Testemunho de situações desgraçadas

Sexta-feira, Novembro 26, 2004

Corremos para o Capão Redondo. Queríamos chegar antes do carro de cadáver e chegamos.
O taxista ainda estava lá, caído de bruços sobre o banco do passageiro. A porta do lado direito estava aberta e seus braços e cabeça pendiam para fora do carro. Do buraco que tinha na cabeça escorria sangue sem parar. As gotas faziam uma poça ao lado do táxi. A bala havia entrado pela testa e saído pela parte de trás.
A madrugada estava extremamente gelada. Naquela noite achei que apenas a jaqueta de couro bastava. Estava enganado. À medida que o tempo passava, o frio ia aumentando e meus dentes batiam. Nada mais estava acontecendo na cidade. Então eu, vários colegas e dois PMs ficamos todos lá, na rua deserta e escura, tremendo e olhando o sangue pingar no chão.
Os minutos iam se transformando em horas e começamos a praguejar. O estoque de piadinhas de humor negro estava acabando. A equipe do departamento de homicídios não aparecia para fazer a perícia. Aquele frio desgraçado só aumentava e o sangue que pingava do corpo ficava cada vez mais grosso. Parecia que o cérebro estava ficando mole, virando pasta, e caindo pelo buraco do tiro e pelo nariz do cara.
Para não ficar parado, um colega fotógrafo fazia um mórbido ensaio com o taxista morto. Retratava-o de todos os ângulos, com a câmera num tripé. Numa das fotos, a máquina estava quase encostada à cabeça do defunto. Aí vi o colega, enquanto fazia o trabalho, arregalar os olhos e, lentamente, pegar o equipamento e começar a andar para trás. Em seguida ele voltou os olhos arregalados para mim e disse, com a voz trêmula, "tem alguma coisa se mexendo dentro do carro".
Aproximei-me do corpo e ouvi um barulho, como se alguma coisa estivesse batendo no painel. Mas logo o negócio parou. Todos nós então ficamos atentos, olhando para o interior do veículo. Aquele troço esquisito recomeçou. Um dos PMs resolveu fuçar no carro, com cuidado para não esbarrar naquele corpo ensangüentado e não pisar na poça de sangue, que já estava grande. O mistério foi solucionado. O barulho era do celular do taxista. Que estava no vibracall.
Sem saber o que fazer, o PM ficou com o aparelho vibrando em sua mão no centro de uma roda formada por meus colegas e eu. Um de nós disse "atenda". Ele aceitou a sugestão. Era um cunhado do taxista. O PM engoliu em seco. Não sabia se dava a notícia de cara. Acabou apenas dizendo para os familiares se dirigirem ao 47 DP, pois o parente tinha sido assaltado. Insistiram para saber se o taxista estava bem. "O senhor terá mais informações no distrito", disse o PM.
Em seguida, ele contou pra gente que o cunhado disse que a mulher do taxista estava passando mal de preocupação, pois estava grávida. Todo mundo olhou pro chão com cara triste.
O tempo continuou a passar e, enfim, chegou o DHPP. Os tiras tiraram o corpo de dentro do carro, cortaram suas roupas com tesouras e o deixaram só de cuecas, estirado no chão gelado. Tá certo que ele não sentia mais frio, mas aquilo dava aflição. Foi o bastante para o pessoal esquecer a triste notícia da gravidez da viúva e recomeçar as piadinhas de humor negro. "Não faz isso não, ele vai ficar resfriado", disse uma amiga minha a um dos policiais.
Mas o pior estava por vir, outro dos tiras, usando aquelas luvas brancas de borracha, simplesmente enfiou o indicador no buraco da bala e ficou cutucando a cabeça do presunto por dentro. Isso fez o sangue, junto com a massa encefálica, escorrer mais ainda pelo nariz. Na seqüência, o tira arrancou as luvas e as jogou no chão.
Não esperamos o carro de cadáver. Depois de conversar com o delegado fomos embora.

Segunda-feira, Novembro 01, 2004

Quando ingressei nesse trabalho, há quase cinco anos, o contato com a desgraça me deixou um pouco confuso. No fim da adolescência e nos primeiros anos de faculdade, eu era um cara que acreditava que o mundo, cheio de injustiças, poderia ser mudado. Minha cabeça estava recheada de letras do Bad Religion que detonavam o sistema capitalista filho da puta. Achava que tinha que lutar para transmitir aquelas idéias ao maior número possível de pessoas.
Por isso, naquela época, o que eu mais odiava era o fato de que a maioria é reacionária e preconceituosa. Uma frase que me fazia doer os ouvidos era "bandido tem que morrer", pois era totalmente contra a pena de morte. Acreditava que o ser humano tinha salvação.
Aí apareceu esse trampo. E vi como o crime causa sofrimento na vítima e seus familiares. Durante mais ou menos um ano, isso me deixou perdido e comecei a questionar minha opinião sobre a execução da bandidagem. Ouvia, por exemplo, relatos de garotas estupradas, de mães que tiveram os filhos assassinados, de filhos que perdiam o pai por causa de um toca-CDs e etc. A visão dessas pessoas chorando mexia comigo. Fazia eu desejar a morte do desgraçado responsável por aquilo.
Havia dias em que eu acordava achando que todo bandido tinha mesmo que morrer. Eu, quem diria, havia me tornado um reaça. Daqueles que outrora odiava.
Então, num dia em que havia acordado muito mau-humorado, recebi o telefonema de um delegado do Depatri (Departamento de Crimes contra o Patrimônio), que posteriormente se tornou o Deic (Dep. de Investigação contra o Crime Organizado). Ele contou que havia prendido o autor de um latrocínio ocorrido dias antes em um posto de gasolina. Na ocasião, o crime foi filmado por câmeras de segurança e os telejornais sensacionalistas de fim de tarde cansaram de passar as imagens do ladrão atirando contra o gerente do posto.
Ainda bem mau-humorado, fui ao Depatri para conversar melhor com o delega. Este me contou que o rapaz preso, que tinha 19 anos, havia tentado roubar o posto _e acabou matando o gerente_ porque precisava de grana para pagar a dívida que tinha em um boteco.
Como naqueles tempos ainda podíamos falar com os presos, o que a atual gestão nazista da Secretaria da Segurança Pública proibiu, pedi ao delegado para trocar uma idéia com o jovem assassino. Um moleque alto, com cara de assustado e braços algemados para trás foi então trazido para o gabinete do doutor. E o coitado acabou virando alvo de todo o mau-humor que eu carregava.
- Qué dizê que você foi roubar o posto porque tinha uma dívida no boteco?
- Sim senhor _respondeu ele, com voz trêmula e cabeça baixa.
- E por causa dessa dívida de boteco você acabou matando o gerente, um pai de família... Valeu a pena?
- Não senhor.
- Você sabe quanto tempo de prisão você pode pegar por esse crime?
- Não senhor.
- Vinte anos. Não é doutor (dirigindo-me ao delegado)?
- É isso aí (delegado confirmando).
- Pois é... Ontem você era um cara livre. Agora vai passar vinte anos em cana por causa de uma dívida de boteco...
Depois que eu disse aquilo, a cara do moleque se contraiu e ele começou a chorar feito uma criancinha de seis anos. As lágrimas rolavam pelo seu rosto. Pela cara do delegado, dava pra ver que até ele sentiu pena.
Então eu disse pro delega que podia levá-lo embora e assim foi feito. Saí dali com um sorriso maligno, satisfeito por ter feito aquele garoto sofrer. É lógico que o rapaz não pegaria vinte anos. Era réu primário, tinha residência fixa. Poderia cumprir a pena com bom comportamento. No máximo, sairia da cadeia após cumprir um terço da condenação. O que eu falei para ele na sala do delegado foi por pura maldade mesmo. Para descontar meu mau-humor.
Hoje, passados quatro anos e meio, mais ou menos, sinto-me péssimo quando lembro disso. Pois o sentimento reaça que começou a tomar conta de mim no início da carreira, graças a Deus, desapareceu. De lá pra cá, vi muita desgraça. Aprendi com ela e adquiri experiência. Agora conheço melhor o ser humano e as merdas que ele faz.
Aquele moleque era um assassino malvado?
Não. Já vi homicidas que gostam de matar, como já descrevi nesta Desgraceira. E posso dizer que o garoto não é um deles. É, sim, vítima de uma tremenda cagada que fizera. Se tivesse oportunidade, acredito que não faria aquilo de novo. Hoje sei que qualquer um poderia estar no lugar dele. Até eu. Quem nunca fez besteira na vida?


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