Blogs
- For No One
- Boteco Sujo
- O Dependente
- Gim Tones
- Lá Vai Maria
- Mão na Bunda
- Escambau
- Ed Gardenall
- Vida Semibesta
- Hit Me Baby
- Longa Jornada
- PÃlula Pop
- Unblog
- Metralhadora Giratória
- Ameba
- Caomorto
Archives
- 01/01/2004 - 02/01/2004
- 02/01/2004 - 03/01/2004
- 03/01/2004 - 04/01/2004
- 04/01/2004 - 05/01/2004
- 05/01/2004 - 06/01/2004
- 06/01/2004 - 07/01/2004
- 07/01/2004 - 08/01/2004
- 08/01/2004 - 09/01/2004
- 09/01/2004 - 10/01/2004
- 11/01/2004 - 12/01/2004
- 12/01/2004 - 01/01/2005
- 01/01/2005 - 02/01/2005
- 02/01/2005 - 03/01/2005
- 03/01/2005 - 04/01/2005
- 04/01/2005 - 05/01/2005
- 05/01/2005 - 06/01/2005
- 06/01/2005 - 07/01/2005
- 07/01/2005 - 08/01/2005
- 08/01/2005 - 09/01/2005
- 11/01/2005 - 12/01/2005
- 12/01/2005 - 01/01/2006
- 01/01/2006 - 02/01/2006
- 03/01/2006 - 04/01/2006
- 04/01/2006 - 05/01/2006
- 05/01/2006 - 06/01/2006
- 06/01/2006 - 07/01/2006
- 08/01/2006 - 09/01/2006
- 09/01/2006 - 10/01/2006
- 10/01/2006 - 11/01/2006
- 11/01/2006 - 12/01/2006
- 12/01/2006 - 01/01/2007
- 02/01/2007 - 03/01/2007
- 05/01/2007 - 06/01/2007
- 01/01/2008 - 02/01/2008
Testemunho de situações desgraçadas
Terça-feira, Fevereiro 08, 2005
Uma história de horror veio à tona no último sábado, em Guarulhos.
Eu estava de plantão quando soube, no início da noite, que um garoto havia fugido de um "cativeiro", onde a polícia encontrou outro garoto. Logo pensei que se tratasse de um caso normal de seqüestro, no qual duas vítimas dividiam o mesmo cárcere. Coisa que, nesse meio desgraçado, a gente considera corriqueira.
Então liguei para o primeiro DP de Guarulhos. Uma escrivã atendeu e, conversando com ela, percebi que não era um caso comum. Foi mais ou menos assim:
- Oi. Por acaso tá sendo apresentado por aí um seqüestro em que um moleque fugiu do cativeiro?
- É... Tem um caso mais ou menos assim aqui.
- E tem alguém preso?
- Tem... Tem um lixo preso.
- Um lixo?
- É... Um lixo
- Esse "lixo" foi pego no cativeiro?
- Foi. Parece que ele também matou aquele moleque que foi esquartejado?
- O quê? Aquele caso do ano passado?
- É...
- E as crianças de hoje?
- Uma tá no hospital, toda machucada. Não sei ainda da outra.
A mulher não tinha mais detalhes sobre a prisão.
Desliguei o telefone, escrevi pra minha chefia um texto com o pouco que sabia e corri para Guarulhos.
O DP estava lotado de gente querendo fazer B.O. Chegando lá, esperei um certo tempo até falar com os PMs que apresentavam o caso das crianças. Eles me contaram o básico.
O cara que prenderam havia pego um moleque de 10 anos na sexta. Em sua casa tentou violentá-lo, mas o guri conseguiu fugir. No mesmo dia, o filho da puta pegou outro menino, de 11 anos, que os policiais libertaram. Um cabo da PM me disse que esse menino tinha um corte profundo no peito e havia tomado giletadas na bunda e nas orelhas, além de ter sido violentado. Estava nu e em estado de choque quando os policiais entraram na casa e prenderam o anormal.
Continuamos lá pelo DP, até que chegou um tiozinho de meia idade, de mão dada com um pivetinho negro. Aos 10 anos, o moleque parecia que tinha sete, de tão pequeno e franzino. Era ele quem tinha fugido do tarado na sexta. O tiozinho era seu pai.
Como, nesses casos, crianças não podem ter a imagem divulgada pela mídia, todas as equipes de TV que estavam na delegacia já foram pra cima do pai e começaram a entrevistá-lo. Eu preferi falar direto com o moleque.
- E aí brother? Tudo certo? _cumprimentei.
- Tudo.
- Diz pra mim; como é que você foi pará na casa desse cara?
- Ele me pagou umas ficha de video game e disse que ia dá R$ 50 pra eu ajudá a descarregá um caminhão na casa dele. Aí eu fui, né? Ia ganhá R$ 50...
- E na casa dele, o que aconteceu?
- Ele falô que eu podia entrá. Daí ficô diferente. Me chamô de fia da puta e falô pra eu bater nuns x que tinha no chão e depois tirá a roupa.
- ... x?
- É... Era macumba...
- Como você sabe?
- Ele falô...
- Era desenhado no chão?
- Era...
Pedi a ele que reproduzisse o desenho no meu bloco de anotações. E ele reproduziu.
- E daí? O que aconteceu?
- Aí ele mandô eu tirá a roupa. Tentei chegá perto da janela pra fugi. E ele falô pra eu saí de perto da janela senão ele ia cortá minhas perna que nem fez com o outro menino...
- Aquele que foi assassinado?
- É...
- E o que você fez, bicho? Como cê saiu dessa?
- Eu ia tirá a roupa. Mas falei que precisava antes i no banheiro. Ele falô que eu podia i, mas tinha que dexá a porta aberta. Aí, quando entrei, fechei a porta e tranquei (por dentro). Aí pulei a janela.
- Era janela tipo vitrô de banheiro? Daquelas que abre assim (fiz uma espécie de mímica, imitando o jeito que se abre um vitrô)?
- É...
- Você escalou a parede e saiu pela janela?
- É. Nem sei como consegui. Eu tava morrendo de medo. Nem pensava direito.
- Aí cê correu e nem olhou pra trás...
- Ixi... Nem olhei...
- E o cara? Tentou abrir a porta?
- Ele ficô batendo na porta e arrombô. Na hora que eu tava pulando a janela, vi ele entrando no banheiro com uma faca na mão...
- Caralho, bicho. Parece filme...
- É...
- E o que você aprendeu com isso?
- Nada, né?
- Nada? Quer dizer que se um cara que você não conhece te oferecer R$ 50 de novo, na rua, você vai até a casa dele?
- Ixi... Nem... Tá loco? Saio correndo e nem olho pra trás...
- É isso aí irmãozinho. Parabéns pela sua esperteza.
O moleque ficou sorrindo.
Depois, o pai e um amigo da família me explicaram que, após a fuga, o menino só contou a história pra um irmão mais velho. Este contou ao pai. Mas ninguém deu crédito ao pequeno, pois ele tinha fama de ser mentiroso. Só começaram a prestar atenção nele no dia seguinte, quase 24 horas depois do sumiço de outro moleque na vizinhança, um alemãozinho. Os familiares e amigos do desaparecido ouviram a história do neguinho e lhe perguntaram em que casa o tarado filho da puta morava. Ele lhes mostrou a residência, que ficava nos fundos de outra, e a galera chamou a PM.
Eu queria ter ficado frente a frente com o mostro, mas tava na sala do delegado quando policiais o tiraram da carceragem para a ida de praxe ao IML, onde o preso faria exame de corpo delito.
Depois vi as fotos de sua saída. O sem vergonha é alto, magro, negro e tem uma cara comprida. Olhar de louco. Quando era escoltado pelos policiais, tomou um soco de um tio do alemãozinho.
Permaneci no DP por mais um tempo. Estava quase indo embora quando o pivete chegou do hospital. Era loiro e branquelo, mas tinha estatura idêntica ao neguinho. E um grande curativo no peito.
Eu e um colega pedimos licença à mãe para falar com o garoto. Transtornada, a mulher só pediu pra gente não fazer muitas perguntas, pois seu filho havia acabado de sair do estado de choque.
O menino então nos descreveu em poucas e revoltantes palavras o que o maluco lhe fizera:
- Ele mandô eu batê sete vezes a mão e depois sete vezes o pé num desenho do chão que ele falô que era macumba. Depois mandô eu tirá a roupa e começô a fazê safadeza comigo. Depois começô a me cortá com gilete e bebeu meu sangue...
- Ele falou se ia te matar? _perguntou meu colega.
- Ele disse que eu nunca mais ia saí de lá...
A fala desse moleque, principalmente sobre a "safadeza" e as giletadas despertou um ódio profundo em mim. Acredito que, pra um cara que faz isso com uma criança, a morte é muito pouco. Nunca haverá punição, por pior que seja, capaz de fazer esse safado pagar pelo que fez.
Dois dias depois, conversei com o delegado que tomou o depoimento do maldito.
- Ele disse que perdeu a conta de quantos garotos abusou. Que só matou aquele outro, em setembro, porque o menino gritou e isso o irritou. Também disse que enxergava sombras e velas antes de praticar esses atos. Disse ainda que já falou com o Satanás. Segundo ele, os desenhos no chão eram "pontos de Exu" e ele é adepto do Candomblé. Antes, era crente. Ao lado dos desenhos, ele deixava dois cigarros em pé, acesos _disse o delega.
O menino que morreu no ano passado foi pego pelo maníaco na estação Penha do Metrô. Ele e o irmão mais velho, de 12 anos, estavam pedindo esmola quando o desgraçado se aproximou e prometeu comprar uma bicicleta para o caçula e a pagar lanches para os dois. Num momento de distração do irmão maior, o cara levou o menor, que tinha sete anos.
Dias depois o corpo do menininho foi encontrado em um terreno baldio, com as pernas cortadas por um serrote. À polícia, o doido disse que serrara as pernas do garoto para que o corpo coubesse em um saco de nylon, sem chamar atenção. O saco foi levado até um monte de lixo do terreno em um carrinho de feira e encontrado por um catador de papelão dias depois. Além das pernas amputadas, o garoto tinha cortes de gilete na bunda e um ferimento no peito idêntico ao do alemãozinho.
Agora, imaginem-se no lugar dessas crianças...
Eu estava de plantão quando soube, no início da noite, que um garoto havia fugido de um "cativeiro", onde a polícia encontrou outro garoto. Logo pensei que se tratasse de um caso normal de seqüestro, no qual duas vítimas dividiam o mesmo cárcere. Coisa que, nesse meio desgraçado, a gente considera corriqueira.
Então liguei para o primeiro DP de Guarulhos. Uma escrivã atendeu e, conversando com ela, percebi que não era um caso comum. Foi mais ou menos assim:
- Oi. Por acaso tá sendo apresentado por aí um seqüestro em que um moleque fugiu do cativeiro?
- É... Tem um caso mais ou menos assim aqui.
- E tem alguém preso?
- Tem... Tem um lixo preso.
- Um lixo?
- É... Um lixo
- Esse "lixo" foi pego no cativeiro?
- Foi. Parece que ele também matou aquele moleque que foi esquartejado?
- O quê? Aquele caso do ano passado?
- É...
- E as crianças de hoje?
- Uma tá no hospital, toda machucada. Não sei ainda da outra.
A mulher não tinha mais detalhes sobre a prisão.
Desliguei o telefone, escrevi pra minha chefia um texto com o pouco que sabia e corri para Guarulhos.
O DP estava lotado de gente querendo fazer B.O. Chegando lá, esperei um certo tempo até falar com os PMs que apresentavam o caso das crianças. Eles me contaram o básico.
O cara que prenderam havia pego um moleque de 10 anos na sexta. Em sua casa tentou violentá-lo, mas o guri conseguiu fugir. No mesmo dia, o filho da puta pegou outro menino, de 11 anos, que os policiais libertaram. Um cabo da PM me disse que esse menino tinha um corte profundo no peito e havia tomado giletadas na bunda e nas orelhas, além de ter sido violentado. Estava nu e em estado de choque quando os policiais entraram na casa e prenderam o anormal.
Continuamos lá pelo DP, até que chegou um tiozinho de meia idade, de mão dada com um pivetinho negro. Aos 10 anos, o moleque parecia que tinha sete, de tão pequeno e franzino. Era ele quem tinha fugido do tarado na sexta. O tiozinho era seu pai.
Como, nesses casos, crianças não podem ter a imagem divulgada pela mídia, todas as equipes de TV que estavam na delegacia já foram pra cima do pai e começaram a entrevistá-lo. Eu preferi falar direto com o moleque.
- E aí brother? Tudo certo? _cumprimentei.
- Tudo.
- Diz pra mim; como é que você foi pará na casa desse cara?
- Ele me pagou umas ficha de video game e disse que ia dá R$ 50 pra eu ajudá a descarregá um caminhão na casa dele. Aí eu fui, né? Ia ganhá R$ 50...
- E na casa dele, o que aconteceu?
- Ele falô que eu podia entrá. Daí ficô diferente. Me chamô de fia da puta e falô pra eu bater nuns x que tinha no chão e depois tirá a roupa.
- ... x?
- É... Era macumba...
- Como você sabe?
- Ele falô...
- Era desenhado no chão?
- Era...
Pedi a ele que reproduzisse o desenho no meu bloco de anotações. E ele reproduziu.
- E daí? O que aconteceu?
- Aí ele mandô eu tirá a roupa. Tentei chegá perto da janela pra fugi. E ele falô pra eu saí de perto da janela senão ele ia cortá minhas perna que nem fez com o outro menino...
- Aquele que foi assassinado?
- É...
- E o que você fez, bicho? Como cê saiu dessa?
- Eu ia tirá a roupa. Mas falei que precisava antes i no banheiro. Ele falô que eu podia i, mas tinha que dexá a porta aberta. Aí, quando entrei, fechei a porta e tranquei (por dentro). Aí pulei a janela.
- Era janela tipo vitrô de banheiro? Daquelas que abre assim (fiz uma espécie de mímica, imitando o jeito que se abre um vitrô)?
- É...
- Você escalou a parede e saiu pela janela?
- É. Nem sei como consegui. Eu tava morrendo de medo. Nem pensava direito.
- Aí cê correu e nem olhou pra trás...
- Ixi... Nem olhei...
- E o cara? Tentou abrir a porta?
- Ele ficô batendo na porta e arrombô. Na hora que eu tava pulando a janela, vi ele entrando no banheiro com uma faca na mão...
- Caralho, bicho. Parece filme...
- É...
- E o que você aprendeu com isso?
- Nada, né?
- Nada? Quer dizer que se um cara que você não conhece te oferecer R$ 50 de novo, na rua, você vai até a casa dele?
- Ixi... Nem... Tá loco? Saio correndo e nem olho pra trás...
- É isso aí irmãozinho. Parabéns pela sua esperteza.
O moleque ficou sorrindo.
Depois, o pai e um amigo da família me explicaram que, após a fuga, o menino só contou a história pra um irmão mais velho. Este contou ao pai. Mas ninguém deu crédito ao pequeno, pois ele tinha fama de ser mentiroso. Só começaram a prestar atenção nele no dia seguinte, quase 24 horas depois do sumiço de outro moleque na vizinhança, um alemãozinho. Os familiares e amigos do desaparecido ouviram a história do neguinho e lhe perguntaram em que casa o tarado filho da puta morava. Ele lhes mostrou a residência, que ficava nos fundos de outra, e a galera chamou a PM.
Eu queria ter ficado frente a frente com o mostro, mas tava na sala do delegado quando policiais o tiraram da carceragem para a ida de praxe ao IML, onde o preso faria exame de corpo delito.
Depois vi as fotos de sua saída. O sem vergonha é alto, magro, negro e tem uma cara comprida. Olhar de louco. Quando era escoltado pelos policiais, tomou um soco de um tio do alemãozinho.
Permaneci no DP por mais um tempo. Estava quase indo embora quando o pivete chegou do hospital. Era loiro e branquelo, mas tinha estatura idêntica ao neguinho. E um grande curativo no peito.
Eu e um colega pedimos licença à mãe para falar com o garoto. Transtornada, a mulher só pediu pra gente não fazer muitas perguntas, pois seu filho havia acabado de sair do estado de choque.
O menino então nos descreveu em poucas e revoltantes palavras o que o maluco lhe fizera:
- Ele mandô eu batê sete vezes a mão e depois sete vezes o pé num desenho do chão que ele falô que era macumba. Depois mandô eu tirá a roupa e começô a fazê safadeza comigo. Depois começô a me cortá com gilete e bebeu meu sangue...
- Ele falou se ia te matar? _perguntou meu colega.
- Ele disse que eu nunca mais ia saí de lá...
A fala desse moleque, principalmente sobre a "safadeza" e as giletadas despertou um ódio profundo em mim. Acredito que, pra um cara que faz isso com uma criança, a morte é muito pouco. Nunca haverá punição, por pior que seja, capaz de fazer esse safado pagar pelo que fez.
Dois dias depois, conversei com o delegado que tomou o depoimento do maldito.
- Ele disse que perdeu a conta de quantos garotos abusou. Que só matou aquele outro, em setembro, porque o menino gritou e isso o irritou. Também disse que enxergava sombras e velas antes de praticar esses atos. Disse ainda que já falou com o Satanás. Segundo ele, os desenhos no chão eram "pontos de Exu" e ele é adepto do Candomblé. Antes, era crente. Ao lado dos desenhos, ele deixava dois cigarros em pé, acesos _disse o delega.
O menino que morreu no ano passado foi pego pelo maníaco na estação Penha do Metrô. Ele e o irmão mais velho, de 12 anos, estavam pedindo esmola quando o desgraçado se aproximou e prometeu comprar uma bicicleta para o caçula e a pagar lanches para os dois. Num momento de distração do irmão maior, o cara levou o menor, que tinha sete anos.
Dias depois o corpo do menininho foi encontrado em um terreno baldio, com as pernas cortadas por um serrote. À polícia, o doido disse que serrara as pernas do garoto para que o corpo coubesse em um saco de nylon, sem chamar atenção. O saco foi levado até um monte de lixo do terreno em um carrinho de feira e encontrado por um catador de papelão dias depois. Além das pernas amputadas, o garoto tinha cortes de gilete na bunda e um ferimento no peito idêntico ao do alemãozinho.
Agora, imaginem-se no lugar dessas crianças...