Testemunho de situações desgraçadas

Quinta-feira, Agosto 12, 2004

A primeira coisa que a gente reparou, ao entrar na tarde de ontem no 59 DP, Jardim Noêmia, bairro extremamente pobre da zona leste de SP, foi na nuvem de moscas que dominava o plantão policial. Devia ter uma centena delas voando em círculos. Não havia mau cheiro. Não havia merda no chão. Apenas aquele bando insetos.
Aquilo até me lembrou uma cena do filme Amityville Horror, em que um padre começa a rezar dentro da casa assombrada pelo Capeta e acaba atacado por uma moscaiada satânica. No filme, elas aparecem sempre que o Cão se manifesta. "Será que o Demônio está nesse DP?", pensei, enquanto passava pelos bichos, a caminho da sala do delegado.
O doutor era gente boa. Já o tinha trombado em outras ocasiões e ele sempre me ajudou como pôde. O delega então me narrou os detalhes da história que me levara àquela delegacia. A de um maluco que fora lá procurar ajuda, dizendo que uns caras queriam matá-lo. Insatisfeito com a demora no atendimento, o treze resolveu sair do distrito e pular o muro de um colégio estadual que fica do outro lado da rua.
Havia acabado de começar o intervalo do recreio quando ele caiu no pátio e entrou no prédio. Na primeira sala do corredor, uma professora loira, de 33 anos, dispensava os alunos da 5a série para o lanche. As crianças iam saindo da classe e o doido, um homem grande, de 39 anos, entrou e agarrou a professora pelo pescoço, dando-lhe uma gravata, enquanto gritava "tenho que ir preso! É minha única chance!".
Sem conseguir respirar, a professora quase morreu enforcada. Em meio às crianças que choravam e gritavam de pânico, foi salva graças a três alunos da 8a série, que arrancaram o grandalhão de cima da mulher na base da porrada. Separado da professora, o doido pegou uma caneta e começou a se furar com ela. A desgraça parou quando PMs da ronda escolar o derrubaram no chão e meteram-lhe algemas.
Levado de volta ao distrito policial, o maluco falou ao delega e a um tira que havia cagado nas calças e pediu a eles que soltassem suas algemas para que pudesse se limpar no banheiro. Quando o tira o libertou, porém, o trezão partiu pra cima dos policiais como um animal enfurecido e acabou derrubado com golpes de jiu jitsu. Novamente algemado, foi colocado em uma cela.
Havia um tempão que eu não entrava numa carceragem para conversar com um preso, pois estamos proibidos de ouvir criminosos detidos graças a determinações de um governador filho de uma grande puta e de um secretário de segurança pública que merece a morte e nada mais. Todavia, o delegado, como eu disse, era gente fina e permitiu que trocássemos idéia com o preso na boa, desde que não tirássemos foto do cara.
Desativada e reformada, a carceragem do 59 DP hoje é pequena. Ao entrar, pensei que o louco do colégio era um cara moreno e esquisito, de bigodão, que parecia dorme sujo e estava vestido com um jaco velho de nylon com capuz. Logo vi que ele tinha olhar de doido, mas percebi que não era aquele com quem eu conversaria quando o mano disse, encostado à grade, "o cara aí do lado tá nervoso, hein...". O delegado então chegou próximo à cela indicada pelo bigode e disse "ô doido, encosta aí!". Dos fundos daquele cubículo sujo e sombrio surgiu o grandalhão.
Branco, forte e três vezes maior do que eu _que sou baixinho pra cacete_, ele tinha manchas de sangue no nariz e no ouvido esquerdo. "Que foi? Que foi?", disse. Perguntei-lhe o nome e a idade e ele respondeu prontamente. Enquanto falava, andava de um lado para o outro com olhos arregalados e fazendo careta, pois esforçava-se para romper as algemas que mantinham seus braços presos para trás. Pelo rosto dele, que se contraía, víamos que o esforço causava-lhe dor. Mas ele parecia não estar nem aí. Dáva-nos a impressão até de que conseguiria quebrar as algemas a qualquer momento.
Seguiu-se o diálogo:
- Por que você queria ir preso?
- É minha única opção, senhor. Minha única opção.
- Única opção por quê?
- Tão querendo me matá. Tão querendo me matá.
- Mas quem tá querendo te matá?
- Uns trinta, vinte cara. Tipo linchamento. Tão querendo me matá.
- E quem são esses trinta caras?
- Uns cara aí. Todos qué me matá.
- Qué te matá por quê? O que você fez pra eles?
- Não fiz nada não. É que teve um assassinato no dia sete e no dia nove prenderam um cara. Aí falaram que eu cagüetei. Mas não cagüetei ninguém. Aí querem me matá.
- E você acha que na cadeia vai ficar livre deles...
- É, é...
- E pra conseguir isso, você entrou na escola e agarrou a professora.
- É. É. Era minha única chance. Minha única opção.
- Porra, mas você não pensou que podia matar a coitada?
- Eu não queria machucá. Queria só i preso. Até já falei com o dotô. Se ele dexá, eu vo lá pedi desculpa pra ela.
Fiz mais umas perguntas pro cara sobre sua vida. Ainda tentando arrebentar as algemas e andando feito um animal em jaula de zoológico, ele disse que era um metalúrgico desempregado e que morava na região, entre outras informações pessoais. Depois eu falei pro delega que tava beleza e saímos da carceragem. Quando saía, o esquisito da cela ao lado me pediu um cigarro. Disse a ele que não fumava e o mano me fez um positivo.
De volta ao plantão policial, as moscas continuavam voando em círculos. Um tira então comentou que o preso bigodudo, naquela semana, havia tocado fogo à própria cueca, dizendo que queria espantar mosquitos da cela. "É outro maluco. Vimos a fumaça saindo da carceragem. Entramos correndo e ele tava lá, segurando a cueca pegando fogo". Um advogado que estava presente perguntou ao policial onde o cara havia conseguido fósforo. "Sei lá! Eu é que não ia meter a mão nos bolsos dele", respondeu o tira.
Novamente olhei as moscas e pensei: "É... O Capeta tá aqui".



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