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Testemunho de situações desgraçadas
Sábado, Janeiro 22, 2005
Como prometi no post anterior, contarei agora como foi minha segunda ida ao Jardim Macedônia, um dos bairros mais punks da região do Capão.
Coincidentemente, passada uma semana da nossa primeira visita àquele bairro, tivemos de voltar lá. O destino era uma rua a mais ou menos dois quarteirões de onde, dias antes, havíamos passado aquele puta susto. Por isso, já chegamos à região apreensivos.
Outro homicídio nos fizera voltar ao Macedônia. Um pai morto a tiros em frente ao filho pequeno. Novamente, era a única desgraça que tava rolando na noite paulistana. Dessa vez, alguns de nossos colegas também estavam se dirigindo ao local. Mesmo assim meu parceiro fotógrafo ficou cabreiro. Principalmente quando peguei o guia de ruas e mostrei pra ele: "O lance que rolou na semana passada foi nessa rua. Agora a gente tá indo pra essa". Olhando a proximidade delas, o mano soltou uma exclamação do tipo "putaquepariu" ou "merda", além de uns resmungos. Mas concordou em voltar para lá comigo.
Encontramo-nos com o motorista _que não era o mesmo da semana anterior_ e partimos rumo às ruas sinistras, escuras e desertas do Jardim Macedônia. Entramos no bairro atentos, olhando pra todos os lados. Contamos ao motorista o que tinha acontecido na outra semana e pedimos "fica esperto e não pensa duas vezes. Se acontecer alguma coisa esquisita, senta o pé no acelerador".
Nosso receio aumentou quando íamos entrar na rua do crime. Uma placa indicava: "Rua sem saída". "Ai, caralho", disse o piloto. "Qualquer coisa eu embico numa casa e faço a volta", completou. Tensos, entramos na rua vagarosamente. Ela era cheia de curvas. Não sabíamos o que vinha pela frente. De súbito, enquanto fazíamos uma curva, demos de cara com uns dez negrões parados ao lado da fita de isolamento da perícia policial, o que indicava que ali era o local do crime. Não havia nenhuma viatura da polícia, o corpo tinha sido levado embora e todos os negrões tavam com cara de poucos amigos. Não lembro se fui eu, o fotógrafo ou o motora. Mas alguém no carro disse "fodeu" e o motorista logo embicou na entrada de uma casa pra fazer a volta, quando, de repente, aparece um par de faróis atrás de nosso carro. A rua era estreita. Se um veículo estava lá, atrás da gente, isso significava que estávamos presos, entre os manos e o carro que chegara.
Por alguns segundos, o pânico se instalou dentro de nosso Golzinho. Pensávamos que o carro de trás era de algum camarada dos caras da quebrada. Até que eu olhei para ele e vi que sua porta se abriu. E saiu um PM.
Os fortes faróis haviam ofuscado nossa visão e, por isso, não havíamos percebido que aquele veículo era um Land Rover da Polícia Militar.
Aliviado e sorrindo, abri a porta e também desci. Nunca ficara tão contente ao ver um gambé. O Land Rover estava sendo seguido por uma Blazer com uma equipe de colegas nossos, que haviam ido primeiro à delegacia, onde encontraram os PMs e lhes pediram para que os levassem até o local do crime.
À frente da equipe de colegas estava uma jovem gatinha, estreante. Logo fiquei simpaticão e me apresentei à garota. Até esqueci dos negrões de cara amarrada. Que continuavam nos olhando feio. Após algumas palavrinhas com ela, os policiais e os colegas, fomos ao trabalho.
Além dos manos da quebrada, estavam lá alguns familiares do morto. Eu e a gatinha fomos até eles e perguntamos se algum poderia conversar conosco.
Uma tiazinha transtornada, irmã da vítima, com loucura no olhar, começou então a descrever o que havia acontecido. Mas falou pouco. Pois um dos negrões saiu do grupo e veio apressado em nossa direção, agarrou um dos braços da mulher com violência, gritando "CALA A BOCA! VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA!". Aos trancos, ele praticamente arrastou a pobre tiazinha até o interior de uma casa. Os PMs viram aquilo e não mexeram um dedo. Ficaram na deles.
Depois de ver a cena da mulher sendo arrastada, eu soube que não conseguiria nenhuma declaração daquelas pessoas.
A colega ainda voltou ao grupo de parentes para tentar falar com alguém. Eu me dirigi a um dos PMs e puxei conversa. "Essa área aqui é embaçada, não?".
"É... Aqui é complicado. Até a gente tem medo de vir aqui à noite. Vocês deram sorte de terem chegado junto com a gente", disse o PM. Ele era um dos policiais que haviam apresentado a ocorrência do homicídio no DP. O gambé então me respondeu algumas perguntas e deu uma cópia do B.O., que estava na viatura. O boletim era longo. Com várias folhas. Coloquei-o no capô da viatura e comecei a anotar os dados no meu bloquinho.
Eu estava fazendo as anotações quando a colega gatinha saiu do grupo de parentes, veio até mim e falou "acho melhor a gente ir embora. Aquele pessoal me disse que não quer mais a gente aqui". "Beleza", respondi, "deixa eu só terminar de anotar os dados". Ela ficou tensa, do meu lado, me apressando, enquanto eu lia o B.O., forçando a vista devido à fraca luz dos postes.
O grupo de negrões então se aproximou da viatura e um deles disse, com voz ameaçadora: "Demorou pra vocês irem embora daqui, caralho!". Olhei pra cara dele e depois olhei pra cara dos meganhas. "Acho melhor a gente ir embora mesmo", disse, visivelmente assustado, o PM que me dera o B.O.. Rapidamente, dei uma olhada, bem por cima, nos dados que me faltavam e devolvi o boletim ao policial. Entramos em nossos repectivos carros e vazamos.
Coincidentemente, passada uma semana da nossa primeira visita àquele bairro, tivemos de voltar lá. O destino era uma rua a mais ou menos dois quarteirões de onde, dias antes, havíamos passado aquele puta susto. Por isso, já chegamos à região apreensivos.
Outro homicídio nos fizera voltar ao Macedônia. Um pai morto a tiros em frente ao filho pequeno. Novamente, era a única desgraça que tava rolando na noite paulistana. Dessa vez, alguns de nossos colegas também estavam se dirigindo ao local. Mesmo assim meu parceiro fotógrafo ficou cabreiro. Principalmente quando peguei o guia de ruas e mostrei pra ele: "O lance que rolou na semana passada foi nessa rua. Agora a gente tá indo pra essa". Olhando a proximidade delas, o mano soltou uma exclamação do tipo "putaquepariu" ou "merda", além de uns resmungos. Mas concordou em voltar para lá comigo.
Encontramo-nos com o motorista _que não era o mesmo da semana anterior_ e partimos rumo às ruas sinistras, escuras e desertas do Jardim Macedônia. Entramos no bairro atentos, olhando pra todos os lados. Contamos ao motorista o que tinha acontecido na outra semana e pedimos "fica esperto e não pensa duas vezes. Se acontecer alguma coisa esquisita, senta o pé no acelerador".
Nosso receio aumentou quando íamos entrar na rua do crime. Uma placa indicava: "Rua sem saída". "Ai, caralho", disse o piloto. "Qualquer coisa eu embico numa casa e faço a volta", completou. Tensos, entramos na rua vagarosamente. Ela era cheia de curvas. Não sabíamos o que vinha pela frente. De súbito, enquanto fazíamos uma curva, demos de cara com uns dez negrões parados ao lado da fita de isolamento da perícia policial, o que indicava que ali era o local do crime. Não havia nenhuma viatura da polícia, o corpo tinha sido levado embora e todos os negrões tavam com cara de poucos amigos. Não lembro se fui eu, o fotógrafo ou o motora. Mas alguém no carro disse "fodeu" e o motorista logo embicou na entrada de uma casa pra fazer a volta, quando, de repente, aparece um par de faróis atrás de nosso carro. A rua era estreita. Se um veículo estava lá, atrás da gente, isso significava que estávamos presos, entre os manos e o carro que chegara.
Por alguns segundos, o pânico se instalou dentro de nosso Golzinho. Pensávamos que o carro de trás era de algum camarada dos caras da quebrada. Até que eu olhei para ele e vi que sua porta se abriu. E saiu um PM.
Os fortes faróis haviam ofuscado nossa visão e, por isso, não havíamos percebido que aquele veículo era um Land Rover da Polícia Militar.
Aliviado e sorrindo, abri a porta e também desci. Nunca ficara tão contente ao ver um gambé. O Land Rover estava sendo seguido por uma Blazer com uma equipe de colegas nossos, que haviam ido primeiro à delegacia, onde encontraram os PMs e lhes pediram para que os levassem até o local do crime.
À frente da equipe de colegas estava uma jovem gatinha, estreante. Logo fiquei simpaticão e me apresentei à garota. Até esqueci dos negrões de cara amarrada. Que continuavam nos olhando feio. Após algumas palavrinhas com ela, os policiais e os colegas, fomos ao trabalho.
Além dos manos da quebrada, estavam lá alguns familiares do morto. Eu e a gatinha fomos até eles e perguntamos se algum poderia conversar conosco.
Uma tiazinha transtornada, irmã da vítima, com loucura no olhar, começou então a descrever o que havia acontecido. Mas falou pouco. Pois um dos negrões saiu do grupo e veio apressado em nossa direção, agarrou um dos braços da mulher com violência, gritando "CALA A BOCA! VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA!". Aos trancos, ele praticamente arrastou a pobre tiazinha até o interior de uma casa. Os PMs viram aquilo e não mexeram um dedo. Ficaram na deles.
Depois de ver a cena da mulher sendo arrastada, eu soube que não conseguiria nenhuma declaração daquelas pessoas.
A colega ainda voltou ao grupo de parentes para tentar falar com alguém. Eu me dirigi a um dos PMs e puxei conversa. "Essa área aqui é embaçada, não?".
"É... Aqui é complicado. Até a gente tem medo de vir aqui à noite. Vocês deram sorte de terem chegado junto com a gente", disse o PM. Ele era um dos policiais que haviam apresentado a ocorrência do homicídio no DP. O gambé então me respondeu algumas perguntas e deu uma cópia do B.O., que estava na viatura. O boletim era longo. Com várias folhas. Coloquei-o no capô da viatura e comecei a anotar os dados no meu bloquinho.
Eu estava fazendo as anotações quando a colega gatinha saiu do grupo de parentes, veio até mim e falou "acho melhor a gente ir embora. Aquele pessoal me disse que não quer mais a gente aqui". "Beleza", respondi, "deixa eu só terminar de anotar os dados". Ela ficou tensa, do meu lado, me apressando, enquanto eu lia o B.O., forçando a vista devido à fraca luz dos postes.
O grupo de negrões então se aproximou da viatura e um deles disse, com voz ameaçadora: "Demorou pra vocês irem embora daqui, caralho!". Olhei pra cara dele e depois olhei pra cara dos meganhas. "Acho melhor a gente ir embora mesmo", disse, visivelmente assustado, o PM que me dera o B.O.. Rapidamente, dei uma olhada, bem por cima, nos dados que me faltavam e devolvi o boletim ao policial. Entramos em nossos repectivos carros e vazamos.
Sábado, Janeiro 15, 2005
Há vários bairros sinistros na região do Capão. Um deles é o Jardim Macedônia. Lugar onde não é aconselhável ir à noite. Se não me falha a memória, fiz isso umas três ou quatro vezes. Delas, a primeira e a segunda foram as mais tensas. Vou contar agora como foi a primeira. Prometo que depois conto a segunda.
Eu estava no plantão da madrugada. Tudo estava tranqüilo. Nada acontecia na cidade. Numa noite daquelas, o certo seria ficar na base até o amanhecer. Assistindo TV, ouvindo rádio e olhando sites pornográficos. Era o que eu estava fazendo. Vendo minas peladas na tela do computador, quando meu parceiro, fotógrafo, veio até mim e disse "então, bicho... Minha mina tá lá no meu apê. Eu tava a fim de mostrar uns presuntos pra ela. Não dá pra gente cair pra algum homicidiozinho simples?".
Respondi "beleza" e fiz uma checagem com a PM só em quebradas violentas. Descobri um cara morto em frente à casa dele no tal do Jardim Macedônia. Corpo no local. Dei um toque pro colega e fomos encontrar o motorista, outro psicopata.
Pegamos a namorada do brother em frente ao prédio onde ele morava, a apenas um quarteirão da base. Era uma japonesa baixinha e gente fina. Rumo ao Capão, íamos contando historinhas escabrosas pra mina ficar com medo. Quando passávamos pela avenida M`Boi Mirim, já próximo à quebrada, vimos uma viatura do Departamento de Homicídios seguida por um carro de cadáver. Iam em sentido contrário. "Puta bosta! Acho que eles já tão levando o presunto embora", eu disse. "E agora? O que a gente faz?", perguntou o fotógrafo. "Humm... Foda-se. Vamo lá. Se não tiver mais corpo, você fotografa a poça de sangue".
Assim ficou decidido. E entramos no Jardim Macedônia. Com a luz interna do carro acesa e o guia de ruas aberto no colo, eu ia dando as coordenadas ao piloto. O lugar era deserto, escuro e cheio de curvas. Uma rua era mais estreita do que a outra. Então chegamos ao local do crime. Como imaginávamos, o sangue estava no chão, com luvas brancas de borracha abandonadas pelos policiais, em frente à casa da vítima. Parecia não haver uma alma viva num raio de quilômetros. Descemos do carro eu e o fotógrafo. A japinha não quis descer. Ficou dentro do Golzinho com o motora. Bati palmas no portão da casa. Não houve resposta. Só a dos cachorros das outras casas, que começaram a latir. Em seguida ouvimos um barulho de motor. Cada vez mais próximo. Era de um Land Rover da PM. O carro entrou na rua e veio em nossa direção. Pensei que os gambés iam parar pra conversar com a gente. Quando eles passaram por nós, fiz um positivo. Aí vi que o que dirigia _eram dois na viatura_ segurava o volante só com a mão direita. Na esquerda ele trazia uma pistola, provavelmente .40. Vi também que o semblante do policial mostrava tensão. Muita tensão. Ele respondeu meu sinal com um rápido aceno de cabeça. E foi embora. Enfiando o pé no acelerador.
Eu e o colega não gostamos nada daquilo. "Vai, mano. Faz a foto logo e vamos vazar dessa porra rápido", falei pro camarada, que começou a mandar flashs na poça de sangue. A rua continuava deserta. Os cachorros continuavam latindo. Cada vez mais alto. Uma sinfonia irritante.
De repente, algo se espatifa no chão, ao nosso lado. Era uma porra de uma garrafa de álcool que voou não sei de onde. Antes que eu tirasse os olhos dela, o fotógrafo já havia mergulhado no banco de trás do Gol, gritando "VAMBORA, CARALHO!!!!". Eu nem bati a porta do carro e os pneus já tavam cantando. Saímos a milhão por aquele monte de ruas escuras e estreitas. Circulamos em alta velocidade por uns 15 ou 20 minutos. A japinha chorava. Todos falavam ao mesmo tempo. "Que porra era aquela?". "Um coquetel molotov". "Mas não tinha fogo". "Vai ver apagou". "Por que eu vim? Por que eu vim?".
Logo estávamos perdidos. A certa distância, acendi a luz do carro e abri o guia de ruas. Localizei onde a gente estava: Um verdadeiro labirinto. E vi que para sair dele, teríamos de voltar tudo e passarmos de novo pela rua do crime. Era a única saída daquela merda. Fiquei quieto sobre isso. Comecei a dar as coordenadas ao piloto. "Direita, esquerda. Agora esquerda de novo. Isso...". Quando chegávamos perto da rua, o motorista percebeu e gritou "CARALHO!!! VOCÊ TÁ DOIDO! TÁ LEVANDO A GENTE DE VOLTA PRA LÁ!". Então deu meia volta e, novamente, estávamos em alta velocidade no labirinto. Eu tentava explicar que aquela rua era a única saída. Mas eles não acreditavam. "Tem que ter outra. Tem que ter outra", repetia o motora. A mina não parava de chorar. Culpa da gente, que, na ida, ficou enchendo a cabeça dela com historinhas de horror da periferia.
Rodamos em busca de outra saída por mais um tempo. Quando a galera notava que estávamos de novo perto do lugar, a namorada do brother gritava, o motora dava meia volta e lá íamos de novo ao labirinto. Até que o piloto desistiu e pediu pra olhar o guia. Só aí que ele acreditou em mim. Bem rápido, passamos de novo ao lado da poça de sangue e da garrafa de álcool, sob protestos da menina.
De lá fomos ao DP da área para conversar com o delegado sobre o homicídio. Também contei a ele o que acontecera com a gente. O doutor disse que éramos loucos. Que nem policiais iam sozinhos à noite no Jardim Macedônia e que, lá, os PMs dirigiam viaturas de arma em punho.
Eu estava no plantão da madrugada. Tudo estava tranqüilo. Nada acontecia na cidade. Numa noite daquelas, o certo seria ficar na base até o amanhecer. Assistindo TV, ouvindo rádio e olhando sites pornográficos. Era o que eu estava fazendo. Vendo minas peladas na tela do computador, quando meu parceiro, fotógrafo, veio até mim e disse "então, bicho... Minha mina tá lá no meu apê. Eu tava a fim de mostrar uns presuntos pra ela. Não dá pra gente cair pra algum homicidiozinho simples?".
Respondi "beleza" e fiz uma checagem com a PM só em quebradas violentas. Descobri um cara morto em frente à casa dele no tal do Jardim Macedônia. Corpo no local. Dei um toque pro colega e fomos encontrar o motorista, outro psicopata.
Pegamos a namorada do brother em frente ao prédio onde ele morava, a apenas um quarteirão da base. Era uma japonesa baixinha e gente fina. Rumo ao Capão, íamos contando historinhas escabrosas pra mina ficar com medo. Quando passávamos pela avenida M`Boi Mirim, já próximo à quebrada, vimos uma viatura do Departamento de Homicídios seguida por um carro de cadáver. Iam em sentido contrário. "Puta bosta! Acho que eles já tão levando o presunto embora", eu disse. "E agora? O que a gente faz?", perguntou o fotógrafo. "Humm... Foda-se. Vamo lá. Se não tiver mais corpo, você fotografa a poça de sangue".
Assim ficou decidido. E entramos no Jardim Macedônia. Com a luz interna do carro acesa e o guia de ruas aberto no colo, eu ia dando as coordenadas ao piloto. O lugar era deserto, escuro e cheio de curvas. Uma rua era mais estreita do que a outra. Então chegamos ao local do crime. Como imaginávamos, o sangue estava no chão, com luvas brancas de borracha abandonadas pelos policiais, em frente à casa da vítima. Parecia não haver uma alma viva num raio de quilômetros. Descemos do carro eu e o fotógrafo. A japinha não quis descer. Ficou dentro do Golzinho com o motora. Bati palmas no portão da casa. Não houve resposta. Só a dos cachorros das outras casas, que começaram a latir. Em seguida ouvimos um barulho de motor. Cada vez mais próximo. Era de um Land Rover da PM. O carro entrou na rua e veio em nossa direção. Pensei que os gambés iam parar pra conversar com a gente. Quando eles passaram por nós, fiz um positivo. Aí vi que o que dirigia _eram dois na viatura_ segurava o volante só com a mão direita. Na esquerda ele trazia uma pistola, provavelmente .40. Vi também que o semblante do policial mostrava tensão. Muita tensão. Ele respondeu meu sinal com um rápido aceno de cabeça. E foi embora. Enfiando o pé no acelerador.
Eu e o colega não gostamos nada daquilo. "Vai, mano. Faz a foto logo e vamos vazar dessa porra rápido", falei pro camarada, que começou a mandar flashs na poça de sangue. A rua continuava deserta. Os cachorros continuavam latindo. Cada vez mais alto. Uma sinfonia irritante.
De repente, algo se espatifa no chão, ao nosso lado. Era uma porra de uma garrafa de álcool que voou não sei de onde. Antes que eu tirasse os olhos dela, o fotógrafo já havia mergulhado no banco de trás do Gol, gritando "VAMBORA, CARALHO!!!!". Eu nem bati a porta do carro e os pneus já tavam cantando. Saímos a milhão por aquele monte de ruas escuras e estreitas. Circulamos em alta velocidade por uns 15 ou 20 minutos. A japinha chorava. Todos falavam ao mesmo tempo. "Que porra era aquela?". "Um coquetel molotov". "Mas não tinha fogo". "Vai ver apagou". "Por que eu vim? Por que eu vim?".
Logo estávamos perdidos. A certa distância, acendi a luz do carro e abri o guia de ruas. Localizei onde a gente estava: Um verdadeiro labirinto. E vi que para sair dele, teríamos de voltar tudo e passarmos de novo pela rua do crime. Era a única saída daquela merda. Fiquei quieto sobre isso. Comecei a dar as coordenadas ao piloto. "Direita, esquerda. Agora esquerda de novo. Isso...". Quando chegávamos perto da rua, o motorista percebeu e gritou "CARALHO!!! VOCÊ TÁ DOIDO! TÁ LEVANDO A GENTE DE VOLTA PRA LÁ!". Então deu meia volta e, novamente, estávamos em alta velocidade no labirinto. Eu tentava explicar que aquela rua era a única saída. Mas eles não acreditavam. "Tem que ter outra. Tem que ter outra", repetia o motora. A mina não parava de chorar. Culpa da gente, que, na ida, ficou enchendo a cabeça dela com historinhas de horror da periferia.
Rodamos em busca de outra saída por mais um tempo. Quando a galera notava que estávamos de novo perto do lugar, a namorada do brother gritava, o motora dava meia volta e lá íamos de novo ao labirinto. Até que o piloto desistiu e pediu pra olhar o guia. Só aí que ele acreditou em mim. Bem rápido, passamos de novo ao lado da poça de sangue e da garrafa de álcool, sob protestos da menina.
De lá fomos ao DP da área para conversar com o delegado sobre o homicídio. Também contei a ele o que acontecera com a gente. O doutor disse que éramos loucos. Que nem policiais iam sozinhos à noite no Jardim Macedônia e que, lá, os PMs dirigiam viaturas de arma em punho.
Quarta-feira, Janeiro 05, 2005
Amigos, já apareceram por aqui vários colaboradores da desgraça. Agora, pela primeira vez, surge uma colaboradora. Autora do blog "Lá vai Maria" (link ao lado), essa jovem meiga, delicada, gatinha e _mas cuidado_ praticante de jiu jitsu descreve o quão desgraçada é a situação de uma repórter que, debaixo de forte sol e olhares de caminhoneiros suados, tem de cobrir um acidente na rodovia da morte.
Olheiro da Desgraça
Dia de passeio
Eu não conseguia chegar ao local do acidente, o congestionamento, àquela hora, passava dos 30km. E eu indefesa, lá no meio. O Leo tinha ido na frente dizendo que iria andando, mas que faria a foto. Sobramos o motorista e eu. O sol estava quente, dava para sentir minha pele fritando no asfalto _o solado do meu sapato novo, estilo boneca, estava ficando mole. O único alívio era um vento que vez ou outra subia debaixo da saia (porque eu sou menina, meiga, e só uso saia). E só.
Mas eu não podia ficar ali e também não ia andar 30km. O único jeito era pedir carona. E foi o que fiz, depois de um tempo, para um motoqueiro que vinha costurando os caminhões na BR 116, vulgo rodovia da morte. "Oi, me dá uma carona", eu disse a ele. E ele: "pode subir, coloca o capacete". E eu fui, sem nem perguntar o nome dele. O Rogério, motorista, ficou rindo. Mas ficou no lugar dele: no carro.
Os 30km não acabavam mais. E o motoqueiro ia driblando portas de caminhões abertas e pessoas que já não agüentavam mais ficar dentro dos carros e procuravam sombras sob os caminhões. Parecia um piquenique, uma confraternização pós-natal. Depois de uns 10km, comecei a pensar na situação e um medinho estranho começou a tomar conta de mim. Cheguei a lembrar do Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque. Mas logo resolvi pensar noutra coisa porque aquilo já estava me deixando apavorada.
II
Depois que quase 40 minutos cheguei ao local do acidente e descobri que foi uma grande besteira ter ido até lá. O Leo já não estava no local e o PM me contou que ele tinha pego uma carona, mas não sabia para que lado (!). Resolvi voltar e pedi outra corona ao motoqueiro que depois eu descobri se chamava Michel. Ele me levou até o km onde eu tinha deixado o carro, mas o carro já não estava lá. Então eu fiquei num posto junto com uns 200 motoristas de caminhão bem típicos: barrigudos, quase sempre sem camisa e sonados (outros dizem rebitados). O único orelhão do lugar era muitíssimo disputado, e era a única forma que eu tinha para falar com a redação ou qualquer outra pessoa. Quando cheguei à fila, os olhares que recebi me fizeram sentir uma sensação igual àquela quando se passa por uma tempestade de areia. Nojo e dó daqueles homens ridículos e fedidos. Na fila uma bicha com sotaque do sul ria descontroladamente ao telefone, enquanto os outros (eu, inclusive) já estavam irritados. Nessa hora eu me lembrei que tinha fome e que a minha última refeição _e única_ tinha sido uma garrafa de água ao meio dia. Já eram quase cinco da tarde.
Na redação ninguém sabia do Leo, nem do Rogério. Contei para eles minha história enquanto os motoristas me olhavam de rabo de olho. Fiquei de ligar em 10 minutos para saber o que fazer, mas só consegui chegar ao telefone mais de meia hora depois. Em vão. Sem saída e ainda com fome e suada e fedida, resolvi ficar na beira da estrada para ver se o carro do jornal passava. Mas o trânsito não andava. Sem muitas opções, caminhei até um ponto de ônibus onde duas senhoras estavam sentadas. "Você também foi expulsa do ônibus?", me perguntou uma delas. Eu não tinha sido expulsa, estava ali por livre e espontânea vontade, era a profissão que escolhi para mim e bla bla bla. Aí ela me explicou que estava vindo de Iguape ou Registro, ou uma de cada lugar, sei lá, e que o motorista, ao ver o congestionamento, mandou elas descerem e voltou. Ele também disse a elas que alguém viria buscá-las. Mas isso aconteceu às 14h. Nessa hora pensei e acabei verbalizando sem querer uma frase meio maldosa. "A senhora está pior que eu". Disse isso e saí. Elas falavam demais e o sol estava quente.
Voltei à beira da estrada e tive um momento de felicidade. Sério, nunca pensei em ficar feliz ao ver o carro do jornal. Mas, enfim, ele estava ali. Mas ainda havia um problema: faltava o Leo. Ligo de volta pro jornal e todos ficam preocupados, afinal, o cara tem jeito de moleque e estava andando com equipamentos caros sozinho pela BR. Logo pensamos em coisas ruins. Uns 40 minutos depois, quando consigo ligar para a redação, fico sabendo que o Leo pegou carona com caminhão e já estava a caminho de SP. A minha frase não queria ficar na boca. "Moleque filhadaputa". Encerramos nossas preocupações ali mesmo e fomos procurar algo para comer.
A lanchonete de beira da estrada deve ter faturado. No cardápio havia X-Saladas, X-Eggs.... mas a garçonete desdentada logo avisava que só tinha misto quente. No pão francês que parecida da semana passada. A coca-cola estava quente e também não tinha água. Mas a refeição tosca no lugar empoeirado tinha jeito de jantar no La Tartine. Depois disso, pegamos a estrada de volta. E o congestionamento continuava o mesmo.
Olheiro da Desgraça
Dia de passeio
Eu não conseguia chegar ao local do acidente, o congestionamento, àquela hora, passava dos 30km. E eu indefesa, lá no meio. O Leo tinha ido na frente dizendo que iria andando, mas que faria a foto. Sobramos o motorista e eu. O sol estava quente, dava para sentir minha pele fritando no asfalto _o solado do meu sapato novo, estilo boneca, estava ficando mole. O único alívio era um vento que vez ou outra subia debaixo da saia (porque eu sou menina, meiga, e só uso saia). E só.
Mas eu não podia ficar ali e também não ia andar 30km. O único jeito era pedir carona. E foi o que fiz, depois de um tempo, para um motoqueiro que vinha costurando os caminhões na BR 116, vulgo rodovia da morte. "Oi, me dá uma carona", eu disse a ele. E ele: "pode subir, coloca o capacete". E eu fui, sem nem perguntar o nome dele. O Rogério, motorista, ficou rindo. Mas ficou no lugar dele: no carro.
Os 30km não acabavam mais. E o motoqueiro ia driblando portas de caminhões abertas e pessoas que já não agüentavam mais ficar dentro dos carros e procuravam sombras sob os caminhões. Parecia um piquenique, uma confraternização pós-natal. Depois de uns 10km, comecei a pensar na situação e um medinho estranho começou a tomar conta de mim. Cheguei a lembrar do Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque. Mas logo resolvi pensar noutra coisa porque aquilo já estava me deixando apavorada.
II
Depois que quase 40 minutos cheguei ao local do acidente e descobri que foi uma grande besteira ter ido até lá. O Leo já não estava no local e o PM me contou que ele tinha pego uma carona, mas não sabia para que lado (!). Resolvi voltar e pedi outra corona ao motoqueiro que depois eu descobri se chamava Michel. Ele me levou até o km onde eu tinha deixado o carro, mas o carro já não estava lá. Então eu fiquei num posto junto com uns 200 motoristas de caminhão bem típicos: barrigudos, quase sempre sem camisa e sonados (outros dizem rebitados). O único orelhão do lugar era muitíssimo disputado, e era a única forma que eu tinha para falar com a redação ou qualquer outra pessoa. Quando cheguei à fila, os olhares que recebi me fizeram sentir uma sensação igual àquela quando se passa por uma tempestade de areia. Nojo e dó daqueles homens ridículos e fedidos. Na fila uma bicha com sotaque do sul ria descontroladamente ao telefone, enquanto os outros (eu, inclusive) já estavam irritados. Nessa hora eu me lembrei que tinha fome e que a minha última refeição _e única_ tinha sido uma garrafa de água ao meio dia. Já eram quase cinco da tarde.
Na redação ninguém sabia do Leo, nem do Rogério. Contei para eles minha história enquanto os motoristas me olhavam de rabo de olho. Fiquei de ligar em 10 minutos para saber o que fazer, mas só consegui chegar ao telefone mais de meia hora depois. Em vão. Sem saída e ainda com fome e suada e fedida, resolvi ficar na beira da estrada para ver se o carro do jornal passava. Mas o trânsito não andava. Sem muitas opções, caminhei até um ponto de ônibus onde duas senhoras estavam sentadas. "Você também foi expulsa do ônibus?", me perguntou uma delas. Eu não tinha sido expulsa, estava ali por livre e espontânea vontade, era a profissão que escolhi para mim e bla bla bla. Aí ela me explicou que estava vindo de Iguape ou Registro, ou uma de cada lugar, sei lá, e que o motorista, ao ver o congestionamento, mandou elas descerem e voltou. Ele também disse a elas que alguém viria buscá-las. Mas isso aconteceu às 14h. Nessa hora pensei e acabei verbalizando sem querer uma frase meio maldosa. "A senhora está pior que eu". Disse isso e saí. Elas falavam demais e o sol estava quente.
Voltei à beira da estrada e tive um momento de felicidade. Sério, nunca pensei em ficar feliz ao ver o carro do jornal. Mas, enfim, ele estava ali. Mas ainda havia um problema: faltava o Leo. Ligo de volta pro jornal e todos ficam preocupados, afinal, o cara tem jeito de moleque e estava andando com equipamentos caros sozinho pela BR. Logo pensamos em coisas ruins. Uns 40 minutos depois, quando consigo ligar para a redação, fico sabendo que o Leo pegou carona com caminhão e já estava a caminho de SP. A minha frase não queria ficar na boca. "Moleque filhadaputa". Encerramos nossas preocupações ali mesmo e fomos procurar algo para comer.
A lanchonete de beira da estrada deve ter faturado. No cardápio havia X-Saladas, X-Eggs.... mas a garçonete desdentada logo avisava que só tinha misto quente. No pão francês que parecida da semana passada. A coca-cola estava quente e também não tinha água. Mas a refeição tosca no lugar empoeirado tinha jeito de jantar no La Tartine. Depois disso, pegamos a estrada de volta. E o congestionamento continuava o mesmo.