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Testemunho de situações desgraçadas
Terça-feira, Agosto 30, 2005
Fiquei puto na semana passada.
Tava dando um trampo à tarde, quando me passaram um telefonema. Era um colega meu, grande profissional, dizendo que acabara de ser demitido. Havia saído da empresa à francesa e pedia para eu dizer aos demais companheiros que ele deixava um abraço.
O motivo foi injusto. Um verme que um dia ainda vai se dar muito mal fodeu o cara por algo que ele nem tinha culpa.
Mas acredito que o mano logo encontre trabalho. Como eu já disse, é um grande profissional. Que sabe fazer bem seu trampo, tem interesse, empolgação e é esperto. Saca as coisas rápido.
Foi com ele que vivi uma das histórias mais malucas desse mundo de desgraças. Uma vez, deram a nós e a outras quatro equipes a missão de irmos a todos os locais de homicídio da cidade durante duas madrugadas. De sexta pra sábado e de sábado pra domingo.
Nessas duas noites, portanto, vimos alguns cadáveres. Entre eles os de um casal morto a tiros em uma rua em declive. Uma menina de 14 anos e um cara de 20 e poucos. O sangue deles saía de suas cabeças estouradas e escorria rua abaixo. Até fazer curva rumo à sarjeta. O brother fez altas fotos do riozinho vermelho, enquanto eu falava com tiozinhos da vizinhança. Que me diziam que tinham ouvido os tiros "na hora do Zorra Total".
De lá saímos para outros lugares. Outras desgraças. Quando o dia já estava quase amanhecendo, fomos avisados, por celular, de que havia dois travestis assassinados na avenida Cantídio Sampaio, periferia da zona norte. Fomos pra lá.
Já estava claro quando chegamos ao 72o DP, onde o caso havia sido registrado. No balcão da delegacia, um tira atendeu a gente muito mal. Extremamente grosso, disse que não podíamos mais ver o B.O.. Porque tinha sido feito de madrugada e blá blá blá. Então eu falei "mas ainda são seis e meia da manhã. Que eu saiba o plantão da madrugada vai até as oito. Como não dá mais pra ver o B.O.?".
Pra quê? O tira ficou possesso, falou que não conseguiríamos mais informação nenhuma e que, se quiséssemos algo, teríamos que falar com os PMs. E ele disse isso no momento em que os PMs tavam indo embora.
Corri até a viatura e a alcancei antes que ela saísse do pátio do distrito. Os PMs foram gente boa e deixaram que eu lesse sua cópia do boletim. Lá constava que, "no local dos fatos não havia campo para perícia" e que, devido a isso, "não houve necessidade de acionar o Instituto de Criminalística". Achei aquilo bem estranho. Como em um local de homicídio não há "campo para perícia"?. Então falei com o colega e resolvemos ir até lá.
À procura do local, perambulando pela avenida Cantídio Sampaio, em sua parte cercada por barracos, acabamos trombando uma equipe do GOE e uma viatura da Delegacia Seccional Norte. Ambas também procuravam o pico do homicídio. A equipe do GOE, porque havia recebido uma falsa informação de um policial baleado na região e, como já estava lá, resolveu dar uma olhada no caso dos travecos. Os tiras da Seccional (eram dois), porque, como nós, acharam estranha aquela história de não haver campo para perícia.
Resolvemos ir em comboio. A gente e os policiais. Até que achamos o tal local. Ficava em frente a um barraco que beirava a Cantídio. Lá havia muito sangue, um par de sandálias hawaianas, daquelas com desenhos de flores, de uma das vítimas _que foram socorridas e morreram no hospital_ e vários projéteis de arma de fogo no chão e nas paredes do barraco.
"Como não há campo para perícia? Tá aqui o campo para perícia!", disse, inconformado, o delegado do GOE. A própria equipe comandada por ele acabou periciando o local. Como eles não tinham fotógrafo, meu camarada fez as fotos para a polícia e até forneceu envelopes em que guardava filmes para que os policiais guardassem os projéteis encontrados.
Depois de tudo aquilo, o GOE foi embora. Já era umas oito da manhã e eu ainda tinha que voltar à base para escrever sobre todas as desgraças daquela noite. Mas os dois tiras da seccional, que continuaram lá, deram um toque. Eles sabiam, mais ou menos, onde moravam os travecos assassinados e perguntaram se a gente não ia querer procurar a casa junto com eles. Concordamos na hora e saímos seguindo os tiras.
Informando-nos com as pessoas da rua, achamos a casa das bonecas. Ela ficava sobre uma enorme pedra, ao lado da Cantídio. Uma escada toda torta, talhada na pedra, levava até a residência. "Olha só essa escada... Que incrível... Por que você não tira uma foto dela?", perguntou um dos tiras, com cara de perplexo, ao meu colega. Que rachou o bico.
Enfim, subimos a tal escada. Os tiras bateram palmas e gritaram "polícia!". Passaram-se alguns minutos e um traveco abriu a porta.
"Queremos entrar pra fazer umas perguntas", disse o policial. Muito contrariado, o traveco liberou a entrada.
Travestis são personagens típicos da noite. Nós, que circulamos por aí de madrugada, estamos mais do que acostumados a vê-los. Mas eu nunca havia entrado em uma casa cheia de travecos. Foi louco ver que, naquela casinha em cima da pedra, que tinha uma sala, um banheiro e uma cozinha minúsculos, havia uns seis, além de um cara que devia ser namorado de algum deles.
Todos estavam arredios e olhando feio pra gente.
Os tiras começaram a fazer as perguntas. E as bonecas respondiam, aos poucos, impacientes. Aí eu também comecei a perguntar coisas sobre o crime, as vítimas e etc, sem saber se os investigadores iam gostar da minha atitude.
O traveco a quem dirigi a primeira pergunta, um negrão, olhou feio pra mim e ficou quieto. Um dos policiais então disse "vai, responde pra ele". E o negrão deu uma bufada e começou a responder com ódio no olhar. A partir daí, sentimo-nos à vontade para participar do "interrogatório". Que ainda durou um tempão.
Saímos de lá por volta das dez da manhã. Sabendo que dois dos travecos eram testemunhas do crime. Eles estavam junto com os colegas assassinados. Todos haviam passado a noite fazendo programas na avenida Marquês de São Vicente. Depois do "trabalho" resolveram comer uns espetinhos de carne em um poto da Cantídio Sampaio. Lá, um cara, também cliente do posto, resolveu zoar os travecos, falando sacanagens. Eles ficaram putos e xingaram o sujeito pra caralho.
Quando voltavam pra casa, a pé, um motoqueiro _ que eles achavam ser o cidadão do posto _ passou voando pela avenida, disparando no grupo. E os tiros mataram duas das bonecas.
Na saída da casa dos travestis, o tira sugeriu de novo que o meu colega fotografasse aquela escada torta. Mais uma vez demos risada. Despedimo-nos deles e fomos para a base. Cientes de que havíamos feito um puta trabalho louco, que, inclusive, gerou o afastamento do delegado plantonista do 72o DP. O que não quis periciar o local, é claro.
Agora que o mano foi mandado embora, só me resta desejar que ele encontre trabalho logo e que, em breve, possamos voltar a fazer juntos essas correrias. É isso aí...
Tava dando um trampo à tarde, quando me passaram um telefonema. Era um colega meu, grande profissional, dizendo que acabara de ser demitido. Havia saído da empresa à francesa e pedia para eu dizer aos demais companheiros que ele deixava um abraço.
O motivo foi injusto. Um verme que um dia ainda vai se dar muito mal fodeu o cara por algo que ele nem tinha culpa.
Mas acredito que o mano logo encontre trabalho. Como eu já disse, é um grande profissional. Que sabe fazer bem seu trampo, tem interesse, empolgação e é esperto. Saca as coisas rápido.
Foi com ele que vivi uma das histórias mais malucas desse mundo de desgraças. Uma vez, deram a nós e a outras quatro equipes a missão de irmos a todos os locais de homicídio da cidade durante duas madrugadas. De sexta pra sábado e de sábado pra domingo.
Nessas duas noites, portanto, vimos alguns cadáveres. Entre eles os de um casal morto a tiros em uma rua em declive. Uma menina de 14 anos e um cara de 20 e poucos. O sangue deles saía de suas cabeças estouradas e escorria rua abaixo. Até fazer curva rumo à sarjeta. O brother fez altas fotos do riozinho vermelho, enquanto eu falava com tiozinhos da vizinhança. Que me diziam que tinham ouvido os tiros "na hora do Zorra Total".
De lá saímos para outros lugares. Outras desgraças. Quando o dia já estava quase amanhecendo, fomos avisados, por celular, de que havia dois travestis assassinados na avenida Cantídio Sampaio, periferia da zona norte. Fomos pra lá.
Já estava claro quando chegamos ao 72o DP, onde o caso havia sido registrado. No balcão da delegacia, um tira atendeu a gente muito mal. Extremamente grosso, disse que não podíamos mais ver o B.O.. Porque tinha sido feito de madrugada e blá blá blá. Então eu falei "mas ainda são seis e meia da manhã. Que eu saiba o plantão da madrugada vai até as oito. Como não dá mais pra ver o B.O.?".
Pra quê? O tira ficou possesso, falou que não conseguiríamos mais informação nenhuma e que, se quiséssemos algo, teríamos que falar com os PMs. E ele disse isso no momento em que os PMs tavam indo embora.
Corri até a viatura e a alcancei antes que ela saísse do pátio do distrito. Os PMs foram gente boa e deixaram que eu lesse sua cópia do boletim. Lá constava que, "no local dos fatos não havia campo para perícia" e que, devido a isso, "não houve necessidade de acionar o Instituto de Criminalística". Achei aquilo bem estranho. Como em um local de homicídio não há "campo para perícia"?. Então falei com o colega e resolvemos ir até lá.
À procura do local, perambulando pela avenida Cantídio Sampaio, em sua parte cercada por barracos, acabamos trombando uma equipe do GOE e uma viatura da Delegacia Seccional Norte. Ambas também procuravam o pico do homicídio. A equipe do GOE, porque havia recebido uma falsa informação de um policial baleado na região e, como já estava lá, resolveu dar uma olhada no caso dos travecos. Os tiras da Seccional (eram dois), porque, como nós, acharam estranha aquela história de não haver campo para perícia.
Resolvemos ir em comboio. A gente e os policiais. Até que achamos o tal local. Ficava em frente a um barraco que beirava a Cantídio. Lá havia muito sangue, um par de sandálias hawaianas, daquelas com desenhos de flores, de uma das vítimas _que foram socorridas e morreram no hospital_ e vários projéteis de arma de fogo no chão e nas paredes do barraco.
"Como não há campo para perícia? Tá aqui o campo para perícia!", disse, inconformado, o delegado do GOE. A própria equipe comandada por ele acabou periciando o local. Como eles não tinham fotógrafo, meu camarada fez as fotos para a polícia e até forneceu envelopes em que guardava filmes para que os policiais guardassem os projéteis encontrados.
Depois de tudo aquilo, o GOE foi embora. Já era umas oito da manhã e eu ainda tinha que voltar à base para escrever sobre todas as desgraças daquela noite. Mas os dois tiras da seccional, que continuaram lá, deram um toque. Eles sabiam, mais ou menos, onde moravam os travecos assassinados e perguntaram se a gente não ia querer procurar a casa junto com eles. Concordamos na hora e saímos seguindo os tiras.
Informando-nos com as pessoas da rua, achamos a casa das bonecas. Ela ficava sobre uma enorme pedra, ao lado da Cantídio. Uma escada toda torta, talhada na pedra, levava até a residência. "Olha só essa escada... Que incrível... Por que você não tira uma foto dela?", perguntou um dos tiras, com cara de perplexo, ao meu colega. Que rachou o bico.
Enfim, subimos a tal escada. Os tiras bateram palmas e gritaram "polícia!". Passaram-se alguns minutos e um traveco abriu a porta.
"Queremos entrar pra fazer umas perguntas", disse o policial. Muito contrariado, o traveco liberou a entrada.
Travestis são personagens típicos da noite. Nós, que circulamos por aí de madrugada, estamos mais do que acostumados a vê-los. Mas eu nunca havia entrado em uma casa cheia de travecos. Foi louco ver que, naquela casinha em cima da pedra, que tinha uma sala, um banheiro e uma cozinha minúsculos, havia uns seis, além de um cara que devia ser namorado de algum deles.
Todos estavam arredios e olhando feio pra gente.
Os tiras começaram a fazer as perguntas. E as bonecas respondiam, aos poucos, impacientes. Aí eu também comecei a perguntar coisas sobre o crime, as vítimas e etc, sem saber se os investigadores iam gostar da minha atitude.
O traveco a quem dirigi a primeira pergunta, um negrão, olhou feio pra mim e ficou quieto. Um dos policiais então disse "vai, responde pra ele". E o negrão deu uma bufada e começou a responder com ódio no olhar. A partir daí, sentimo-nos à vontade para participar do "interrogatório". Que ainda durou um tempão.
Saímos de lá por volta das dez da manhã. Sabendo que dois dos travecos eram testemunhas do crime. Eles estavam junto com os colegas assassinados. Todos haviam passado a noite fazendo programas na avenida Marquês de São Vicente. Depois do "trabalho" resolveram comer uns espetinhos de carne em um poto da Cantídio Sampaio. Lá, um cara, também cliente do posto, resolveu zoar os travecos, falando sacanagens. Eles ficaram putos e xingaram o sujeito pra caralho.
Quando voltavam pra casa, a pé, um motoqueiro _ que eles achavam ser o cidadão do posto _ passou voando pela avenida, disparando no grupo. E os tiros mataram duas das bonecas.
Na saída da casa dos travestis, o tira sugeriu de novo que o meu colega fotografasse aquela escada torta. Mais uma vez demos risada. Despedimo-nos deles e fomos para a base. Cientes de que havíamos feito um puta trabalho louco, que, inclusive, gerou o afastamento do delegado plantonista do 72o DP. O que não quis periciar o local, é claro.
Agora que o mano foi mandado embora, só me resta desejar que ele encontre trabalho logo e que, em breve, possamos voltar a fazer juntos essas correrias. É isso aí...
Terça-feira, Agosto 02, 2005
Quando ouvi que o nome do lugar era "Estrada da Cata Preta", imaginei que boa coisa não ia encontrar por lá. Ainda por cima de madrugada. Mas eu e o colega entramos no carro e fomos mesmo assim.
Na tal estrada, que fica na periferia de Santo André, há uma espécie de clube da prefeitura, com quadras poliesportivas, gramado, parquinho pra crianças, paredes com desenhos de bichinhos felizes e etc. Nesse bonito clube, que fica entre uma rua de terra e uma favelona, um cara fora morto a tiros naquela noite.
Não sabíamos o horário exato do homicídio. Tava difícil conseguir informações da polícia via telefone. O corpo ainda podia estar quente, sangrando no local e cercado de gente. Ou gelado, em alguma mesa do IML de Santo André.
Infelizmente, quando chegamos lá, constatamos que a segunda suposição era a correta. Não havia mais corpo, não havia mais polícia, não havia mais ninguém. Somente as luzes da favela, que se erguia em um morro que beirava a grade do outro lado do clube.
Este era todo iluminado por holofotes. Tipo aqueles de estádio de futebol. Da favela, todo mundo podia ver a gente, dois manés perambulando sozinhos por um local de homicídio na periferia, em plena madrugada.
De onde estávamos, só conseguíamos ver aqueles pontos de luz brilhando. O resto da favela ficava mergulhado no breu.
Aí descemos do carro e chegamos ao portão do clube, escancarado. Eu e o colega nos olhamos desconfiados. Sabíamos que se entrássemos seríamos alvos fáceis. Mas o brother disse "vamoaí?" e eu respondi "vamoaí".
Entramos. E começamos a fuçar pelo gramado, pelas quadras, pelas paredes de bichinhos em busca de uma poça de sangue ou qualquer coisa que indicasse o local exato da morte do cara. Afinal, o colega precisava fotografar alguma coisa. Durante uns 20 minutos vagamos pelo clube fantasma. Em todo esse tempo eu olhava pra todos os lados, esperando que algum malaco saísse de um canto escuro com uma quadrada na mão pra, na melhor das hipóteses, mandar a gente sair fora dali. Mas ninguém aparecia. E o silêncio reinava absoluto.
Até que o companheiro, com uma lanterninha que sempre trazia consigo, achou uns pedaços de roupa e um pé de tênis ao lado de uma pequena mancha de sangue no gramado.
Continuei ligeiro, olhando em todas as direções, enquanto ele mandava flashs em cima daquilo. "Se a gente não chamou atenção vagando pelo clube, esses flashs com certeza vão chamar", era o que eu pensava naquela hora.
Ainda bem que minha preocupação foi em vão. Nenhum homicida, maníaco ou ladrão apareceu. Ainda demos uma fuçada a mais pelo local e até encontrei um bilhetinho no meio da grama, escrito por uma moça e endereçado à vítima. Pegamos o blilhete e vazamos.
Quando chegamos ao 1o DP de Santo André, constatamos que, nem pessoalmente, a polícia nos falaria algo sobre o caso. O delegado era uma besta. Até fez cara feia quando lhe demos o bilhete que encontramos. Aquilo poderia ser uma pista, porém ele não aliviou. Depois de correr todo aquele risco no clube, voltamos para a base só com o nome do morto, hora do homicídio e mais nada.
Na tal estrada, que fica na periferia de Santo André, há uma espécie de clube da prefeitura, com quadras poliesportivas, gramado, parquinho pra crianças, paredes com desenhos de bichinhos felizes e etc. Nesse bonito clube, que fica entre uma rua de terra e uma favelona, um cara fora morto a tiros naquela noite.
Não sabíamos o horário exato do homicídio. Tava difícil conseguir informações da polícia via telefone. O corpo ainda podia estar quente, sangrando no local e cercado de gente. Ou gelado, em alguma mesa do IML de Santo André.
Infelizmente, quando chegamos lá, constatamos que a segunda suposição era a correta. Não havia mais corpo, não havia mais polícia, não havia mais ninguém. Somente as luzes da favela, que se erguia em um morro que beirava a grade do outro lado do clube.
Este era todo iluminado por holofotes. Tipo aqueles de estádio de futebol. Da favela, todo mundo podia ver a gente, dois manés perambulando sozinhos por um local de homicídio na periferia, em plena madrugada.
De onde estávamos, só conseguíamos ver aqueles pontos de luz brilhando. O resto da favela ficava mergulhado no breu.
Aí descemos do carro e chegamos ao portão do clube, escancarado. Eu e o colega nos olhamos desconfiados. Sabíamos que se entrássemos seríamos alvos fáceis. Mas o brother disse "vamoaí?" e eu respondi "vamoaí".
Entramos. E começamos a fuçar pelo gramado, pelas quadras, pelas paredes de bichinhos em busca de uma poça de sangue ou qualquer coisa que indicasse o local exato da morte do cara. Afinal, o colega precisava fotografar alguma coisa. Durante uns 20 minutos vagamos pelo clube fantasma. Em todo esse tempo eu olhava pra todos os lados, esperando que algum malaco saísse de um canto escuro com uma quadrada na mão pra, na melhor das hipóteses, mandar a gente sair fora dali. Mas ninguém aparecia. E o silêncio reinava absoluto.
Até que o companheiro, com uma lanterninha que sempre trazia consigo, achou uns pedaços de roupa e um pé de tênis ao lado de uma pequena mancha de sangue no gramado.
Continuei ligeiro, olhando em todas as direções, enquanto ele mandava flashs em cima daquilo. "Se a gente não chamou atenção vagando pelo clube, esses flashs com certeza vão chamar", era o que eu pensava naquela hora.
Ainda bem que minha preocupação foi em vão. Nenhum homicida, maníaco ou ladrão apareceu. Ainda demos uma fuçada a mais pelo local e até encontrei um bilhetinho no meio da grama, escrito por uma moça e endereçado à vítima. Pegamos o blilhete e vazamos.
Quando chegamos ao 1o DP de Santo André, constatamos que, nem pessoalmente, a polícia nos falaria algo sobre o caso. O delegado era uma besta. Até fez cara feia quando lhe demos o bilhete que encontramos. Aquilo poderia ser uma pista, porém ele não aliviou. Depois de correr todo aquele risco no clube, voltamos para a base só com o nome do morto, hora do homicídio e mais nada.