Testemunho de situações desgraçadas

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Depois de passar um mês desgraçado, trabalhando e amaldiçoando a humanidade, saí de férias. Como não sou otário a ponto de ficar perdendo tempo em São Paulo, resolvi conhecer a Bolívia e o Peru. Nesse texto, tentarei resumir algumas desgraças que vi durante a viagem.
É o primeiro post internacional do Desgraceira, escrito na cidade boliviana de Santa Cruz de La Sierra, em um dia frio, chuvoso e de vento forte, em que não há nada a fazer além de ler o excelente livro "A Crônica dos Que Não Têm Voz", do meu grande camarada Javier Contreras, e perder tempo na internet.
Cheguei à Bolívia por Puerto Quijaro, cidade que faz fronteira com Corumbá, Mato Grosso do Sul, na manhã da quarta da semana retrasada. Era umas 7h40. Tive sorte, porque o tiozinho que carimba os passaportes chegou cedo. Com cara de sono, ele nem olhou meus documentos. Carimbou a parada e saí fora.
Um táxi caindo aos pedaços me levou até a estação onde se pega o famoso Trem da Morte, no qual centenas de bolivianos morreram de febre amarela, muitos anos atrás, quando tentavam chegar ao Brasil para conseguir tratamento (daí o nome macabro).
Puerto Quijaro é uma cidade tão bonita quanto o Jardim Ângela. Havia uma fila nos portões da estação, que ainda estava fechada. Esperamos uma meia hora e, quando os portões se abriram, todos, exceto eu e mais alguns gringos, saíram correndo feito um bando de animais e mergulharam entre os canos de ferro que limitam o espaço da fila do guichê onde se vende passagens.
Formada essa nova fila, iniciou-se um clima de tensão. Muitos cambistas chegavam na maior cara de pau e entravam na frente, o que gerava gritaria e bate-boca. Comecei a praticar meu español: "FUERA, IHO DE PUTA!".
Havia policiais, com uniformes camuflados e cassetetes, para fiscalizar o lance. Mas eles não faziam nada. Olhavam tudo e ficavam quietos. Um deles ficou bravo quando uma tiazinha, atrás de mim, lhe disse que podia ir embora, já que não estava fazendo porra nenhuma em relação aos fura-filas.
Da janela do trem, vemos paisagens legais, em meio à floresta pantaneira. Mas também vemos coisas feias. A primeira destas foi um vira-latas sarnento cuja pata dianteira esquerda estava pendurada apenas por um teco de pele. Parte do osso saía de sua perninha, envolto em carne podre vermelha. Mesmo assim, ele caminhava.
Mas pior do que isso foi ver, a cada parada do trem, centenas de crianças, a partir de 6, 7 anos, trabalhando duro, vendendo rangos nogentos. Isso até quase meia noite e a partir das 6h do dia seguinte (a viagem durou 22 horas).
Já em La Paz, muitos mendigos. Com uma diferença do Brasil: Todos são velhos e, na maioria, índios. Eles ficam no chão, estendendo-nos seus chapéus. Em seus rostos vemos doença e morte iminente. Não se vê gente nova mendigando, como em nosso país. Só trabalhando.
Houve uma noite em que, para ajudar uma vendedora de chicletes de uns oito anos de idade que trampava por volta da meia noite, comprei alguns. A cartela de chicletes custava 0,50 bolivianos (1 dólar = 8 bolivianos). Dei-lhe uma moeda de 1 boliviano e disse que podia ficar com o troco. Ela insistiu que eu ficasse com mais uma cartela de chicletes.
Se esse foi um exemplo de dignidade na Bolívia, também houve um de filhadaputagem.
Na véspera de eu viajar de La Paz a Copacabana, precisei trocar dinheiro e todas as casas de câmbio estavam fechadas. Era uma tarde de sábado. Tive então de recorrer a tiazinhas que ficam comprando dólares na calçada da Calle Camacho, rua onde se concentra a maioria das casas de câmbio. Cheguei até uma das mulheres e pedi para trocar 70 dólares. Ela pegou uma calculadora e fez a conta na minha frente. Dava uns 564 bolivianos e uns quebrados. Vi ela contando as notas e moedas, certificando-me de que não seria engrupido. Peguei o bolo de dinheiro, contei tudo de novo, disse "gracias" e saí andando, olhando para todos os lados para ver se não havia ninguém me seguindo.
Andei uns 30 metros até a tiazinha que me deu a grana vir correndo na minha direção. Ela chegou em mim, com os dólares que eu lhe dera nas maos, dizendo que achava que havia se enganado. Pediu para ver o dinheiro que havia me dado e o contou novamente. Depois disse que estava tudo certo, pediu desculpas e saiu andando. Horas depois verifiquei a grana e descobri que aquilo havia sido um golpe. Não sei como, mas, debaixo do meu nariz, ela furtou uma nota de cem bolivianos. Filha da puta. Mas fazer o quê? Turista se fode mesmo. Saí de La Paz desejando, com toda minha concentração e força espiritual, que ela tomasse três facadas na boca do estômago. E esqueci o assunto.
Outra coisa desgraçada foi constatar que os homens bolivianos não têm a mínima vergonha de urinar em público. À luz do dia, a qualquer hora, na frente de mulheres, onde quer que estejam e principalmente em praças principais da cidade, eles sacam o pau pra fora e mijam. Não estao nem aí. No monumento aos heróis de La Paz, por volta das dez da manhã, vi uns quatro caras mijando ao mesmo tempo. Nenhum estava mal vestido.
Não vi desgraças em Copacabana. Mas vale ressaltar que uma índia velha ameaçou tacar uma pedrona em mim quando me viu fotografando suas lhamas, que estavam pastando. Nesse mesmo dia fui fazer uma caminhada de quatro horas até um vilarejo chamado Sampaya, onde cerca de 80 famílias vivem em casas de pedra. Errei o caminho e tive que escalar e descer uma montanha alta pra caralho para chegar no pico. Isso me fez perder muitas horas e na volta, caminhando no frio e no escuro, fui ovrigado a pegar carona em um trator cuja roda me atirava lama.
Na fronteira com o Peru, um policial disse que eu tinha que pagar uma taxa de 25 bolivianos. Um funcionário do busão em que viajava me perguntou, depois, se eu havia dado dinheiro ao policial. Respondi que sim e disse a quantia. "Usted no tina que pagar nada. A Bolivia és una mierda...", disse ele.
Em Cuzco, já no Peru, ambulantes e funcionários de pousadas e restaurantes grudam em você, insistindo para que compre seus produtos, entre nos estabelecimentos e etc. No começo, fui paciente. Sorria e dizia, "no, gracias". No segundo dia, o primeiro "no, gracias" já era dito com cara séria e o terceiro, com ódio no olhar e tom de voz agressivo. Pra que eles se tocassem e fossem procurar grana de outro turista.
Agora a desgraça, da volta, é ter que agüentar horas e horas em bumbas geladas que não têm luz e nem banheiro.

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