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Testemunho de situações desgraçadas
Domingo, Dezembro 26, 2004
Dizem que no Natal as pessoas ficam mais sensíveis. Que o tal do espírito natalino enche de ternura o coração de todo mundo. Felicidade, amor, alegria, esperança, bondade passam a ser palavras constantes em comerciais de T.V., outdoors e etc. Imagens do bom velhinho enchem a cabeça das crianças de imaginação. E, na periferia, a chapa esquenta.
Dominado pelo clima de Natal, neguinho esquece que tá jurado de morte. Fica relaxadão, vai pra quebrada, visitar a família, os amigos. Acaba duro e gelado, numa poça de sangue em frente à casa da mãe.
Nos últimos dois Natais até que isso não aconteceu tanto. Ou aconteceu e as autoridades esconderam. Vai saber... Mas antigamente era foda. A noite do aniversário de Cristo batia recordes de homicídios em São Paulo. Natal sangrento mesmo.
Foi assim na madrugada de 24 pra 25 de dezembro de 2.001. Ocorreram 19 assassinatos só na capital. Eu e meus colegas que estavam de plantão tivemos que levantar todos os casos, um por um. De carro, fomos a alguns dos locais onde os crimes ocorreram para que os fotógrafos que nos acompanhavam registrassem as imagens da desgraça.
A maioria dos corpos já não estava mais nos locais. As vítimas haviam sido socorridas e morrido nos hospitais. Na zona leste, teve um moleque de 12 anos que saiu de casa para comprar rojões e, a 300 metros da residência, tomou uma pá de tiro. Lá também teve um casal assassinado. Uma minazinha de 16 e o namorado de 20, que estavam na garagem de um amigo, tomando cerveja, quando vários caras armados chegaram na balada e sentaram o dedo nos dois.
Mas a zona sul foi a campeã. Das 19 mortes, oito ocorreram na região. Entre elas, três homens que foram chacinados em casa. O motivo: Uma briga de boteco na qual se envolveram horas antes. E fica na sul, mais especificamente no bairro Grajaú, o único dos locais onde conseguimos chegar antes do carro de cadáver.
O corpo estava dentro de um saco branco do serviço funerário, à espera do rabecão do IML, caído na rua, em frente à casa de seus pais. O cara, um camelô, havia ficado na residência enquanto a família foi dar feliz Natal a amigos na vizinhança. Quando os familiares voltaram, já o encontraram no chão, com a cabeça estourada por tiros. Conversamos com o pai do cara. Pela calma e tranqüilidade do velho, parecia que o filho não era boa coisa e que a família já aguardava sua morte. Não era a primeira vez que eu havia visto algo assim na perifa.
Enquando nossos camaradas faziam as fotos do corpo no saco plástico ao lado da poçona de sangue, lá pelas 4h/5h da manhã, reparei em três menininhas que vinham caminhando pela rua. Deviam ter entre 13 e 16 anos. Conversavam animadas, trajando vestidos brancos e cor de rosa.
Parte do sangue escorria da poça e atravessava a rua até a calçada. Quando as menininhas passaram por nós, as três olharam o corpo com desdém. Uma delas estava descalça, segurando seu par de sandálias. Fiquei olhando seus pezinhos descalços pularem o rastro de sangue. E as adolescentes seguiram seu caminho, ainda conversando animadas enquanto se afastavam.
Feliz Natal a todos.
Dominado pelo clima de Natal, neguinho esquece que tá jurado de morte. Fica relaxadão, vai pra quebrada, visitar a família, os amigos. Acaba duro e gelado, numa poça de sangue em frente à casa da mãe.
Nos últimos dois Natais até que isso não aconteceu tanto. Ou aconteceu e as autoridades esconderam. Vai saber... Mas antigamente era foda. A noite do aniversário de Cristo batia recordes de homicídios em São Paulo. Natal sangrento mesmo.
Foi assim na madrugada de 24 pra 25 de dezembro de 2.001. Ocorreram 19 assassinatos só na capital. Eu e meus colegas que estavam de plantão tivemos que levantar todos os casos, um por um. De carro, fomos a alguns dos locais onde os crimes ocorreram para que os fotógrafos que nos acompanhavam registrassem as imagens da desgraça.
A maioria dos corpos já não estava mais nos locais. As vítimas haviam sido socorridas e morrido nos hospitais. Na zona leste, teve um moleque de 12 anos que saiu de casa para comprar rojões e, a 300 metros da residência, tomou uma pá de tiro. Lá também teve um casal assassinado. Uma minazinha de 16 e o namorado de 20, que estavam na garagem de um amigo, tomando cerveja, quando vários caras armados chegaram na balada e sentaram o dedo nos dois.
Mas a zona sul foi a campeã. Das 19 mortes, oito ocorreram na região. Entre elas, três homens que foram chacinados em casa. O motivo: Uma briga de boteco na qual se envolveram horas antes. E fica na sul, mais especificamente no bairro Grajaú, o único dos locais onde conseguimos chegar antes do carro de cadáver.
O corpo estava dentro de um saco branco do serviço funerário, à espera do rabecão do IML, caído na rua, em frente à casa de seus pais. O cara, um camelô, havia ficado na residência enquanto a família foi dar feliz Natal a amigos na vizinhança. Quando os familiares voltaram, já o encontraram no chão, com a cabeça estourada por tiros. Conversamos com o pai do cara. Pela calma e tranqüilidade do velho, parecia que o filho não era boa coisa e que a família já aguardava sua morte. Não era a primeira vez que eu havia visto algo assim na perifa.
Enquando nossos camaradas faziam as fotos do corpo no saco plástico ao lado da poçona de sangue, lá pelas 4h/5h da manhã, reparei em três menininhas que vinham caminhando pela rua. Deviam ter entre 13 e 16 anos. Conversavam animadas, trajando vestidos brancos e cor de rosa.
Parte do sangue escorria da poça e atravessava a rua até a calçada. Quando as menininhas passaram por nós, as três olharam o corpo com desdém. Uma delas estava descalça, segurando seu par de sandálias. Fiquei olhando seus pezinhos descalços pularem o rastro de sangue. E as adolescentes seguiram seu caminho, ainda conversando animadas enquanto se afastavam.
Feliz Natal a todos.
Domingo, Dezembro 19, 2004
Eu tinha um par de sapatos de camurça. Daqueles marrons, com sola de borracha vagabunda que gasta rapidinho. Usava direto. Até que um dia resolvi não usar mais.
Foi em uma tarde de verão, há dois anos, em Mauá. Havia caído um pé d`água violento na cidade. A chuva fez duas vítimas fatais em uma área invadida no bairro Jardim Zaíra, um puta de um morrão íngreme cheio de barracos e casas de alvenaria.
Os centenas de moradores da favela desesperaram-se quando o barro começou a deslizar e ameaçar levar suas residências para baixo. Temendo a avalanche de lama, uma garota de 23 anos deixou sua casa com a filha de 5 no colo. Seu outro filho, de 1 ano, saiu no colo da cunhada de 15. Elas iam descer com as crianças o escadão de madeira tosco da favela, no momento em que o barro as pegou. Moradores que as viram ser soterradas atiraram-se na lama. Conseguiram salvar a adolescente e o menino. A mãe e a filha morreram. Sete casas vieram abaixo.
E lá fui eu, com meus sapatos de camurça. O pico era só lama. Dobrei as calças até o joelho e fui em frente, debaixo de uma garoa fina, fria e filha da puta. No pé do morro, conversei com o pessoal da Defesa Civil, que improvisou um escritório em uma garagem para cadastrar todos os moradores que seriam levados para abrigos da prefeitura. A favela havia sido interditada pois, a qualquer momento, uma avalanche poderia trazer tudo para baixo.
Todos choravam pra caralho, principalmente as mulheres, cujos maridos haviam saído para trabalhar às 5h da manhã e nem sabiam que suas casas estavam parcialmente destruídas ou não existiam mais. Pior ainda era o cara que havia perdido, além da casa, a mulher e a filha soterradas. Esse também tava dando um trampo e, até então, não tinha sido avisado. Fiquei imaginando como seria à noite, quando chegasse, visse aquele caos e recebesse a notícia da desgraça.
Depois de conversar com a galera no pé do morro, olhei para o alto. Apesar da Defesa Civil ter avisado do risco de novos deslizamentos, moradores ainda subiam o escadão até suas casas para salvar móveis, eletrodomésticos e etc.
Porra, eu precisava ver aquilo de perto. Então comecei a subir também. A escadaria, feita com tábuas, era totalmente irregular. Uns degraus eram baixos, outros altíssimos. Foi aí que eu comecei a me arrepender de, naquela manhã, ter calçado a merda do sapato de camurça. Nos degraus de madeira molhados, a borracha vagabunda da sola, cheia de lama, escorregava demais. Ao lado do escadão, em toda sua extensão, havia uma fenda causada pelo deslizamento. Era um buraco de uns cinco metros onde havia se formado um rio de água marrom alaranjada, que descia do alto. A correnteza era nervosa.
A garoa fria batia na cara. Ventava muito e tava começando a escurecer. Na metade do escadão _eram centenas de degraus_, olhei pra baixo e vi que as pessoas já tinham ficado pequenas. O pico era alto pra caralho. Se eu escorregasse e caísse naquele rio marrom, tava fodido. Atrás de mim, um tiozinho acostumado com a escadaria me apressava. E continuei subindo, degrau por degrau, com cuidado pra não escorregar e despencar lá de cima.
Cheguei até uma casa parcialmente derrubada pela lama. Ficava quase no alto do pico. O dono, um rapaz negro, careca, só xingava e se lamentava. "Porra, vou perder tudo! Caralho! Aqueles filha da puta da Defesa Civil só ficam lá em baixo, sentados. Ninguém sobe pra me ajudar. Ninguém!".
Conversei brevemente com ele. Dois parentes o ajudavam a carregar os móveis que sobraram escadão abaixo. Por pena do cara, resolvi dar uma de bonzinho e fiz um gesto nobre: Ofereci-me para carregar uma cadeira. Não era uma cadeirinha. Era grande, de madeira. Segurando-a pelas pernas, ergui a maldita acima da cabeça e comecei a descida. Só aí me lembrei que estava com a bosta do sapato de camurça. Uma coisa era subir com ele, sem carregar nenhum peso. Outra era descer segurando o móvel. Parecia que escorregava muito mais.
Atrás de mim, o dono da casa e os amigos desciam com mais uma cadeira e uma mesa. Não podia parar na frente deles. Tinha que descer. E rápido. Ainda havia risco de novos deslizamentos.
Durante a descida acho que dei umas três escorregadas que quase foram fatais. Com dificuldade mantive o equilíbrio. Olhava para as luzes no pé do morro _a noite havia chegado_ e praquele rio de água marrom. A cada deslize da sola do sapato, meu corpo tremia mais. O suor brotava do rosto e se misturava à garoa fria. "Puta que pariu. Maldita hora que subi essa porra. Esse sapato vai me matar", pensava, tremendo, enquanto pisava cuidadosamente em cada degrau daquele escadão íngreme do inferno, ouvindo "vai! Vai!" atrás de mim.
Quando chegamos ao fim da escadaria e coloquei aquela cadeira no chão, senti um puta de um alívio. Vi os caras subindo de volta à casa para pegar mais coisas, dei meia volta e fui para o carro. Tudo que queria era vazar dali o mais rápido possível e nunca mais usar sapatos de camurça.
Foi em uma tarde de verão, há dois anos, em Mauá. Havia caído um pé d`água violento na cidade. A chuva fez duas vítimas fatais em uma área invadida no bairro Jardim Zaíra, um puta de um morrão íngreme cheio de barracos e casas de alvenaria.
Os centenas de moradores da favela desesperaram-se quando o barro começou a deslizar e ameaçar levar suas residências para baixo. Temendo a avalanche de lama, uma garota de 23 anos deixou sua casa com a filha de 5 no colo. Seu outro filho, de 1 ano, saiu no colo da cunhada de 15. Elas iam descer com as crianças o escadão de madeira tosco da favela, no momento em que o barro as pegou. Moradores que as viram ser soterradas atiraram-se na lama. Conseguiram salvar a adolescente e o menino. A mãe e a filha morreram. Sete casas vieram abaixo.
E lá fui eu, com meus sapatos de camurça. O pico era só lama. Dobrei as calças até o joelho e fui em frente, debaixo de uma garoa fina, fria e filha da puta. No pé do morro, conversei com o pessoal da Defesa Civil, que improvisou um escritório em uma garagem para cadastrar todos os moradores que seriam levados para abrigos da prefeitura. A favela havia sido interditada pois, a qualquer momento, uma avalanche poderia trazer tudo para baixo.
Todos choravam pra caralho, principalmente as mulheres, cujos maridos haviam saído para trabalhar às 5h da manhã e nem sabiam que suas casas estavam parcialmente destruídas ou não existiam mais. Pior ainda era o cara que havia perdido, além da casa, a mulher e a filha soterradas. Esse também tava dando um trampo e, até então, não tinha sido avisado. Fiquei imaginando como seria à noite, quando chegasse, visse aquele caos e recebesse a notícia da desgraça.
Depois de conversar com a galera no pé do morro, olhei para o alto. Apesar da Defesa Civil ter avisado do risco de novos deslizamentos, moradores ainda subiam o escadão até suas casas para salvar móveis, eletrodomésticos e etc.
Porra, eu precisava ver aquilo de perto. Então comecei a subir também. A escadaria, feita com tábuas, era totalmente irregular. Uns degraus eram baixos, outros altíssimos. Foi aí que eu comecei a me arrepender de, naquela manhã, ter calçado a merda do sapato de camurça. Nos degraus de madeira molhados, a borracha vagabunda da sola, cheia de lama, escorregava demais. Ao lado do escadão, em toda sua extensão, havia uma fenda causada pelo deslizamento. Era um buraco de uns cinco metros onde havia se formado um rio de água marrom alaranjada, que descia do alto. A correnteza era nervosa.
A garoa fria batia na cara. Ventava muito e tava começando a escurecer. Na metade do escadão _eram centenas de degraus_, olhei pra baixo e vi que as pessoas já tinham ficado pequenas. O pico era alto pra caralho. Se eu escorregasse e caísse naquele rio marrom, tava fodido. Atrás de mim, um tiozinho acostumado com a escadaria me apressava. E continuei subindo, degrau por degrau, com cuidado pra não escorregar e despencar lá de cima.
Cheguei até uma casa parcialmente derrubada pela lama. Ficava quase no alto do pico. O dono, um rapaz negro, careca, só xingava e se lamentava. "Porra, vou perder tudo! Caralho! Aqueles filha da puta da Defesa Civil só ficam lá em baixo, sentados. Ninguém sobe pra me ajudar. Ninguém!".
Conversei brevemente com ele. Dois parentes o ajudavam a carregar os móveis que sobraram escadão abaixo. Por pena do cara, resolvi dar uma de bonzinho e fiz um gesto nobre: Ofereci-me para carregar uma cadeira. Não era uma cadeirinha. Era grande, de madeira. Segurando-a pelas pernas, ergui a maldita acima da cabeça e comecei a descida. Só aí me lembrei que estava com a bosta do sapato de camurça. Uma coisa era subir com ele, sem carregar nenhum peso. Outra era descer segurando o móvel. Parecia que escorregava muito mais.
Atrás de mim, o dono da casa e os amigos desciam com mais uma cadeira e uma mesa. Não podia parar na frente deles. Tinha que descer. E rápido. Ainda havia risco de novos deslizamentos.
Durante a descida acho que dei umas três escorregadas que quase foram fatais. Com dificuldade mantive o equilíbrio. Olhava para as luzes no pé do morro _a noite havia chegado_ e praquele rio de água marrom. A cada deslize da sola do sapato, meu corpo tremia mais. O suor brotava do rosto e se misturava à garoa fria. "Puta que pariu. Maldita hora que subi essa porra. Esse sapato vai me matar", pensava, tremendo, enquanto pisava cuidadosamente em cada degrau daquele escadão íngreme do inferno, ouvindo "vai! Vai!" atrás de mim.
Quando chegamos ao fim da escadaria e coloquei aquela cadeira no chão, senti um puta de um alívio. Vi os caras subindo de volta à casa para pegar mais coisas, dei meia volta e fui para o carro. Tudo que queria era vazar dali o mais rápido possível e nunca mais usar sapatos de camurça.