Testemunho de situações desgraçadas
Quinta-feira, Janeiro 05, 2006
Três dias antes do último Natal, um temporal nervoso castigou a região de Itaim Paulista, perifa da zona leste paulistana.
Quem mais sofreu os desastres da chuva, como sempre, foram os favelados. Seus barracos, construídos à beira do córrego Itaim, foram dominados pela água, que levou embora aparelhos de TV, som, roupas, documentos, comida, dinheiro...
No dia seguinte, fui lá dar uma olhada naquela desgraça. Era 23 de dezembro e o sol tava castigando. Sem dó.
Dentre várias pessoas, falei com uma mulher cujo barraco fora quase todo levado pela correnteza do córrego. O que restou dele estava caindo na água. Chorando, a dona me disse que os R$ 300 que ia usar para comprar roupas novas para os três filhos pequenos, seus presentes de Natal, foram embora com a enchente. Seu filho menor, um guri de 3 anos, estava nu. Além da roupa que ia ganhar do Papai Noel, perdeu todas que tinha.
Mas essa era apenas uma das histórias. A situação estava extremamente difícil. Junto com um colega, eu mal conseguia caminhar pela região. As pessoas cercavam a gente. Todos queriam que víssemos suas barracos. Contar-nos suas desgraças.
Um dos primeiros moradores que nos abordou, logo que chegamos à favela, era um homem negro, alto, de uns 40 anos. Estava completamente chapado de goró.
Inconformado com a perda de tudo que possuía, ele encheu a cara e cambaleava sobre a lama. Ao ver a gente circulando por ali e conversando com as pessoas, logo chegou junto. Com a língua meio enrolada, ele descreveu sua tragédia e, em meio à barroqueira, guiou-nos até seu barraco. Do lado de dentro, a marca deixada pela água beirava o teto.
Fora as roupas e suprimentos, ele perdeu suas ferramentas de trabalho. Fazia bicos de soldador. "Minha vida acabou", repetia cambaleando e soluçando, com as lágrimas escorrendo pela cara. Se bem me lembro, era casado e pai de três filhos.
Mas ele acabou se empolgando com a atenção que estávamos lhe dando e com as fotografias que meu camarada tirava dentro de sua casa. Principalmente aquela clássica, do dono do barraco apontando a marca d`água e olhando pra câmera com cara triste. Por isso, ele não queria que fôssemos embora e fez questão de levar a gente até a casa de um vizinho que também havia se fodido com a tempestade. "Vem cá, vem cá! Meu vizinho também perdeu tudo". Sem jeito de dizer não, seguimos o sujeito.
O vizinho não tava bêbado. Sua casa era um pouco melhor, feita de tijolo, não de tapume. Encontramos o cara lavando o chão. A residência tinha apenas um cômodo. Que o mano dividia com a mulher e os cinco filhos. No centro dela estava a geladeira. Pifada. Num canto, uma cama e, ao lado desta, um botijão de gás.
Comecei a conversar com ele, que tava puto da vida. Baixinho e com cara de briguento, xingava os políticos. Dizia que o governo tinha que tirar a grana dos ministros e deputados e dar ao povo da favela. Eu, é lógico, concordava. Político tem mais é que se foder mesmo.
A conversa, porém, era interrompida toda hora pelo bêbado. Que continuava por ali. Parecia que, a cada minuto, ele enrolava mais a língua. Tava ficando difícil entender o que dizia. Sei que uma frase que sempre repetia era: "É muita revolta. É muita revolta...".
Foi repetindo isso que ele começou a virar os olhos e a cambalear para trás. O máximo que pude fazer foi dizer "ei, cuidado...", o que não adiantou. Porque o cara tropeçou no botijão de gás e caiu sobre a cama. Completamente apagado.
A molecada que tava no barraco caiu numa gargalhada histérica, apontando para o bêbado. O baixinho, com mais cara de briguento ainda, praguejava. "Puta que pariu. Tanta merda acontecendo e agora vem essa zica". Eu e ele demos umas chacoalhadas no negrão. Mas o cara, de boca aberta, não acordava de jeito nenhum.
Sem mais o que fazer por ali, saí andando meio sem jeito. Para trás ficaram as crianças gargalhando e o dono do barraco xingando o vizinho. Que não lhe ouvia.
Algumas horas depois, em frente a um posto da prefeitura que distribuía colchões e cestas básicas para as vítimas da chuva, encontrei uma garotinha que também havia presenciado a cena do negrão desabando sobre a cama. "Ixi... Ele tá lá até agora", foi o que ela disse.
Quem mais sofreu os desastres da chuva, como sempre, foram os favelados. Seus barracos, construídos à beira do córrego Itaim, foram dominados pela água, que levou embora aparelhos de TV, som, roupas, documentos, comida, dinheiro...
No dia seguinte, fui lá dar uma olhada naquela desgraça. Era 23 de dezembro e o sol tava castigando. Sem dó.
Dentre várias pessoas, falei com uma mulher cujo barraco fora quase todo levado pela correnteza do córrego. O que restou dele estava caindo na água. Chorando, a dona me disse que os R$ 300 que ia usar para comprar roupas novas para os três filhos pequenos, seus presentes de Natal, foram embora com a enchente. Seu filho menor, um guri de 3 anos, estava nu. Além da roupa que ia ganhar do Papai Noel, perdeu todas que tinha.
Mas essa era apenas uma das histórias. A situação estava extremamente difícil. Junto com um colega, eu mal conseguia caminhar pela região. As pessoas cercavam a gente. Todos queriam que víssemos suas barracos. Contar-nos suas desgraças.
Um dos primeiros moradores que nos abordou, logo que chegamos à favela, era um homem negro, alto, de uns 40 anos. Estava completamente chapado de goró.
Inconformado com a perda de tudo que possuía, ele encheu a cara e cambaleava sobre a lama. Ao ver a gente circulando por ali e conversando com as pessoas, logo chegou junto. Com a língua meio enrolada, ele descreveu sua tragédia e, em meio à barroqueira, guiou-nos até seu barraco. Do lado de dentro, a marca deixada pela água beirava o teto.
Fora as roupas e suprimentos, ele perdeu suas ferramentas de trabalho. Fazia bicos de soldador. "Minha vida acabou", repetia cambaleando e soluçando, com as lágrimas escorrendo pela cara. Se bem me lembro, era casado e pai de três filhos.
Mas ele acabou se empolgando com a atenção que estávamos lhe dando e com as fotografias que meu camarada tirava dentro de sua casa. Principalmente aquela clássica, do dono do barraco apontando a marca d`água e olhando pra câmera com cara triste. Por isso, ele não queria que fôssemos embora e fez questão de levar a gente até a casa de um vizinho que também havia se fodido com a tempestade. "Vem cá, vem cá! Meu vizinho também perdeu tudo". Sem jeito de dizer não, seguimos o sujeito.
O vizinho não tava bêbado. Sua casa era um pouco melhor, feita de tijolo, não de tapume. Encontramos o cara lavando o chão. A residência tinha apenas um cômodo. Que o mano dividia com a mulher e os cinco filhos. No centro dela estava a geladeira. Pifada. Num canto, uma cama e, ao lado desta, um botijão de gás.
Comecei a conversar com ele, que tava puto da vida. Baixinho e com cara de briguento, xingava os políticos. Dizia que o governo tinha que tirar a grana dos ministros e deputados e dar ao povo da favela. Eu, é lógico, concordava. Político tem mais é que se foder mesmo.
A conversa, porém, era interrompida toda hora pelo bêbado. Que continuava por ali. Parecia que, a cada minuto, ele enrolava mais a língua. Tava ficando difícil entender o que dizia. Sei que uma frase que sempre repetia era: "É muita revolta. É muita revolta...".
Foi repetindo isso que ele começou a virar os olhos e a cambalear para trás. O máximo que pude fazer foi dizer "ei, cuidado...", o que não adiantou. Porque o cara tropeçou no botijão de gás e caiu sobre a cama. Completamente apagado.
A molecada que tava no barraco caiu numa gargalhada histérica, apontando para o bêbado. O baixinho, com mais cara de briguento ainda, praguejava. "Puta que pariu. Tanta merda acontecendo e agora vem essa zica". Eu e ele demos umas chacoalhadas no negrão. Mas o cara, de boca aberta, não acordava de jeito nenhum.
Sem mais o que fazer por ali, saí andando meio sem jeito. Para trás ficaram as crianças gargalhando e o dono do barraco xingando o vizinho. Que não lhe ouvia.
Algumas horas depois, em frente a um posto da prefeitura que distribuía colchões e cestas básicas para as vítimas da chuva, encontrei uma garotinha que também havia presenciado a cena do negrão desabando sobre a cama. "Ixi... Ele tá lá até agora", foi o que ela disse.