Testemunho de situações desgraçadas

Sexta-feira, Maio 28, 2004

O toque do telefone me arrancou da cama às 8h30 da última terça. Era meu chefe dizendo que um carro passaria em casa para me levar a Osasco, onde tava rolando uma reintegração de posse. Quando desliguei o aparelho e andei até o banheiro, percebi que estava com uma das piores ressacas dos últimos tempos. A cabeça pesava, o estômago estava embrulhado e eu não conseguia engolir nada que não fosse apenas água. "Merda, merda, merda, filha da puta..." era tudo o que eu conseguia dizer.
A ressaca e o mau humor me acompanhariam o dia inteiro. E que bosta de dia.
Cheguei no terreno da reintegração, que ficava ao lado da Raposo Tavares, e procurei o major da PM responsável pela operação. Quando achei, ele estava cercado de uns três ou quatro outros PMs. Um deles, tenente, falava "eles (sem-teto) tão indo até a Raposo para protestar". "Por que a gente não segurou esses filhos da puta?", perguntou o major. Foi aí que o tenente percebeu minha presença e quis saber quem eu era. Identifiquei-me e o meganha, com uma careta escrota e um tom de voz folgado de quem se acha pra caralho, mandou que eu aguardasse "ali", apontando para o outro lado da rua.
Encarando-o com o máximo de raiva que pude colocar em meus olhos, disse "tudo bem" e dei uns três passos para trás. Ele continuou olhando feio. E eu também. Então os coxinhas se juntaram mais e passaram a falar baixo. Depois, o porra do major de merda saiu andando, ignorando-me. Fiquei mais puto ainda e resolvi não tentar mais falar com ele. Conheço um ou outro PM gente boa. Mas tem muitos que merecem ser fuzilados pela bandidagem mesmo. Bando de filhos da puta comedores de carniça, como diz o Mano Brown.
Entrei no terreno, onde escavadeiras derrubavam o acampamento dos sem-teto. O pico era só lama. E tava um frio lascado. Lá encontrei um cara que tinha tomado uma gravata e umas borrachadas dos policiais, quando tentou voltar ao seu barraco para pegar os documentos.
Aquela reintegração não tinha sido nada pacífica. Na sequência, falei com um coitado, de camisa do Corinthians, que tinha levado um tiro de bala de borracha na cara. Um curativo cobria o ferimento. "Eu tava pegando a lona pra sair do terreno. Não queria briga. Aí, do nada, eles atiraram na minha cara", disse o pobre sujeito.
Também encontrei uns sem-teto de araque, que moravam em casas da região e montaram acampamento no local para conseguir uma vaga no terreno, caso a Justiça lhes concedesse a posse da terra.
Dei mais um rolê por ali e achei a passeata de sem-teto da qual o tenente cuzão falava. Eles marchavam rumo à Raposo Tavares, atrás de seu líder, que discursava num microfone ligado a caixas de som que ficavam sobre um Uno. Pela rodovia, eles foram a pé até a subprefeitura do Butantã, debaixo de uma chuva nervosa que começou a cair. De ressaca, mal humorado e achando tudo aquilo uma grande merda, tomei boa parte da chuva tentando entrevistar o líder dos desabrigados, que não me dava atenção, pois falava sem parar no microfone. Pensei "que se foda" e entrei no carro que estava à minha disposição. Fui até a subprefeitura dormindo no banco de trás.
Chegando lá, conheci direito os manifestantes. Muitos deles estavam completamente bêbados e ficavam arrumando treta entre si. Um colou em mim e em colegas e, bancando o bandidão, disse pra não irmos embora dali, pois precisava do nosso apoio para a subprefeitura atendê-los. Se eles notassem que a gente ia sair fora, ficaria “pequeno” pra nós. Isso só aumentou minha impaciência com aquela situação.
Outro maluco, completamente chapado, ficava cambaleando de lá pra cá com um tambor de água. “É água. Água pras crianças”, não parava de falar.
A certa altura, dois deles começaram a brigar por causa de uma mina. A turma do deixa disso separou. Alguém disse “fica na boa, mano. Vai lá e troca uma idéia com o cara”. “Aê, maluco, a idéia é no Taurus”, respondeu, todo malandrão. Deprimente. Aliás, as minas sem-teto eram foda. Uma delas pertencia a toda a comunidade. Os bebuns chegavam agarrando e chupando o pescoço. Ela só dava risadinha e gritava “queremos moradia”.
Tinha também umas tiazinhas que viravam uma garrafa de dois litros de coca, cheia de pinga, e uns adolescentes que improvisavam uma caipirinha num copo de plástico. Com a ressaca que eu tava, aquilo me virava o estômago.
Mas o que me irritava mesmo era uma meia dúzia de estudantes de filosofia que ficava no meio dos sem-teto com cara de cu, acho que pra conhecer a realidade de perto. Eu daria qualquer coisa para estar longe daquela desgraça, mas os idiotas tavam lá porque queriam, porque lutam pelo social. Na minha opinião, quem tinha que apanhar da polícia eram eles, não os desabrigados.
O auge da desgraceira ocorreu quando chegou o rango, vindo de outro acampamento sem-teto. Após vários gritos de “queremos comida”, os manifestantes receberam umas panelonas toscas. Quando foram abertas, vi um arrozão empapado nojento, com pedacinhos de cenoura e batata. Aquilo era colocado em uma tigelinha de plástico e a galera mandava ver.
Fiquei lá até umas 17h. Saí amaldiçoando os PMs, os sem-teto e aquele maldito dia que, graças a Deus, acabou bem, comigo em casa, sozinho e quieto, assistindo Full Metal Jacket no SBT.

Quarta-feira, Maio 12, 2004

Uma rua que não existe no guia, em um bairro que não existe no guia, era o nosso destino naquela noite gelada de maio de 2001. Só sabíamos que o lugar ficava em Guarulhos. Rumávamos para lá seguindo indicações da PM. Uma chacina com três mortos nos esperava.
Devia ser umas 20h quando nosso carro saiu da Dutra e começou a avançar por uma estrada secundária da qual não me lembro o nome. Rodamos muito sem saber se estávamos indo na direção correta. O celular perdeu o sinal. Não tínhamos como ligar novamente para a PM e pedir mais orientação.
Nenhum carro passava por aquele asfalto cercado de matagal e dominado pelo breu. Demorou até acharmos um pequeno povoado às margens da rodovia. "Por favor, o senhor sabe onde fica a rua Iverava?", perguntou o motorista, da janela do carro, a um tiozinho de uma birosquinha de madeirite. Ele não fazia idéia de onde ficava a rua. O motora então perguntou se ele conhecia o bairro: Fazenda Ponte Preta.
"Mas o que vocês vão fazer lá?", perguntou. Depois que explicamos o que havia acontecido, ele disse "lá é muito perigoso. Se eu fosse vocês, não ia" e depois indicou o caminho que devíamos pegar.
O aviso do tio criou um certo mal estar dentro do carro. "Olhaí pra onde vocês tão me levando, caralho", disse o motorista com voz trêmula a mim e ao colega que me acompanhava. Reagimos fazendo piadinha sobre o medo do cara.
Quilômetros a frente, encontramos outro povoado, onde uma tiazinha gorda, logo que ouviu o nome do bairro, me disse "não vai lá não, fio! Você pode morrê!".
O motorista, que já estava ressabiado, dessa vez se apavorou. E paramos de fazer piadinha, pois notamos que a coisa podia ser séria. Mesmo assim, seguimos em frente, apesar das reclamações do motora, que queria nos convencer a voltar.
Depois de cerca de uma hora circulando por aquele fim de mundo, encontramos a rua. Era comprida, de terra e nela não havia nenhuma casa. Só matagal. Andamos alguns metros e vimos as luzes dos giroflex de três viaturas da PM, única fonte de iluminação no pico.
Paramos e fomos conversar com os policiais. O sargento, cabo, tenente, sei lá... contou-me mais ou menos o que tinha acontecido: "Uma mina entrou no mato para mijar e encontrou os corpos. Eles tavam debaixo do chassis de uma caminhonete. Estão bem feios. Nenhum tá identificado". Perguntei se podíamos ir até os cadáveres. "Fica a vontade. É só entrar naquela trilha", disse, apontando para um buraco escuro no meio do mato.
Perguntei se algum dos policiais podia me acompanhar. "A gente não vai voltar lá não. Vai na boa. Não tem erro. É só seguir em frente". Pelo menos o PM não recusou quando pedi uma lanterna emprestada. E entramos na trilha.
O matagal estava gelado e úmido. A luz da lanterna era muito fraca. Não iluminava quase nada em meio àquela escuridão. Por isso quase tropecei no primeiro corpo. Os três estavam enfileirados, lado a lado. Dois negros e um branco. Todos completamente nus. E tão feios quanto o rascunho do mapa do inferno.
Como o PM havia informado, os três foram encontrados debaixo do chassis de uma caminhonete. Os policiais haviam erguido a peça e a deixado escorada nas árvores, aos pés dos mortos. Examinei os presuntos e vi que haviam tomado tiros no peito e na cara. Posteriormente, os assassinos derrubaram o chassis sobre o trio, esmagando suas pernas e cabeças. Um estava com uma abertura nervosa no crânio e seu cérebro se espalhava pelo chão de terra.
Meu camarada, que trazia consigo uma máquina fotográfica, pediu-me para iluminar os corpos com a lanterna, enquanto ele os retratava. Depois de tirar várias fotos, disse: "Coloca a lanterna na sua cara". Fiz aquilo sem pensar e ele clicou. "Essa é pra você guardar de lembrança", disse.
Estávamos quase indo embora quando o brother notou que seu tênis estava sujo de miolos do cadáver. "Puta que pariu! Pisei no cérebro! Merda! Vamo embora logo!".
Devolvemos a lanterna do PM, agradecemos a atenção e vazamos. Na área urbana de Guarulhos, a primeira coisa que fizemos foi parar em uma farmácia, onde o colega comprou uma garrafa de álcool. Ele não parava de resmungar que o tênis era novo, mas ele jogaria fora assim que chegasse em casa, em Campinas. O álcool era pra manter o calçado limpo até ele chegar na goma. Eu rachava o bico.
Mas fiquei assustado quando, horas depóis, vi a foto que ele tirou de mim no matagal. Ela mostrava a fileira de mortos na minha frente e, no meu rosto, um sorriso psicopata assustador. Que indicava que eu estava eufórico perante aqueles três homens destroçados. Fiquei com medo de mim mesmo.

Terça-feira, Maio 04, 2004

Muitas pessoas chegaram perto para ver o corpo. A maioria virou a cara assim que o PM levantou aquele tecido tipo papel alumínio _usado por bombeiros para enrolar vítimas de queimadura. “Meu Deus! Esse não tem boi. É caixão lacrado”, disse um colega.
Realmente o cidadão ficou feio. À 0h30 do último domingo, ele foi esmagado por rodas de um busão. Seria um caso comum em São Paulo, não fosse um detalhe: O motorista do coletivo atropelou o sujeito intencionalmente. Ele usou a bumba como arma para matar.
Motivo? Uma discussão besta.
Por isso é que eu digo que não se deve discutir com ninguém hoje em dia. O brasileiro, desempregado ou escravizado, fodido, cheio de dívidas, pode não ter culhões pra começar uma revolução e exterminar ricos e políticos. Mas se entrar numa briguinha idiota, é grande a possibilidade de que esta acabe em morte.
Segundo o cobrador, que tremia absurdamente enquanto falava comigo e os colegas, a treta tinha começado antes de o ônibus sair do terminal Bandeira, no meu querido centrão de SP. A vítima, um pintor, pai de três filhos, que estava acompanhado do irmão poucos anos mais novo, teria começado a berrar com o motorista, pois este estava demorando muito a botar o buso pra funcionar. As provocações, que não partiam só do pintor, continuariam durante os próximos 20 minutos de viagem.
Já na avenida Santo Amaro, na entrada da zona sul, quando o condutor deixou de parar em dois pontos, apesar de uma passageira ter puxado a cordinha, os gritos do pintor se intensificaram e, ainda de acordo com o cobrador, viraram ameaças.
“Quando a gente chegar no (terminal) Capelinha, vou te pegar”, teria dito a vítima, tomando as dores da moça que perdeu os pontos. “Por que não pega aqui mesmo?” foi a resposta do motora, como contou seu colega. Nisso, o passageiro furioso desceu do ônibus. Caminhava em direção à janela do condutor quando passou em frente ao veículo. Nesse momento, o acelerador foi acionado.
Concluímos que o corpo foi arrastado por cinco metros, pois esse era o tamanho do rastro de miolos brancos que ficou sobre a faixa exclusiva para ônibus. “Isso é cérebro?” perguntou a mim um curioso. Balancei a cabeça afirmativamente e a platéia da desgraça fez cara de nojo.
O esmagado estava todo torto, esparramado no asfalto. Seu rosto se parecia com a máscara usada pelo assassino do filme Pânico. A boca estava aberta pra caralho e a cara, esticada. Não dava para ver os olhos. Provavelmente saltaram para fora. Ao lado da cabeça, pedaços de crânio eram redondos, idênticos ao interior de um coco verde. Um dos curiosos estava com um poodle branco, tosado, preso à coleira. O cachorro tremia como um epiléptico. Eu e os brothers até inicamos uma enquete a respeito. Ele tremia por causa do frio, ou da desgraça? Pois não tava tão frio.
O pior de tudo é que a maioria dos 70 passageiros do busão não percebeu o assassinato e ele seguiu viagem. Depois de passar batido por mais dois pontos, o motora parou no terceiro e abandonou o volante. Saiu correndo, tomando rumo ignorado. Só então o irmão da vítima, que estava começando a estranhar a demora desta _ele pensava que o pintor estivesse ao lado do motorista conversando, pois o grande número de passageiros, que voltavam da festa da CUT, impedia que ele visse a parte da frente_, soube por uma passageira que seu mano mais velho tinha sido morto.
Hoje o motorista se entregou. Vai responder o inquérito em liberdade, pois 48 horas, tempo em que a pessoa pode ser presa em flagrante, já haviam se passado. Vi ele na TV, saindo da delegacia com o rosto escondido sob um casaco jeans. Gostaria de trocar uma idéia com ele. Também já senti vontade de passar com o carro por cima de certas pessoas. Queria saber qual é a sensação.

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