Testemunho de situações desgraçadas

Segunda-feira, Junho 06, 2005

Duplo homicídio em um salão de barbeiro, no Jardim Santa Cecília, região do Parque Cocaia. Ocorrido havia poucas horas. Corpos no local.
Enfim algo interessante a fazer naquela madrugada fria. Eu e o colega de plantão pegamos o carro e fomos para lá.
O Jardim Santa Cecília não é o tipo do lugar feito para se passear à noite. Ruas de terra desertas e escuras. Nenhuma alma viva circulando.
Chegamos ao salão de barbeiro, que, na verdade, era de cabeleireiro. Unissex. Havia uma Blazer da PM, com o giroflex ligado, estacionada em frente. A porta de ferro do salão não estava totalmente abaixada. Ela deixava uma fresta por onde víamos que a luz estava acesa e o chão era coberto por azulejos brancos.
Cumprimentamos os policiais. Eles não sabiam nada a respeito do crime. Estavam só esperando o rabecão do IML chegar para levar os presuntos.
Sim, ambos continuavam lá dentro. Sim, a perícia já havia sido feita. Sim, podíamos entrar para ver. "Fiquem à vontade", disse um dos PMs. Que continuaram encostados à Blazer, jogando conversa fora.
Eu e o colega então colocamos as mãos sob a porta de ferro e a subimos. Não só o chão, mas todo o salão era coberto por ladrilhos brancos. Tudo muito novinho, limpo e iluminado. Naquela brancura excessiva, o vermelho escuro do sangue, que formava poças no chão, aparecia com muito mais destaque.
Como a perícia do departamento de homicídios já havia sido feita, os corpos estavam seminus, jogados no chão, ao lado de suas roupas ensangüentadas. Dois adolescentes que deviam ter por volta de 16, 17 anos. Com as cabeças estouradas a bala.
O colega fez fotos bonitas, mostrando a cabeça detonada de um deles, deitado de bruços, com uma revista Chiques e Famosos ao lado. Daquelas que ficam ali, empilhadas, para os clientes que aguardam sua vez de cortar o cabelo.
Na capa da revista, artistas sorridentes. Ao lado da revista, um moleque morto, com um buraco na cabeça e o rosto enfiado numa poça de sangue espesso, semicoagulado.
A cabeleireira, dona do lugar, morava nos fundos. Um corredor, do lado de fora, ligava o salão à residência. Lá, vivia com o marido e o filho de quatro anos.
Ela abriu a porta com os olhos arregalados. Cheios de ansiedade, euforia, loucura. Era meio gorda, devia ter uns 30 e poucos anos _mas aparentava mais_ e tinha o cabelo curto, encaracolado e pintado de loiro. Não precisei insistir para que me contasse como os assassinatos aconteceram. Assim que me identifiquei e pedi uma descrição do ocorrido, ela falou "foi assim, ó. Vem cá", e saiu com passos rápidos a caminho da cena do crime.
No salão, ela falou sem parar, gesticulando e andando de um lado para o outro alucinadamente, desviando dos corpos e das poças de sangue. Desse jeito, contou que estava quase encerrando seu expediente quando os dois moleques chegaram. Um deles com parte do cabelo cortado, estilo militar. Ele queria que o corte fosse terminado pela mulher, que aceitou o serviço.
Sentado na cadeira, em frente ao espelho, o jovem _que, pelo visto, falava demais_ revelou à dona do salão que estava armado e que havia começado aquele corte em um outro salão do bairro. Não o concluíra porque discutiu com o barbeiro e o apavorou, encostando a arma na cara dele, dizendo que iria matá-lo. Tudo porque o profissional não estava cortando seu cabelo do jeito que ele queria.
Enquanto o manezinho contava sua emocionante história para a cabeleireira, seu amigo aguardava sentado no banco de espera, ao lado do filho dela. A criança brincava com carrinhos de plástico, sentada no chão.
De repente, uma moto com dois caras de capacetes fechados parou em frente ao salão. O garupa desceu já sacando a arma. Não houve tempo para que nenhum dos moleques reagisse. Os dois foram zerados na frente da cabeleireira e da criancinha.
Quando a descrição do ocorrido chegou nesse ponto, a dona do salão começou a correr de um lado pro outro, com os olhos mais arregalados ainda, falando alto pra caralho e gesticulando feito uma maluca. "Meu filho tava aqui", e corria para onde o filho estava. "Eu estava aqui", e corria para onde ela estava. "O assassino atirou daqui", e correu para onde o assassino estava, simulando que segurava uma arma. Entendi porque ela parecia tão doida. Imagina você ver um cara atirando na cabeça de um moleque que está do lado de seu filho e em outro que está na sua frente... Até hoje ela deve estar falando daquele jeito e com os olhos arregalados.
Pelo menos, nem ela nem a criança foram atingidos. Depois do serviço, o cara voltou para a garupa da moto, que bateu em retirada.
Só lamentei não ter chegado antes da perícia para ver o corpo do vacilão ainda na cadeira da cabeleireira. Devia ser uma bela cena.
Aquele palhaço nunca mais apavora barbeiro nenhum.

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