Testemunho de situações desgraçadas

Segunda-feira, Junho 28, 2004

Sim, mais um colaborador da desgraça apareceu. O brother Fábio, autor do blog O Ébrio, mandou para nós o relato de uma barbaridade, descrevendo como o profissional de imprensa, às vezes, nota que seu trabalho não passa de correr atrás de desgraças, do mesmo jeito que o urubu corre atrás de carniça.
Olheiro da Desgraça


A desgraça relatada abaixo pelo Olheiro e, principalmente, o desejo de matar o filho da puta que violentou a mina expresso nos comentários, me fez lembrar de um caso ocorrido há uns três meses em Parelheiros, no extremo da zona sul de São Paulo.
O estupro é realmente um crime repulsivo e revoltante. A gente fica imaginando o trauma, os momentos de horror vividos pela mulher, a dor de se sentir indefesa e impotente diante de um cara com um facão gigante encostado no pescoço dela. A gente fica imaginando o que faríamos se isso acontecesse com uma amiga, com uma irmã, com as nossas namoradas ou até mesmo com as nossas mães. É foda...
E o que você acharia se a vítima fosse um menino de 12 anos? Pois foi o que aconteceu em Parelheiros.
Naquele dia, o garoto estava andando de bicicleta em uma rua de terra quando se aproximou um cara conhecido como Alemão, que trabalhava como limpador de piscinas de um clube localizado nas proximidades. Ele chamou o garoto para ajudá-lo a limpar as piscinas. O garoto o acompanhou e, pouco depois, foi violentado e morto, asfixiado por um cobertor, dentro de um cômodo de madeira
onde vivia há cerca de dois anos o maníaco.
A família do moleque, algumas horas depois, comunicou o seu desaparecimento ao 25º DP. No terceiro dia de buscas, um domingo, o proprietário do clube desconfiou de um poço que tinha a tampa semi-aberta. Ele chamou os bombeiros que, após remexerem um pouco a água, perceberam boiando o corpo de um menino, vestindo apenas uma camiseta preta. Retirado do local, constatou-se que se tratava do garoto desaparecido. O poço ficava a menos de 300 metros de sua casa.
Os moradores logo desconfiaram de que o tal Alemão poderia estar por trás daquele crime bárbaro. Comentava-se na região que ele já teria tentado aliciar outras crianças do bairro, sem sucesso. O cara foi preso e confessou o crime.
Ao saber da desgraça consumada, os urubus, quer dizer, a imprensa, logo correu para o 25º DP, onde dentro estava o tal Alemão e, do lado de fora, uma multidão enfurecida querendo o sangue do filho da puta.
Depois de pegar todas as informações com o delegado, fui até a casa da família. No caminho, encontrei com menina de uns 14 anos, que era irmã da vítima. Ela me levou até seu pai. Logo avistei o homem humilde, com expressão de abatimento, tristeza e dor.
Apresentei-me e o que ele relatou em seguida, fez eu preferir ter sido enxotado de primeira do local.
Pacientemente e com a mão direita no meu ombro, aquele pai me disse que, ao longo dos três dias de buscas, sua família e seus vizinhos fizeram protestos, colaram cartazes com o rosto de seu filho em toda a região e até chegaram a fechar a principal avenida de acesso ao bairro. Tudo isso para pressionar a polícia a encontrar rapidamente o garoto desaparecido. Ele contou também que, por diversas vezes, eles ligaram para jornais, rádios, revistas e emissoras de tv da capital, pedindo apoio à causa. Em seguida, ainda com a mão no meu ombro, ele respondeu com voz calma e branda ao meu pedido de entrevista: "Agora meu filho já está morto. Você me desculpe, filho, mas acho que não vai mais resolver eu falar nada pra sua matéria", virou as costas e entrou com outros dois filhos em sua casa.
Extremamente constrangido e desnorteado por aquele relato, eu entrei no táxi e voltei pra redação do jornal vermelho.

Terça-feira, Junho 22, 2004

Mais ou menos há uns quatro anos, uma loirinha linda e baixinha, hostess de um restaurante chique na Vila Olímpia (bairro nobre da zona oeste de SP), saiu do trampo no início da madrugada e caminhou até seu Gol, parado a poucas quadras dali. Quando ia abrir o carro, teve uma arma encostada na nuca. Era o início da pior desgraça que passaria em sua vida.
Obrigada a entrar no Gol pelo assaltante, ela teve de ir para o banco do passageiro, enquanto o bandido assumia o volante.
Da Vila Olímpia, a garota foi levada até a região da Vila Brasilândia, na zona norte, tomando coronhadas e puxões de cabelo do ladrão. Além da agressão física, o maluco ainda a chamava de puta e dizia que ela não escaparia viva, pois já matara seis mulheres.
Mandando a vítima se abaixar para não ver o caminho que faziam, o ladrão então a levou até a casa dele, um quartinho nos fundos de um restaurante. Se eu não me engano, o cara era garçom ou cozinheiro do lugar.
Lá, o maníaco mandou a garota ficar nua e a se deitar em um colchão velho. O revólver com o qual ameaçava a coitada foi guardado e ele tirou, de trás de um armário, um facão imenso de, pelo menos, 40 cm.
Com a enorme lâmina encostada o tempo todo na garganta da jovem, o filho da puta a estuprou e violentou durante duas horas seguidas. E, depois de satisfeito, mandou a garota ir tomar banho. "Quero que você esteja bem cheirosa quando eu te matar", disse então à vítima, que, chorando e sem esperança de continuar viva, foi para debaixo do chuveiro.
Quando saiu do banheiro, a loirinha ficou aliviada _se é que alguém pode se aliviar numa situação dessas_ ao ouvir do estuprador que ele tinha mudado de idéia. "Gostei de você. Por isso resolvi te deixar viva", foi o que ele disse.
Da Brasilândia, o canalha levou a garota de volta ao local onde a havia abordado. Deixou ela lá quando o dia amanhecia e foi embora com o Gol.
Horas depois, a jovem estava na casa em que morava com os pais, tentando dormir com a ajuda de calmantes e consolada pelo namorado, quando o telefone tocou. Era a continuação do pesadelo. Ao atender o telefonema, o pai da jovem ouviu "deixa eu falar com a minha gatinha". Sim, o maldito voltara para atormentá-la. Logicamente, a moça não quis atender e entrou em pânico. Um irmão, desesperado, saiu correndo pela rua atrás de uma viatura policial. Por sorte, a poucos metros de casa, encontrou uma equipe do Goe, grupo de elite da Civil, chefiada por um delegado experiente, acostumado a situações com refém e a negociar com presos rebelados em cadeias.
Na casa da garota, muito calmamente, o delegado conversou com ela e a convenceu a atender o telefone, que não parava de tocar. A família então soube que a intenção do cara era devolver o Gol roubado, em troca de R$ 500. Orientada pelo delega, a mina então combinou um encontro com o maldito, que, na hora marcada, a aguardava junto a um orelhão. Lá, a polícia o prendeu. Ele estava acompanhado de um comparsa, colega do restaurante.
Pouco depois, um colega meu recebeu uma ligação e soubemos do caso. O Goe estava levando a vítima e o bandido para a Brasilândia, onde ela reconheceria o quarto em que ele morava como local da violência sexual.
Corremos para o endereço indicado e chegamos alguns segundos antes da equipe policial. O criminoso permaneceu dentro do camburão, enquanto a moça entrava na casa, acompanhada do namorado e do irmão, além dos policiais. Entramos junto.
Dentro daquele quartinho imundo, chorando agarrada ao namorado, a moça confirmou que aquele era o local onde fora brutalmente violentada. E indicou o armário onde o maníaco guardava o facão. Ficamos impressionados com o tamanho da lâmina quando um dos policiais o tirou detrás do esconderijo.
Em seguida, a garota nos relatou, entre soluços, ainda nos braços do namorado, tudo o que ocorrera com ela. Em detalhes.
Fiquei muito revoltado. E desejei que aquele maldito recebesse tratamento adequado dos outros presos do distrito.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

Ontem, li em um site que Johnny Ramone está com câncer na próstata e, em breve, vai se juntar aos seus ex-companheiros de banda Joey e Dee Dee, mortos em 2001 e 2002, respectivamente. O primeiro por câncer na medula, o outro por overdose de heroína.
A notícia fez minha cabeça voltar a 1996, quando eu tinha 18 anos (puta merda, como o tempo passa) e vi os Ramones tocando no Olympia, na turnê de seu último álbum de estúdio, o Adiós Amigos. Era a segunda vez que eu assistia a um show dos caras. A primeira tinha sido em 1994, na turnê do Acid Eaters (já faz 10 anos, caralho!!!), também no Olympia.
As duas noites foram marcantes para mim. Os Ramones são, sem dúvida, a banda que mais me influenciou na adolescência e até hoje está entre as que eu mais escuto.
Em 94, eu pulei e gritei com toda a minha energia de 16 anos, enquanto eles mandavam sons como Commando e Listen to My Heart, entre outros. Foi bom demais, mas eu não estava muito perto do palco e o Joey passou mal durante o show. Ele ficou um tempinho nos bastidores inalando oxigênio, enquanto o baixista C.J. segurava a onda com as músicas que cantava.
Dois anos depois, lá estava eu de novo para ver o show da turnê de despedida da banda, que anunciara a aposentadoria após 20 anos de estrada.
Dessa vez, eu e uma amiga que hoje é médica conseguimos grudar na grade, em frente ao lado direito do palco, a pouquíssimos metros do Johnny Ramone. Chegamos lá graças a um grupo de carecas. Nas primeiras músicas, antes de eles aparecerem, eu e a mina, ambos baixinhos, não estávamos conseguindo ver o palco devido a um monte de cabeludos altos que não paravam de pular na nossa frente. Os carecas, fortões, chegaram abrindo caminho, socando porrada nos cabeludos. Aproveitamos a deixa e os seguimos até grudarmos na grade, onde ficamos até o fim do show.
Em frente ao Johnny, fiquei besta com a ira com que ele martelava as cordas da guitarra, sempre de cabeça baixa, mexendo-se como se estivesse com o capeta no corpo.
Dizem que, dos Ramones originais, ele é o que menos enchia a cara e o único que não usava drogas. Mas, na minha frente, parecia completamente alucinado. Com olhos arregalados e cara fechada, sem dar um sorrisinho sequer, o maluco não parava de se chacoalhar, sempre olhando para um ponto fixo no fundo do Olympia. Nem piscava. Estava em transe.
Quem teve a sorte de assistir aos Ramones ao vivo sabe que o show era pura adrenalina. As músicas, já rápidas, eram aceleradas, tornando-se a verdadeira trilha sonora da desgraça. Quando uma acabava, outra já começava na seqüência. Eram separadas apenas pela clássica contagem "one, two, three, four", do baixista. O Joey falava muito pouco com o público.
Olhando eles de perto, fiquei pasmo com sua sincronia. Não havia set list no chão. Os caras não conversavam uns com os outros para lembrarem qual era a próxima música. Vinha uma porrada, depois "one, two, three, four", outra porrada, outro "one, two, three, four"... No fim do show, eu, sem voz e tonto, encharcado de suor, achava que eles não eram humanos. Eram andróides, alienígenas ou sei lá o quê.
Recebendo a notícia do câncer de Johnny, sua figura alucinada daquele dia voltou nítida à minha mente e fiquei muito triste. Por isso resolvi escrever este texto, que não é o testemunho de uma desgraça, como os outros publicados aqui. O que testemunhei naquelas horas em que fiquei na frente do Johnny, foi sua intensidade, sua loucura e energia. A desgraça é o câncer que vai matá-lo.
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Sábado, Junho 12, 2004

Hoje é dia dos namorados. Essa singela data me faz lembrar de um jovem casal morador da região do Jardim Ângela.
No ano passado, o rapaz engravidou a moça, uma morena muito bonita e gostosa de 17 anos. Após saber da gravidez, ele exigiu que a namorada fizesse o aborto. Ela não quis e eles brigaram.
À noite, o namoradinho da moça bateu na porta da casa onde ela morava com os pais e um casal de irmãos mais novos. A mãe havia saído, pois trabalhava no período noturno. Na casa, estavam a menina, os irmãos, uma amiguinha da irmã e o pai. Este abriu a porta e viu que o namorado da filha estava acompanhado de dois amigos. Os três então invadiram a casa e começaram a espancar o tiozinho com pedaços de pau. Todos estavam bêbados. Haviam tomado pelo menos uma garrafa inteira de pinga 51.
Depois de destruir a primeira vítima, o trio partiu pra cima da jovem, que quebrou todas as unhas tentando se defender. A coitada apanhou tanto quanto o pai e ainda foi estuprada e violentada pelo namorado e seus amigos. Mas o espancamento não foi a causa de sua morte. Ela e o pai morreram intoxicados pela fumaça do incêndio que os três causaram em seguida.
Pelo menos, os assassinos pouparam da agressão os irmãos e a amiguinha da irmã, que ficaram trancados no banheiro. Por sorte, eles não foram também asfixiados pelo incêndio. Os bombeiros apagaram o fogo a tempo de salvá-los.
No dia seguinte, o namorado e seus comparsas foram presos graças ao testemunho das crianças.
Enquanto eu via aqueles três jovens com idades entre 18 e 21 anos entrando no camburão, pensava a respeito de como o ser humano pode ser mau. O que será que o sem vergonha sentia quando descia o porrete na mina que esperava seu filho? E quando via seus amigos a estuprando? Sei lá... Nada mais nesse mundo me surpreende.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

O Zé Povinho, às vezes, fica perigoso.
Três anos atrás, se me lembro direito, sumiu uma menina de uns 8 ou 9 anos na região de São Mateus, zona leste paulistana.
Uma tiazinha então saiu pelas ruas espalhando que tinha visto uma loira abordando a menina e levando-a para dentro de um carro. Um retrato falado foi feito com base no depoimento da tia.
Passados alguns dias, boatos fortes de que a loira tinha pego mais crianças começaram a circular entre as comadres da região.
Passou a chover telefonemas no meu trampo. "Encontraram na rua x um menino morto, sem órgãos. Teve gente que viu a loira pegar ele na saída da escola", disse, numa delas, uma senhora que não sabia quem era o tal garoto, não conhecia nenhum parente dele e não tinha visto o corpo.
Eu e meus colegas vivíamos checando as informações. A polícia não confirmava a existência de nenhum dos casos denunciados. Tudo indicava que a história da loira era pura cascata. Lenda urbana.
Mesmo assim, o povo espalhou o retrato falado da suposta seqüestradora pelos quatro cantos da z/l.
Passeatas pedindo a prisão da mulher começaram a pipocar por todos os lados. Eram encabeçadas por um investigador, pai da menina que havia desaparecido. Enlouquecido pelo desaparecimento da filha, ele saiu distribuindo os retratos falados da loira e empunhando faixas de protesto com os dizeres "chega de impunidade".
A zona leste queria a cabeça da loira.
Certa tarde, já meses após o início da boataria, uma loira, dona-de-casa, muito parecida com a descrita no retrato-falado, comia um lanche na praça de alimentação de um hipermercado Extra na região de São Miguel. Teve o azar de ser vista por membros da mais tosca corporação encarregada de "zelar pela segurança do cidadão": a GCM.
Os guardas logo deram cana na coitada e a levaram para o 59 DP, no Jardim Noêmia, um bairro muito pobre da periferia lado leste. Chegando ao DP, os GCMs ligaram para os telejornais sensacionalistas de fim de tarde. Em poucas horas, a prisão da "loira seqüestradora de crianças" era noticiada. Com a reportagem entrando ao vivo, em frente à delegacia, sem ter confirmado porra nenhuma com a Polícia Civil. Agindo desse modo, o telejornal não só cometeu o erro de dar uma notícia ainda incerta, como convidou todo o Zé Povinho a cercar o DP e tentar linchar a facínora que roubava criancinhas.
Naquela época, o distrito ficava cercado por ruas de terra.
Quando cheguei lá, encontrei o policial pai da menina desaparecida empunhando uma faixa de "Queremos Justiça" à frente de centenas de pessoas. Todas gritando "Vamo invadi! Vamo invadi! Vamo invadi!..." e também "Ih, vai morrê-ê! Ih, vai morrê-ê!".
O ânimo do pessoal ainda era agravado por uma conversa furada de que não sei quem tinha reconhecido a detida como a seqüestradora de pivetes.
Passei pela multidão e fui conversar com inspetores da GCM que estavam na frente da porta de vidro da delegacia. Todos tensos. "A moça está lá dentro. Sendo interrogada", disse um dos inspetores. Nesse instante, senti algo batendo em minhas costas. Olhei para trás e vi uma pedra no chão. Em seguida, outra pedra estilhaçou uma janela do DP.
Foi foda! Entramos todos correndo na delegacia. Ficamos protegidos pelas paredes, vendo várias pedras arrebentarem as janelas e espalharem cacos de vidro por todo o plantão. Fora, a multidão parecia cada vez mais enlouquecida, querendo o sangue da pobre dona-de-casa. Esta estava fechada na sala com o delegado. Imagino como devia estar desesperada, ouvindo os gritos do Zé Povinho enfurecido e o barulho dos vidros sendo arrebentados.
Eu já achava que ia presenciar a maior desgraça da minha vida, quando chegaram os gorilas jiu-jitsu do GOE, grupo de operações especiais da Polícia Civil. Eles tentaram dialogar com o povo, mas a galera não quis conversa. Então os caras puseram em ação uma tática para dispersar tumultos. Eles se juntaram em um grupo de cerca de dez homens e partiram correndo, a toda velocidade, para cima do povão, dando tiros de calibre 12 para o alto.
A multidão se dispersava e depois voltava. Alguns reagiram atirando pedras nos policiais. No meio daquela correria, saí do DP para assistir de perto a ação dos tiras. Eu estava poucos metros atrás deles no momento em que o primeiro se atirou ao chão.
"Tiro! Tiro!", começaram a gritar os policiais.
Algum maluco armado havia começado a disparar, não sei de onde, contra eles. Rapidamente me escondi atrás de um muro. Mas os tiros logo cessaram e o GOE não deixou mais ninguém chegar perto do DP. Fui até um ponto onde aquele bando de loucos estava concentrado e perguntei a alguns deles por que queriam matar a mulher. Um noinha disse "Queremo matá porque é fia da puta".
"Como assim filha da puta?", perguntei. "Sei lá, mano. É fia da puta e pronto", disse o mala. Algumas tiazinhas idosas gritavam para mim que a mulher já tinha pego mais de dez crianças. Mas, com excessão do desaparecimento da filha do investigador, nenhuma sabia sequer mencionar ao menos um dos tais dez casos.
Em meio a toda confusão, a polícia tirou a dona-de-casa da delegacia pelos fundos e a levou de volta para casa. A coitada não tinha nada a ver com desaparecimento nenhum.
Demorou um tempo até o Zé Povinho se convencer de que a mulher tinha dado área. O policial pai da desaparecida foi embora indignado, seguido pelos outros manifestantes. E o delegado, em conversa reservada comigo e colegas, meteu a boca na GCM e no telejornal que noticiou o fato, criando toda aquela desgraceira.
Até hoje não se sabe o que aconteceu com a menina desaparecida. E, depois dessa encrenca, nunca mais ouvi falar da loira da z/l.

Sexta-feira, Junho 04, 2004

Ultimamente tenho tido muita preguiça de escrever. Por isso fico feliz ao receber contribuições dos manos pra esta desgraceira. O texto que vcs lerão abaixo é uma colaboração do Franco Atirador. Autor do blog Metralhadora Giratória (link ao lado), esse bêbado sem vergonha resolveu dar uns tiros por aqui, relatando toda desgraça que viu em um depósito podre de gente louca. Do caralho!

Olheiro da Desgraça


A baba, merda, porrada e tudo o mais

por Franco Atirador, do Metralhadora Giratória

Reunião de trabalho. Sugeriram que eu fizesse algo impróprio,
entrar num hospital para denunciar as condições ruins do local.
Na verdade, eu era o autor da sugestão. Dias antes havia entrado
em um hospital estadual da zona sul de forma ilícita. Deu resultado.
Desta vez a missão era outra: entrar no maior hospital psiquiátrico do país, o Juquery, em Franco da Rocha.
Achei que seria degradante, me colocaram muito medo, uns me
tacharam de maluco por achar que lá ficaria. É que alguns insistem
em me colocar um certo apelido pejorativo, aumentativo de maluco.
Enfim. No dia anterior fui dormir tarde, pois a xereta _maquineta
da era paleozóica que me forneceram para roubar as fotos_ e a digital _na verdade, emprestada pelo enteado de um editor do jornal_ estava sendo adequada para que eu fosse até o local. Fui dormir à 1h da manhã.
Acordei às 5h. Liguei para o motora. Ele já me aguardava ao lado
de um traveco, uma loira, de quase 1,90 de altura, que fica na esquina lá de casa. Gente boa. Devidamente armado, frio de 9 graus, queimamos asfalto.
Tentei dormir. Não consegui pois o hálito do motora não permitiu.
Fiquei acordado e torcendo para que ele não conversasse. Até que aumentei o volume do rádio, o que nada adiantou.
Chegamos até o local. Fomos tomar um café numa padoca. Era tudo top-secret, não poderíamos falar para ninguém o motivo de estarmos lá. Eis que paramos num determinado local perto da padoca e perguntamos como fazer para ir até o Juquery. "Ah, eu trabalho lá. Em qual setor vocês vão?", foi a reposta de um semi-tiozinho. Meu cu deu uma leve apertada, o frio de fora invadiu a barriga. Conseguimos nos sair bem.
Cheguei até o hospital, chancelas abertas, muito verde, prédios,
o meu contato, uma senhora negra, serelepe, aguardava soturnamente.
"Você que é o X?", ela perguntou, com seus olhos vermelhos, como se tivesse fumado um naquele instante.
Entramos no hospital. De cara um cadelo mó babento passeando ao lado de uma maca. Na maca, um elemento todo 13, doido de varrer, tomando um soro amarelado. Em outra sala, um odor horrível. Cheiro de merda misturado a sangue pútreo e álcool. Era um diabético isolado num canto qualquer, à espera da donzela de foice nas mãos e capote.
Um laboratório que deveria fazer exames cheio de canos estourados. Quase que um naco de bosta cai em cima de meu casacão. Resolvi dar área. Do lado de fora, cães farejando um lixo. Um louco remexendo plástico, restos de comida e também papel higiênico usado.
Fui até onde ficam os doidos de verdade. Uma tiazinha que tem idade para ser minha vó tremia no canto da sala, sem toalha, nem roupa, após tomar um banho frio. Ela só cruzava os braços e olhava para algo que estava longe. Um outro rastejava de quatro, sujo de bosta, babando pela boca. Procurava pelo chão algo para comer. Acredito que não deve ter achado. Enquanto isso uma enfermeira revirava um corpo qualquer, imóvel. Colocou o estetoscópio no peito da vozinha _parecia corpo de criança magra, de tão irrugado e fino. Parecia estar viva. Em suas costas, um buraco onde poderia se ver a carne viva. Era uma espécie de lepra, me explicaram.
Fui até o corredor. Um funcionário ficou puto da vida porque um doido estava do lado de fora. Não colou o argumento. Partiu pra porrada. Bateu a cabeça do doido contra a parede, levou-o até a porta e deu um belo chute no traseiro do elemento. Ameaçou que, se o cara voltasse para fora, era na porrada. Fechou a porteira, olhou pra gente, deu um sorriso, virou de costas e assobiou algo, como se nada tivesse acontecido.
Fui em outros locais do hospital. Achei que, por alguns instantes, estava num circo de horrores. Pessoas defeituosas, babando, sujas, peladas, irritadas, inconformadas e sem sentido de viver.
Olhei para o motora, passei num posto de gasolina, tomei uma cerveja e constatei que tudo aquilo não é verdade. Apenas uma novela da Globo com personagens reais. Nada mais.

Quinta-feira, Junho 03, 2004

Amigos, tenho o prazer de anunciar mais um colaborador desta desgraceira. Além de psicopata e alma perdida, Fábio Embu é autor do blog mão na bunda (que vc encontra nos links ao lado) e grande amigo meu. O texto abaixo relata uma desgraça presenciada por ele durante a infância em sua cidade natal, Embu das Artes. Divirtam-se
Olheiro da Desgraça

O Linchamento de Pinóquio
Por Fábio Embu
Um presente do mão na bunda pro desgraceira.


No rádio, Zé Bétio gritava: joga água dona Maria. Joga água!!! Em casa, minha mãe dizia: vai comprar pão meu filho. Vai logo. Seu pai tem que ir trabalhar e ele já está atrasado.

Eram seis da manhã e o frio era de doer os ossos. Minha mão, encolhida e com uma nota de mil cruzeiros apertada contra a palma, estava dormente e imóvel. A padaria era em outro bairro e tinha que dar um puta rolê por ruas de barro. Ladeira desgraçada, só de pensar já desanimava. Resolvi cortar caminho pelo matagal. Essa manobra me economizaria quase um quilômetro e o único incômodo era o mato molhado roçando a canela. No meio do caminho ouvi um estrondo raquítico, parecia um disparo de 22. Fiquei com o cu na mão. Não sabia se me jogova no mato ou se corria de volta. Pânico. Pouco depois, questão de segundos, veio um grito de dor e na sequência um coro: Lincha....lincha.

Pinóquio levou um tiro na perna e estava caído no matagal. Finalmente, a justiça das ruas será feita. Esse cara era um vagabundo da pior espécie. Roubava os comerciantes da região todos os dias e, se não tivesse grana no caixa, ainda ameaçava os tiozinhos. Não tinha pena de nada nem de ninguém. Varal, tênis, toca fita, dinheiro do leite, bombeta, bola de capotão, até sandália havaiana o mano güentava. Ladrãozinho pé de chinelo do caralho.

O coro da galera me trouxe segurança, então resolvi seguí-lo para assistir à cena. Lincha...LINCHA... LINCHA. A cada passo, o grito era mais uniforme, mais forte. Estava muito perto, a nota de um barão já estava molhada de tanto que minha mão suava. A essa hora, o som das pauladas era nítido e as súplicas do sem vergonha também. Por favor, não me mata! Pára!!! Não me mata! Cheguei num lugar privilegiado, um verdadeiro camarote da desgraça alheia, assim como os programas de televisão que nos dão boa noite. Pinóquio, que ganhou esse apelido pelas mentiras que contava quando criança, apanhava com pedaços de madeira. Que ironia. Caibros, sarrafos e varas dilaceravam seu corpo. Todos odiavam o sem vergonha. As pedradas faziam um barulho engraçado, principalmente quando acertavam sua cabeça. Por favor, não me mata! Pára!!! Não me mata! Implorava todo ensangüentado. Os dentes saltavam de sua boca enquanto berrava feito um porco prestes a morrer. Então veio o golpe de misericórdia. Nunca mais esquecerei essa cena. Um tiozinho manco, todo fudido de reumatismo ou sei lá o quê, traz um botijão de gás. Ele chega perto do vagabundo, levanta o bagulho bem alto e joga na cabeça de Pinóquio. Pimmmmmmmmm. O botijão esmaga o crânio do cara. Seu corpo ainda treme, mas sua alma já está a caminho do inferno.

O barulho me tirou do êxtase. O dinheiro caiu da minha mão, então me lembrei que tinha que ir na padaria. Voltei pra casa correndo e quando cheguei, tomei uma surra. Meu pai foi trabalhar sem tomar café da manhã.

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