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Testemunho de situações desgraçadas
Sexta-feira, Setembro 24, 2004
Há grupos de elite na polícia civil paulista que estão cheios de fãs dos filmes do Stallone e do Schwarzenegger. Caras bombados, fortões, que lutam jiu jitsu, colecionam armas e se vestem como o Cobra.
Pra mim, são playboys de merda com sérios distúrbios mentais. Representam perigo, pois acreditam que vivem dentro de um filme de ação americano. Acho que, à noite, devem sonhar com missões impossíveis, perseguições cinematográficas, explosões e coisas do tipo. Só que é lógico que isso só existe nas porcarias de Hollywood. Então eles ficam gastando uma puta grana pra comprar pistolas modernas e submetralhadoras. Andam armados até os dentes, porém dificilmente encaram um tiroteio de verdade. Isso quem faz, em geral, são PMs com revólveres 38 velhos.
Na febre e puxar o gatilho de seus brinquedinhos, esses idiotas acabam fazendo bosta. É o que acho que aconteceu em uma noite de 2002, na extinta Favela do Gato, um aglomerado de barracos que ficava ao lado da Marginal, no Bom Retiro, à beira do rio Tamanduateí. Naquela noite eu fazia plantão. Tudo estava tranqüilo quando o telefone tocou. Era um colega dizendo que moradores da favela tinham bloqueado a marginal com pneus em chamas, em protesto contra alguma coisa.
Logo corremos para o carro e partimos para o local. Naquela época, o motorista que trabalhava de madrugada era um doido que dirigia, em média, a 140 km/h. Como a marginal estava com quilômetros de trânsito paralisado devido ao bloqueio dos manifestantes, fomos cortando caminho por dentro do Bom Retiro. Saímos na avenida alguns metros após o bloqueio e o motora pegou a contramão. "Agora vocês já podem falar pra todo mundo que andaram na contramão na marginal", falou o piloto.
Quando chegamos no bloqueio, os bombeiros já estavam apagando o fogo dos pneus. Uma muldidão de moradores da favela nos cercou, todos falando e gritando ao mesmo tempo. Alguns usavam a camiseta na cara, tipo presos em rebelião na penitenciária, para que o rosto não aparecesse em reportagens. Eles diziam que uns dez policiais do GOE, o grupo de operações especiais da polícia civil, haviam invadido a favela, dando tiros pra todo lado.
A Favela do gato era, basicamente, duas fileiras de barracos, alguns de dois andares, que iam da marginal até a avenida presidente Castelo Branco. Ela era inteira cortada por um corredor. Os barracos ficavam um de frente pro outro.
De acordo com os moradores, os tiras teriam chegado pela Castelo Branco. Entraram no corredor da favela disparando, principalmente, nas lâmpadas dos postes. Vi vários com a caixa de luz furada e a lâmpada estourada.
Segui as pessoas até o barraco onde uma família comemorava o aniversário da filhinha quando os atiradores chegaram. Em frente havia uma churrasqueirinha de ferro caída no chão, toda desmontada e cheia de carvão em volta. O pai da aniversariante contou que ele estava ali tomando uma breja com os camaradas, assando uns espetinhos com as crianças brincando em volta, na hora em que começaram a escutar os pipocos. Os tiras, "vestidos de preto e com um tigre desenhado no peito (símbolo do GOE)", vieram correndo, atirando e xingando todo mundo. Um deles chutou a churrasqueira. Os homens da festa tomaram tapas na cara.
A sala do barraco, que havia sido toda enfeitada com personagens da turma da Mônica e paninhos cor de rosa, estava uma bagunça. Brigadeiros, pedaços de bolo, Mônica de isopor, Cebolinha de isopor, tudo pelo chão. A mãe e as tias da menina, que devia estar fazendo uns 6, 7 anos, não conseguiam parar de chorar. "Eles invadiram a festa da minha filha. Acabaram com a festinha da menina. Por quê? A gente não é bandido...", dizia a mãe entre soluços.
De lá, fui de volta à marginal, onde a galera me mostrou um lugar onde ficavam os carros. Tipo o estacionamento da favela. Lembro que tinha uma Kombi, uma Brasília, uma Variant e um Fusca entre mais alguns carros velhos. Eles pareciam peneiras. Os malditos deviam ter descarregado toda a munição dos brinquedos em cima deles. Atiraram nas latarias, nos vidros, nos pneus.
Eu não conseguia entender o porquê de tanta maldade. Já estava puto com o relato da festinha. Em frente àqueles carros, imaginava como devia ser foda pro coitado do favelado adquirir um, pra depois um bando de policiais playboys de merda filhos da puta chegar e destruir.
Na seqüência, apareceu um rapaz de muleta. Ele contou que os policiais, depois de lhe darem uns tapas e de o chamarem de bandido, brincaram de cowboy, atirando em seus pés para ele dançar. Balas atingiram suas pernas. E os tiras ainda o fizeram pular no rio Tamanduateí, que é tão poluído quanto o Tietê, onde desenboca alguns metros à frente.
Saí da favela sentindo raiva. Continuei acompanhando o caso por algumas semanas. Convocados pela corregedoria da Polícia Civil, os agredidos não reconheceram nenhum dos policiais do GOE que estavam de plantão naquela noite como os agressores. À imprensa, o GOE confirmou que fez uma operação na favela. Os tiras teriam ido verificar uma "denúncia de tráfico de drogas" e sido recebidos a tiros por "traficantes". O caso foi arquivado e ninguém punido.
No lugar da favela do Gato existe hoje um conjunto habitacional erguido pela prefeitura para seus moradores.
Pra mim, são playboys de merda com sérios distúrbios mentais. Representam perigo, pois acreditam que vivem dentro de um filme de ação americano. Acho que, à noite, devem sonhar com missões impossíveis, perseguições cinematográficas, explosões e coisas do tipo. Só que é lógico que isso só existe nas porcarias de Hollywood. Então eles ficam gastando uma puta grana pra comprar pistolas modernas e submetralhadoras. Andam armados até os dentes, porém dificilmente encaram um tiroteio de verdade. Isso quem faz, em geral, são PMs com revólveres 38 velhos.
Na febre e puxar o gatilho de seus brinquedinhos, esses idiotas acabam fazendo bosta. É o que acho que aconteceu em uma noite de 2002, na extinta Favela do Gato, um aglomerado de barracos que ficava ao lado da Marginal, no Bom Retiro, à beira do rio Tamanduateí. Naquela noite eu fazia plantão. Tudo estava tranqüilo quando o telefone tocou. Era um colega dizendo que moradores da favela tinham bloqueado a marginal com pneus em chamas, em protesto contra alguma coisa.
Logo corremos para o carro e partimos para o local. Naquela época, o motorista que trabalhava de madrugada era um doido que dirigia, em média, a 140 km/h. Como a marginal estava com quilômetros de trânsito paralisado devido ao bloqueio dos manifestantes, fomos cortando caminho por dentro do Bom Retiro. Saímos na avenida alguns metros após o bloqueio e o motora pegou a contramão. "Agora vocês já podem falar pra todo mundo que andaram na contramão na marginal", falou o piloto.
Quando chegamos no bloqueio, os bombeiros já estavam apagando o fogo dos pneus. Uma muldidão de moradores da favela nos cercou, todos falando e gritando ao mesmo tempo. Alguns usavam a camiseta na cara, tipo presos em rebelião na penitenciária, para que o rosto não aparecesse em reportagens. Eles diziam que uns dez policiais do GOE, o grupo de operações especiais da polícia civil, haviam invadido a favela, dando tiros pra todo lado.
A Favela do gato era, basicamente, duas fileiras de barracos, alguns de dois andares, que iam da marginal até a avenida presidente Castelo Branco. Ela era inteira cortada por um corredor. Os barracos ficavam um de frente pro outro.
De acordo com os moradores, os tiras teriam chegado pela Castelo Branco. Entraram no corredor da favela disparando, principalmente, nas lâmpadas dos postes. Vi vários com a caixa de luz furada e a lâmpada estourada.
Segui as pessoas até o barraco onde uma família comemorava o aniversário da filhinha quando os atiradores chegaram. Em frente havia uma churrasqueirinha de ferro caída no chão, toda desmontada e cheia de carvão em volta. O pai da aniversariante contou que ele estava ali tomando uma breja com os camaradas, assando uns espetinhos com as crianças brincando em volta, na hora em que começaram a escutar os pipocos. Os tiras, "vestidos de preto e com um tigre desenhado no peito (símbolo do GOE)", vieram correndo, atirando e xingando todo mundo. Um deles chutou a churrasqueira. Os homens da festa tomaram tapas na cara.
A sala do barraco, que havia sido toda enfeitada com personagens da turma da Mônica e paninhos cor de rosa, estava uma bagunça. Brigadeiros, pedaços de bolo, Mônica de isopor, Cebolinha de isopor, tudo pelo chão. A mãe e as tias da menina, que devia estar fazendo uns 6, 7 anos, não conseguiam parar de chorar. "Eles invadiram a festa da minha filha. Acabaram com a festinha da menina. Por quê? A gente não é bandido...", dizia a mãe entre soluços.
De lá, fui de volta à marginal, onde a galera me mostrou um lugar onde ficavam os carros. Tipo o estacionamento da favela. Lembro que tinha uma Kombi, uma Brasília, uma Variant e um Fusca entre mais alguns carros velhos. Eles pareciam peneiras. Os malditos deviam ter descarregado toda a munição dos brinquedos em cima deles. Atiraram nas latarias, nos vidros, nos pneus.
Eu não conseguia entender o porquê de tanta maldade. Já estava puto com o relato da festinha. Em frente àqueles carros, imaginava como devia ser foda pro coitado do favelado adquirir um, pra depois um bando de policiais playboys de merda filhos da puta chegar e destruir.
Na seqüência, apareceu um rapaz de muleta. Ele contou que os policiais, depois de lhe darem uns tapas e de o chamarem de bandido, brincaram de cowboy, atirando em seus pés para ele dançar. Balas atingiram suas pernas. E os tiras ainda o fizeram pular no rio Tamanduateí, que é tão poluído quanto o Tietê, onde desenboca alguns metros à frente.
Saí da favela sentindo raiva. Continuei acompanhando o caso por algumas semanas. Convocados pela corregedoria da Polícia Civil, os agredidos não reconheceram nenhum dos policiais do GOE que estavam de plantão naquela noite como os agressores. À imprensa, o GOE confirmou que fez uma operação na favela. Os tiras teriam ido verificar uma "denúncia de tráfico de drogas" e sido recebidos a tiros por "traficantes". O caso foi arquivado e ninguém punido.
No lugar da favela do Gato existe hoje um conjunto habitacional erguido pela prefeitura para seus moradores.
Sexta-feira, Setembro 03, 2004
Moradores de rua são mortos a pauladas quase todo dia nessa cidade infernal. Nunca ninguém se importou. Até que, recentemente, um sujeito saiu de rolê pelo centrão com um cano de ferro, taco de beisebol ou sei lá o quê, e estourou a cabeça de vários mendigos. Agora, todo dorme-sujo que morre vira manchete de jornal. Ontem, os dingos até sentaram suas bundas fedidas nas cadeiras dos vereadores num ato público em protesto contra o psicopata. Do caralho.
Particularmente, acho esse assassino um covarde filho da puta. Mas reconheço que o maluco é foda. O cara tem a manha, o sangue frio, de se aproximar da vítima enquanto ela tá dormindo e sentar uma única paulada na cabeça. Em duas séries de ataques, seis morreram. Dez ficaram gravemente feridos.
E eu, no meio de tudo isso, saí andando pelos locais dos ataques e trocando idéia com o povo de rua pra ver se descobria alguma coisa. Mas essa galera é completamente treze. A cachaça, aliada a diversos traumas do passado, acabou com a mente da maioria.
Nessas andanças, fui a um pico na Liberdade, ao lado de uma concessionária, onde uma tiazinha foi morta na segunda série de ataques, na madrugada de um domingo. Informando-me com comerciantes da região cheguei até lá. E encontrei um casal de moradores de rua. Um tiozinho barbudo que dormia sossegado estirado na calçada, com um boné na cara, e uma tia gordona, deitada em uma caminha improvisada com papelão, que olhava fixamente para o vazio. Cheguei até ela e dei boa tarde. O olhar maluco da mulher então se voltou pra mim. Ela era trezona, mas até que falava coisa com coisa. Perguntei se era realmente ali o local do homicídio. A tia confirmou.
Foi aí que percebi a mancha no chão, que saía debaixo da caminha de papelão. A doida tava deitada em cima da poça de sangue da morta. Agachado sobre aquela mancha vermelho escura, quis saber se ela não se importava de dormir em cima do sangue da outra. Com indiferença, a gordona disse que não. Também falou que não tinha medo de ser atacada. "É perigoso. Mas nóis se benze e Deus protege", era o que dizia. Sobre o assassinato, disse que estava dormindo "com sono pesado" e, quando acordou, a vítima já estava com a cabeça estourada.
Resolvi sair fora. Deixei a tia e a mancha de sangue lá e fui tomar água tônica num boteco. O balconista disse que achou estranho a mulher ter conversado comigo. "Aquela lá sai gritando sempre que alguém chega perto dela".
Particularmente, acho esse assassino um covarde filho da puta. Mas reconheço que o maluco é foda. O cara tem a manha, o sangue frio, de se aproximar da vítima enquanto ela tá dormindo e sentar uma única paulada na cabeça. Em duas séries de ataques, seis morreram. Dez ficaram gravemente feridos.
E eu, no meio de tudo isso, saí andando pelos locais dos ataques e trocando idéia com o povo de rua pra ver se descobria alguma coisa. Mas essa galera é completamente treze. A cachaça, aliada a diversos traumas do passado, acabou com a mente da maioria.
Nessas andanças, fui a um pico na Liberdade, ao lado de uma concessionária, onde uma tiazinha foi morta na segunda série de ataques, na madrugada de um domingo. Informando-me com comerciantes da região cheguei até lá. E encontrei um casal de moradores de rua. Um tiozinho barbudo que dormia sossegado estirado na calçada, com um boné na cara, e uma tia gordona, deitada em uma caminha improvisada com papelão, que olhava fixamente para o vazio. Cheguei até ela e dei boa tarde. O olhar maluco da mulher então se voltou pra mim. Ela era trezona, mas até que falava coisa com coisa. Perguntei se era realmente ali o local do homicídio. A tia confirmou.
Foi aí que percebi a mancha no chão, que saía debaixo da caminha de papelão. A doida tava deitada em cima da poça de sangue da morta. Agachado sobre aquela mancha vermelho escura, quis saber se ela não se importava de dormir em cima do sangue da outra. Com indiferença, a gordona disse que não. Também falou que não tinha medo de ser atacada. "É perigoso. Mas nóis se benze e Deus protege", era o que dizia. Sobre o assassinato, disse que estava dormindo "com sono pesado" e, quando acordou, a vítima já estava com a cabeça estourada.
Resolvi sair fora. Deixei a tia e a mancha de sangue lá e fui tomar água tônica num boteco. O balconista disse que achou estranho a mulher ter conversado comigo. "Aquela lá sai gritando sempre que alguém chega perto dela".