Testemunho de situações desgraçadas

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Foi difícil, mas conseguimos autorização pra entrar na penitenciária feminina do Tatuapé. Queríamos trocar idéia com mulas. Aquelas pessoas, geralmente mulheres, que fazem viagens internacionais carregando drogas.
Chegamos lá, eu e um colega, e fomos recebidos pela diretora de disciplina. Uma loirona coroa, alta e bem gata. Ela nos encaminhou pra uma salinha minúscula e disse que falaria com as presas pra saber quais delas aceitariam conversar com a gente.
Depois de alguns minutos, a loira voltou com uma mulher de quarenta e poucos anos. Meio gorda, cara de mãe de família. Ela ficou com a gente na salinha e a diretora saiu fora. A presa então sentou à nossa frente. Era simpática. Contou que, num bar daqueles freqüentados por quarentões divorciados, conheceu um sujeito que se vestia bem, era educado e tinha um belo carro. Teve um breve caso com ele até o galã lhe dar uma passagem de avião para a Europa. Disse pra ela "ir na frente". Ele iria dali a alguns dias. Pediu ainda à namorada que levasse uma mala dele na viagem. Ela concordou e, quando ia embarcar em Cumbica, a PF achou um monte de farofa na mala do pilantra. A mulher foi presa e, depois disso, nunca mais ouviu falar do canalha.
Se a história que ela contou era verdadeira, não sei. Não confio em ninguém. Mas me chamou atenção a calma da presa, que já estava lá havia quase seis anos e, em breve, seria libertada. Além de sua serenidade, percebi também que ela era ligeira. Falava pausadamente, escolhendo as palavras. E tinha esperteza no olhar.
Quando lhe perguntei sobre a rotina da prisão, se foi difícil ela se adaptar e etc, a presa sorriu. Disse que tinha feito "muitas amigas" lá dentro, que aprendera vários tipos de trabalho na oficina da penitenciária, que estava muito bem e etc. Falou também sobre o drama da distância da família e blá blá blá... Depois que terminamos a conversa com ela, vimos que o papo tinha durado umas duas horas. Só teríamos então tempo pra falar com mais uma presa.
Demos um toque na loira diretora. E ela trouxe a outra mula. Que tinha o mesmo perfil da anterior. Cara de mãe de família, 40 e poucos anos, divorciada, com filhos e etc. Só que essa já não estava calma e nem sorridente. A mulher fora presa havia apenas alguns meses. Seus olhos estavam arregalados, cheios de loucura, e suas mãos tremiam. Foi logo disparando:
- Isso aqui é o inferno. Não é lugar pra mim. Sou mãe de família. Tenho filhos já grandes. Não sou bandida. Não sou bandida...
Calmamente, fomos conversando com ela. Que contou uma história parecida com a da outra mula, só que com detalhes mais, diríamos, "sensacionais".
Se bem me lembro, ela disse que também caiu na história de um galã dessas baladas para quarentonas divorciadas. O cara, que parecia ser o mesmo da outra história _ bonitão, rico, com carro da hora _, namorou com ela durante uns dias, depois a chamou para ir à europa mas, em vez de pedir que ela levasse uma mala na viagem, combinou com a coroa de se encontrarem no estacionamento de um supermercado pra, depois, irem ao aeroporto.
Aí, enquanto ela esperava o Don Juan, uns manos mascarados e armados com pistolas apareceram em um carro preto e, apontando os canos pra ela, abriram a porta da caranga e mandaram a tia entrar. Dentro do carro, eles fizeram ela tirar a blusa e logo lhe amarraram um cinturão recheado de farinha, que foi descoberto pelos policiais federais de Cumbica.
- Eu pedia pelo amor de deus que não fizessem aquilo... Eles diziam que conheciam meus filhos, sabiam os nomes deles e que, se eu não fizesse o que mandassem [embarcar com a droga], minha família seria morta _, narrou, com lágrimas escorrendo pelo rosto e ainda com os olhos arregalados, loucos.
A insanidade de seu olhar aumentou ainda mais quando eu lhe pedi para dizer por que considerava o presídio um inferno (pois a presa anterior o descrevera como um paraíso).
- As meninas fumam crack na minha frente. Todas são lésbicas e transam na cela. Eu sou obrigada a agüentar aquilo. Eu que sou mãe de família e nunca vi esse tipo de coisa na minha frente! Elas ficam me olhando tomar banho e dizendo que meu corpo é bonito [de fato, não era de se jogar fora]. Que eu sou gostosa e tenho que arrumar logo uma namorada. Todas têm namorada aqui dentro. Eu não agüento mais... Vou enlouquecer...
Lembrei da expressão serena no rosto da outra tia. Já a imaginei numa suruba com as "amigas" que disse ter feito na prisão.
Escrevo isso em tom irônico, mas sei como é foda pras detentas. Elas não são como os homens que estão no sistema prisional, pra quem, todo fim de semana, há filas intermináveis de mulheres visitantes. Algumas delas que até nem conhecem os caras e querem entrar lá para arrumar namorado (!).
Já o homem não. É um bicho filho da puta. A mina do vagabundo vai presa e, na maioria das vezes, ele esquece dela. Rapidinho, arruma outra do lado de fora. Por isso, a falta de carinho e de contato com os machos as leva a buscar conforto nos braços de suas colegas.
Terminada a segunda conversa, que também durou umas duas horas, eu e o colega saímos fora conversando sobre isso. Ele observou:
- Logo logo essa que conversou com a gente agora vai tá calminha igual à primeira. Senti que ela tá louca pra dar e vai dar pras minas...
Concordei.

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