Testemunho de situações desgraçadas

Sábado, Março 19, 2005

Nesse mês a chefia me fodeu. Colocou-me no horário das oito da manhã. Justo eu, um cara que, eles sabem, ama a noite e quer morrer se não puder aproveitá-la.
Pior é que já estou trampando nesse lugar há cinco anos e ainda não enlouqueci, o que é um recorde. Quando era novato, me fodiam e eu pensava "é porque sou novato". Agora sou veterano. E continuam me fodendo. Mas, como profissional, não reclamei. Acatei a ordem de cara feia e todo dia tenho acordado cedo.
Até aí, foda-se. Acabo saindo do mesmo jeito. Volto da balada um pouco antes do que de costume e durmo umas quatro ou cinco horas.
É o que eu faria na noite de terça. Estava na casa de minha namorada. A gente ia sair e encontrar amigos. Então o celular tocou e fiz a besteira de atender. Era uma chefe dizendo que eu teria de entrar às seis por causa de uma greve de perueiros. Queriam que eu fosse para a zona leste, ver a desgraça do povo nos pontos de ônibus lotados.
Respondi que estava tudo bem e desliguei. Minha mina, com pena, perguntou se, apesar disso, eu ainda sairia.
Saímos. Precisava beber pra tentar sufocar a raiva do mundo e a vontade de matar pessoas. Por isso, quando o despertador tocou na manhã seguinte, com o céu ainda escuro, eu estava de ressaca. Levantei amaldiçoando toda a raça humana e pedindo a Deus que me desse uma submetralhadora e algumas granadas de mão para mandar para o inferno meus chefes, os perueiros, aquele prefeito tucano filho da puta e toda a corja responsável por eu ter que levantar tão cedo.
Dirigi-me ao trampo surtando. Praguejando em voz alta como aqueles loucos de rua que falam sozinhos. Entrei na base chutando a porta. Estava um pouco atrasado. Um colega, fotógrafo, me esperava. Pedi-lhe para ir ao departamento de transporte, providenciar um carro para nós, e ele saiu.
Quando minha chefe me ligou, na noite anterior, eu havia lhe pedido para deixar algumas orientações por escrito para mim (pra não ter que trabalhar além do que era estritamente necessário). Procurei e não havia orientação nenhuma.
Comecei a chutar cadeiras. Uma delas, mais pesada, ergui acima da cabeça e taquei com força no chão. Um telefone tocou. Era o chefe dos fotógrafos, avisando que vira na Globo que estavam queimando alguns ônibus na zona sul.
Na saída, dei mais um chutão na porta. Quase a destruí.
Tentei dormir no carro, indo para a zona sul. Estava nervoso demais, ainda surtando, por isso não consegui. Meu peito doía do lado esquerdo. Parecia que eu ia ter um ataque. É o que tem acontecido ultimamente, toda vez que estou nervoso ou sob pressão.
Pelo rádio, soubemos de um local onde haviam incendiado um ônibus, no Jardim Selma. Corremos para lá.
Chegamos até a carcaça incendiada. Alguns PMs que preservavam o local me disseram quem era o motorista da bumba. Fui conversar com ele e o cara negou ser o motora. "Tá bom", eu disse, sabendo que ele estava mentindo. "Se esse filho da puta não quer falar, que se dane. Devia ter queimado dentro do busão", pensei.
Quando estávamos de novo dentro do carro, prontos para partir, uma mulher bateu na minha janela. "Tão queimando outro, olha lá".
Olhamos na direção que ela apontava e vimos uma fumaça densa e negra saindo do meio de uma quebrada. Saímos cantando os pneus e nos enfiamos a milhão no labirinto de ruas.
A primeira coisa em que reparei, ao chegar no lugar, foi a multidão. Devia haver umas duzentas pessoas ao redor do ônibus. O fogo estava alto pra caralho. Aquela merda podia explodir e foder vários daqueles curiosos.
Procurei e achei o motorista. Ele me contou que havia cerca de 30 passageiros dentro do ônibus quando uns quatro caras, dizendo-se "manifestantes", entraram com galões, atirando gasolina no chão e no painel. Eles não esperaram todos descerem para tacar fogo no buso. "Os passageiros desceram correndo, com o ônibus já pegando fogo", contou o motora.
Conversei com mais algumas pessoas por ali. O ônibus começou a fazer uns barulhos, tipo fsssssssss. E todas as centenas de curiosos que estavam em volta se afastaram correndo. Depois, o barulho parou e eles voltaram. Aí surgia mais algum barulhinho e eles corriam de novo.
Impaciente com tanta imbecilidade, fui para um boteco, pois ainda não havia tomado meu café da manhã. "Foda-se esse busão", pensei. Arrumei um espaço no balcão. Já era umas oito horas e ele estava lotado de homens bêbados. Pelo menos uns dez, virando doses de pinga 51 pura logo cedo.
Um encostou ao meu lado e pediu um rabo de galo. Tinha a cara inchada e os olhos vermelhos. Virou o goró de uma só vez e notou que eu o observava. "Hoje eu tô de folga. E é assim mesmo. Bebo o dia inteiro. Não quero nem saber".
"Tá certo", respondi. Ele se foi e eu tomei um café preto, ruim pra caralho, e comi um pão na chapa. Na hora de pagar, uma velhinha, no caixa, me disse que a conta havia dado R$ 1,20. Estendi-lhe uma nota de dez e duas moedas de dez centavos, enquanto ela falava com outro cliente. Quando voltou a me dar atenção, disse "R$ 2,20", e pegou meus R$ 10,20. Devolveu-me oito.
Eu devia estar com muita raiva no olhar e na voz quando lhe disse. "Comi um pão e tomei um café. A senhora me disse que era R$ 1,20...".
"O senhor me desculpe", disse ela, com os olhos arregalados. A velha percebeu que eu estava surtando e podia fazer alguma besteira. Deu-me uma moeda de R$ 1 e me pediu desculpas mais três vezes. Não adiantava eu dizer que estava tudo bem. Ela tornava a se desculpar, olhando-me com uma cara assustada e ignorando os outros clientes que lhe chamavam.
Saí do boteco e o ônibus ainda pegava fogo. Alguns PMs e moradores tentavam amenizar as chamas com mangueirinhas meia boca.
Os bombeiros chegaram, fizeram seu trabalho e fomos embora. Atrás de mais carcaças de ônibus e pontos lotados. Ainda teria um longo dia pela frente.

Quinta-feira, Março 10, 2005

Estávamos em busca de um lugar bem pobre. Por isso, pequisei que bairro tinha a maior taxa de exclusão social na cidade. Descobri que era o Parque Santo Antônio. Eu e um camarada então fomos pra lá.
Dando rolê, vimos um córrego que passava sob uma rua. Ao redor dele, uma favelinha bem feia. O motorista parou o carro e descemos. Entramos na favela.
Às margens daquele córrego cheio de lixo e fedorento havia vários barracos construídos sobre postes de madeira. Tipo palafita. As casas ficavam a uns dois ou três metros do chão. Obviamente porque enchentes eram comuns por ali.
Vimos crianças brincando em torno de um desses barracos. Na parte de cima, alguns adultos. Uma mulher loira e magra e três homens morenos. Dei boa tarde a eles. A mulher foi atenciosa. Fumava cigarro e tinha a pele do rosto bem envelhecida. Convidou-nos a conhecer sua residência.
Subimos a escada tosca e estreita de madeira. Ela levava a uma espécie de varandinha. Ao dar o primeiro passo nessa varanda, já senti toda a estrutura do barraco tremer. Enquanto estava nos degraus, notara que os postes que o sustentavam estavam podres.
"Entra, entra...", dizia a mulher, em frente à porta. Um dos caras, irmão dela, tava chapado de goró. Pelo bafo, que sentíamos de longe, havia tomado cachaça. Ou rabo de galo, talvez. O fato era que estava desconfiado da gente. Olhava feio e, com a língua meio enrolada pelo álcool, veio pedindo explicações. Com calma, eu disse quem éramos e o que tínhamos ido fazer ali. Aí o cara desencanou, mas ficou empolgado e começou a falar sem parar sobre problemas de sua vida. Pois achava que podíamos ajudá-lo. Sempre cordial, fingi interesse por alguns minutos e cortei a conversa.
Metade do barraco era ocupada por uma cama de casal onde dormiam a mulher, o marido e seus quatro filhos: Uma menina de 14 e três moleques pequenos, entre 4 e 11 anos, se me lembro direito. Ao pé da cama, é lógico, uma televisão. A outra metade do pico tinha um tanque que também servia de pia de cozinha, um fogãozinho, pratos, panelas e talheres. Tudo tremendo a cada passo que dávamos. Estávamos em seis. Logo subiram também uns quatro moleques; dois da família e dois amigos deles. Depois a irmã adolescente chegou. O número subiu pra 11. Naquele espaço pequeno que não parava de tremer.
As paredes e o chão de madeira estavam úmidos. Tudo podre como os postes que sustentavam a casa. Eu caminhava com cuidado, pois imaginava que uma pisada mais forte furaria o chão. Era uma época de chuvas pesadas.
Perguntei à mulher se eles não tinham medo de que, durante uma tempestade, o barraco despencasse no córrego. "Temos sim, olha como isso balança...", disse ela, empurrando um pau que sustentava o telhado. A casa começou a balançar como se fosse um brinquedo do playcenter. Lembrei do barco viking. "Essa porra vai cair no córrego fedorento" era a certeza que eu tinha, tentando me equilibrar lá dentro.
Mas não caiu. Quando a mulher terminou sua demonstração, fiz mais algumas perguntas a ela e ao marido. Ele estava desempregado havia mais de um ano. Ela também. Ambos se viravam com os filhos mais velhos, vendendo chicletes em faróis. A mulher sofria de lúpus. Mal que degenera a pele. Por isso tinha 30 e aparentava 50, acho. Fazia tratamento no hospital das clínicas.
Saímos do barraco e o colega fez algumas fotos da família. Uma garoa fina começou a cair. Fomos conhecer o resto da favela com uns camaradas que conhecemos por ali.
Meus chefes não deram muita atenção a esse trabalho. E o dia foi considerado perdido.

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