Testemunho de situações desgraçadas

Segunda-feira, Novembro 21, 2005

Dia desses eu e um colega estávamos à procura da casa de um bombeiro. O cara tava foragido. Tinha matado o próprio irmão com um tiro no peito, na noite anterior, em frente à casa da mãe. Queríamos trocar uma idéia com a esposa dele pra ver o que ela falava do marido.
Vizinhos da mãe tinham dito que o fratricídio (palavrinha bonita, hein?) ocorrera porque ambos os irmãos tavam bêbados e começaram a bater boca por causa de algo besta, uma discusão sobre futebol ou coisa assim.
"Eles eram muito unidos. Mas enchiam a cara sempre. E quando enchiam a cara, desandavam a brigar", disse uma tiazinha, na rua onde ocorreu o crime. A família não quis dar nenhuma declaração.
No DP de Pirituba, onde o caso foi registrado, peguei o endereço do bombeiro, que morava na Brasilândia.
Dirigimo-nos àquele bairro. Dentro do carro eu tentava, com o guia de ruas no colo, localizar o endereço. Não achei a rua que constava no B.O., mas achei uma de nome parecido, na mesma região. Por telefone, combinei com o colega de encontrá-lo lá pra gente fazer a correria juntos.
Chegamos à rua, que era bem comprida. Não tínhamos o número da casa, então começamos a perguntar aos moradores se conheciam algum bombeiro de nome x, que tinha matado o irmão e etc e tal...
Na quinta ou quarta casa em que perguntamos, uma velhinha disse "vocês têm que ir naquele boteco e falar com o Jacaré. Ele conhece todo mundo da rua".
Fomos ao boteco. Uma bodega bem pequena e escura. Em frente, dois sujeitos, sentados a uma mesinha de ferro, trocavam idéia e tomavam cerveja. Dentro, uma neguinha de uns 30 e poucos anos lavava o chão.
Os que bebiam em frente tavam breacos. Um era magrelo, tinha barba por fazer e os olhos vermelhos de tanta cachaça. O outro era gordo, pardo, de cabelo carapinha e também com cara de alcoólatra. Tinha um papagaio em cima de cada ombro e um terceiro pendurado no peito. Eles ficavam mordendo as orelhas e o queixo do cara, que não tava nem aí.
Ao mesmo tempo que a gente, uma garota magra, morena, de olhos claros, chegou no boteco de mãos dadas com uma menininha de uns cinco anos. Ela começou a falar com o gordo dos papagaios. Enquanto isso, abordei o magrelo.
- Boa tarde. Tudo certo? Precisamos falar com o Jacaré...
- O que vocês querem com o Jacaré? _ perguntou o cara, desconfiado.
Explicamos quem éramos e o que queríamos.
O magrelo breaco então virou pro gordo e disse:
- Aê, Jacaré, querem falá com você.
Jacaré, empolgado na conversa com a mocinha, pediu pra gente esperar. Só então, prestando, atenção no jeito dele, percebi que não era ele, mas ela... Jacaré era uma tremenda sapatão. Na minha vida, nunca vi uma mulher tão parecida com um homem.
A garota trocou mais umas palavras com ela, não lembro sobre o quê, e depois foi embora, levando a criança.
- Eu dô atenção, trato bem e depois como ela, he he he... _ disse então a sapatão, pra gente e pro magrelo _ Mas diz aí. O que cês qué?
Enquanto eu e o brother lhe explicávamos nosso objetivo, a neguinha que lavava o bar nos interrompeu.
- Ô Jacarééé... Acabou o produto de limpeza!
- Porra, loira [ele se referia à neguinha]! Já foi tudo?
- Aaah... Só tinha um restinho...
- Pô, loira, num me fode...
Nisso, Jacaré virou pro magrelo a seu lado e lhe deu dinheiro.
- Vai comprá produto de limpeza pra loira _ e virando-se pra gente _ a loira chupa que é uma beleza, NÃO É NÃO, LOIRA?
- O quê?
Jacaré fez pra ela um gesto com a mão e a boca, imitando alguém chupando pinto. Depois caiu numa gargalhada fanfarrona.
- Vai se fudê! _ gritou a "loira".
E a sapatona voltou a dar atenção pra nós.
- O que cês qué mesmo?
- Saber onde mora o bombeiro _ respondi.
- Bombeiro, bombeiro...
E ficou com ar pensativo, enquanto os papagaios mordiam-lhe as orelhas e caminhavam sobre seus ombros e seios fartos.
No fim, ela não soube dizer onde morava a porra do bombeiro. E eu saí fora. Meu colega soube depois que a gente tava na rua errada e foi pra rua certa. Lá, encontrou a casa que procurávamos. Mas a esposa do cara não estava.
Pensei: "Foda-se... A correria valeu por ter conhecido a Jacaré."

Domingo, Novembro 06, 2005

Fazia tempo que eu não via um corpo em local de homicídio. Há uns quatro, cinco anos isso era rotina. Quase todo dia eu me deparava com um presunto ensangüentado. Mas hoje é raro. Minha chefia só me deixa ir atrás de um assassinato se a vítima é, no mínimo, de classe média alta. Morte de pobre não merece mais atenção, salvo raras exceções.
Muitos podem pensar que eu devia estar feliz com essa atual situação. Que ver cadáveres em poças de sangue só dá prazer a psicopatas. E concordo. Não é nada agradável olhar massa encefálica, sentir cheiro de sangue, putrefação e etc. Porém, é fato que meu trabalho ficou muito menos divertido com essa tendência a ignorar as mortes na periferia.
Quando você vai à favela, num local de homicídio, encontra aquela atmosfera esquisita. Em torno do presunto há um clima que envolve mistério, adrenalina, medo, tristeza, sei lá... Um negócio sinistro. Aí a gente começa a falar com a vizinhança, com parentes do finado, com os policiais... Aos poucos vai descobrindo coisas sobre a vida da vítima. E, a cada descoberta, a história vai ficando mais interessante.
É disso que sinto falta.
Enfim... Tô aqui divagando mas o que quero é contar o que aconteceu na última quarta, Dia de Finados. Um camarada me ligou dizendo que havia um homem morto dentro de uma Ranger na região do Morumbi. Passou-me o endereço do local e disse que tava indo pra lá.
Avisei a minha chefia. "Morumbi", "Ranger". Palavras chave. Que indicam que o morto pode ser filhinho de papai, rico empresário, advogado renomado ou qualquer outro espécime da escória abastada desse país de merda.
Logo me mandaram, junto com um colega fotógrafo, pro local. Na verdade não era no Morumbi, mas num bairro vizinho, de classe média baixa, que faz divisa com Taboão da Serra.
Chegamos lá e vi a Ranger estacionada. Troquei uma breve idéia com dois PMs que preservavam a cena. Eles me contaram que o corpo estava na caçamba da camionete, escondido sob pedaços de tábua e tapume.
Dei uma sondada pela vizinhança e uma tiazinha velha disse que o carro foi parado lá por volta das 4h20 da manhã. "Uma amiga minha passou aqui às 4h10 e não viu nada. Mas, quando era 4h30, vi o carro parado aí", foi o que ela disse. O que a amiga fazia passeando por ali às 4h10 eu não perguntei. Também não quis saber por que ela olhou a rua às 4h30.
Depois disso eu e o brother fotógrafo decidimos ir almoçar. O pessoal da rua falou pra gente que tinha um restaurante lá perto, dobrando a esquina. Quando caminhávamos em direção a ele, vimos as viaturas do Departamento de Homicídios chegando. E adiamos o almoço.
Os peritos então retiraram as tábuas e tapumes da caçamba da camionete e pudemos ver o que parecia ser um casulo de plástico. O corpo estava enrolado em uma capa, daquelas de cobrir automóvel, amarrada com várias voltas de barbante. Nesse momento, outro colega meu _ o mesmo que me ligou pra avisar sobre o caso _ me disse: "Mano, do jeito que eu tô, se eu ver essa merda vou vomitar. Vou pro carro e depois você me conta o que aconteceu". O mano tinha enchido muito a cara na noite anterior e a ressaca estava lhe matando. "Ainda tô bêbado", dizia. Falei pro brother que tava tudo certo e ele foi pro carro dele.
Aí o casulo foi retirado da caçamba e colocado no asfalto. Num dos nós de barbante estava preso um saquinho de supermercado. Um japonês do Instituto de Criminalística pegou o saco e, dele, tirou uma folha de caderno. Nela estava escrito, "coisa safado" com caneta esferográfica, em letras grandes. Logo percebi que o morto não era playboy.
Cortados os barbantes, os tiras desenrolaram a capa de automóvel. Debaixo dela, o cadáver estava, ainda, enrolado em um plasticão preto. Quando abriram o plasticão, vimos o corpo e o sangue. Muito sangue. Misturado, aqui e ali, a gosminhas brancas de massa encefálica. O cadáver já estava começando a feder.
O cara era pardo e aparentava uns 40 anos. Tinha tomado dois tiros na cabeça. Com as pontas de uma tesoura, o japonês do IC começou a cutucar o crânio dele pra ver se não tinha mais perfurações. Aquilo me deu uma certa aflição.
Depois, cortaram as roupas do cara e o deixaram só de cueca. O espetáculo, como sempre, atraiu moradores. Logo juntaram dezenas de pessoas em volta, principalmente crianças, para ver o show da perícia.
Eu devia estar a uma distância de dois metros do presunto. Por isso, quando colocaram o mano de bruços ouvi, nitidamente, o barulho do gás intestinal que atravessou a cueca ensangüentada dele. Pfffffffrrrrrrrrrrrrrr... Um dos peidos mais longos que já ouvi. Saindo de um cadáver. Eu sabia que, depois que a gente morre, o corpo começa a soltar todos seus gases. Mas nunca tinha visto aquilo na minha frente.
Terminada a perícia, os policiais colocaram novamente a lona de carro sobre o corpo. Troquei uma idéia com o delegado. O morto estava sem documentos e a Ranger, alienada, em nome de uma seguradora. Portanto, o cara não foi identificado.
Meu camarada que tava de ressaca reapareceu. Disse que tinha ido até um supermercado Extra, perto dali, pra vomitar no banheiro. Contei-lhe o que sabia e ele classificou aquele caso de "cururucídio".
Despedimo-nos e eu e o fotógrafo fomos bater uma feijoada.

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