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Testemunho de situações desgraçadas
Quarta-feira, Abril 28, 2004
Numa noite dessas, eu e um colega relembramos diversas desgraças em que estivemos juntos, enquanto tomávamos cerveja no boteco. O cara tinha me acompanhado em uma porrada de idas à periferia, numa época em que ocorriam chacinas em São Paulo e nas demais cidades da região metropolitana quase que diariamente. Se não me falha a memória, a maioria dos casos que acompanhamos aconteceu em 2001, ano em que os homicídios múltiplos bateram recorde no Estado.
Das histórias que trouxemos à tona, entre um e outro copo de breja, uma estava entre as matanças daquele ano desgraçado. E, dia mais, dia menos, seria publicada aqui.
A conversa com o brother me empolgou a escrevê-la logo, principalmente porque ele relembrou detalhes que já haviam sumido da minha memória.
Aconteceu em Barueri. Três mortos em um boteco. Era 10h de uma manhã cinza de sábado quando chegamos ao palco da matança.
As vítimas: Careca, o balconista do boteco, sua namorada, uma senhora de 60 anos, e um músico que às sextas animava o ambiente cantando e tocando violão. Os três corpos estavam estirados no chão, lavado de sangue. Uma multidão de dezenas de moradores do bairro dominava a frente do lugar, para assistir ao nojento “show” dos peritos, que iam despir os presuntos e contar os buracos de bala.
Os agentes estavam prestes a começar seu trabalho quando colamos no pico. Em seguida, chegou o motorista do IML. Sem cerimônia e já trajando suas luvas cirúrgicas brancas, de látex, ele foi até a prateleira, pegou uma garrafa de Dreher, pôs uma dose nervosa num copo e mandou tudo pra dentro em uma só talagada, enquanto os colegas da perícia, com tesouras, já cortavam as roupas dos defuntos.
Nisso, o choro de parentes da namorada do careca me chamou a atenção e fui falar com eles. Os filhos e noras da mulher não quiseram muita conversa. Estavam extremamente revoltados. Comentários que faziam entre eles davam a entender que odiavam o fato de a tiazinha ter se juntado ao balconista de boteco. A mim, eles não quiseram dizer nada a respeito daquele relacionamento. Um dos filhos então resmungou, para si mesmo, a palavra “sapatão”, em meio a murmúrios de revolta. Os outros mandaram ele calar a boca.
Fiquei sem entender o significado daquilo e desencanei. Uma prima do Careca me forneceu o nome completo dele e falou que os filhos da mulher eram contra o namoro e que não falavam mais com a mãe por causa disso, sem dar, no entanto, muitos detalhes.
Resolvi falar com o sargento da PM que preservava o local e mantinha o público alguns metros afastado da porta do botecão. Ele estava com os documentos das vítimas. Pedi para que confirmasse os nomes dos mortos para mim. Comecei a ler em voz alta os que haviam me informado e, quando falei o nome que a prima do Careca me passou, ele disse. “Não, não. Ele não é ele. Ele é ela. O nome é...” e mandou um nome feminino.
“Como? O Careca é mulher?”, perguntei, espantado.
“Vem ver”, respondeu o PM.
Cheguei mais perto do corpo, com cuidado para não pisar no sangue. O Careca tinha cabelos raspados, ralos, e grisalhos. Suas feições pareciam com as de um oriental. Nem fodendo lembravam o rosto de uma mulher. Olhando o corpo sem roupas, porém, vimos os pequenos seios e a vagina. Ao lado, uma cueca e um modess sujo. “Ixi... O Careca ainda tava menstruado, ah ah ah ah...”, divertiam-se os peritos.
Só então entendi por que o filho da outra vítima havia mencionado a palavra sapatão. Quando a verdade sobre o relacionamento de sua mãe com uma mulher veio a público, um monte de piadinhas começaram a brotar entre o zé povinho que assistia à perícia. "Ele falava grosso e era bravo. Pra mim era homem. Nunca imaginei que fosse mulher", dizia o dono do bar, atônito. Mais revoltados ainda, os filhos da namorada do Careca não falaram mais nada.
Voltei a falar com a prima dele. Esta me contou: “Ele sempre foi assim. Desde pequeno. É mulher, mas não é”, disse a moça.
No fim, o funcionário bebum do IML _ que havia tomado o Dreher _ sacou do rabecão, que em Barueri é uma Kombi podre, as únicas duas bandejas de cadáveres que trazia. Numa, colocou o pobre cantor do bar. Noutra, o casal homossexual.
Careca e sua namorada entraram na perua expremidos dentro da mesma bandeja branca, com manchas de sangue já antigas. Estavam nus, um de frente pro outro, com os rostos e corpos colados. “Que romântico”, pensei.
Das histórias que trouxemos à tona, entre um e outro copo de breja, uma estava entre as matanças daquele ano desgraçado. E, dia mais, dia menos, seria publicada aqui.
A conversa com o brother me empolgou a escrevê-la logo, principalmente porque ele relembrou detalhes que já haviam sumido da minha memória.
Aconteceu em Barueri. Três mortos em um boteco. Era 10h de uma manhã cinza de sábado quando chegamos ao palco da matança.
As vítimas: Careca, o balconista do boteco, sua namorada, uma senhora de 60 anos, e um músico que às sextas animava o ambiente cantando e tocando violão. Os três corpos estavam estirados no chão, lavado de sangue. Uma multidão de dezenas de moradores do bairro dominava a frente do lugar, para assistir ao nojento “show” dos peritos, que iam despir os presuntos e contar os buracos de bala.
Os agentes estavam prestes a começar seu trabalho quando colamos no pico. Em seguida, chegou o motorista do IML. Sem cerimônia e já trajando suas luvas cirúrgicas brancas, de látex, ele foi até a prateleira, pegou uma garrafa de Dreher, pôs uma dose nervosa num copo e mandou tudo pra dentro em uma só talagada, enquanto os colegas da perícia, com tesouras, já cortavam as roupas dos defuntos.
Nisso, o choro de parentes da namorada do careca me chamou a atenção e fui falar com eles. Os filhos e noras da mulher não quiseram muita conversa. Estavam extremamente revoltados. Comentários que faziam entre eles davam a entender que odiavam o fato de a tiazinha ter se juntado ao balconista de boteco. A mim, eles não quiseram dizer nada a respeito daquele relacionamento. Um dos filhos então resmungou, para si mesmo, a palavra “sapatão”, em meio a murmúrios de revolta. Os outros mandaram ele calar a boca.
Fiquei sem entender o significado daquilo e desencanei. Uma prima do Careca me forneceu o nome completo dele e falou que os filhos da mulher eram contra o namoro e que não falavam mais com a mãe por causa disso, sem dar, no entanto, muitos detalhes.
Resolvi falar com o sargento da PM que preservava o local e mantinha o público alguns metros afastado da porta do botecão. Ele estava com os documentos das vítimas. Pedi para que confirmasse os nomes dos mortos para mim. Comecei a ler em voz alta os que haviam me informado e, quando falei o nome que a prima do Careca me passou, ele disse. “Não, não. Ele não é ele. Ele é ela. O nome é...” e mandou um nome feminino.
“Como? O Careca é mulher?”, perguntei, espantado.
“Vem ver”, respondeu o PM.
Cheguei mais perto do corpo, com cuidado para não pisar no sangue. O Careca tinha cabelos raspados, ralos, e grisalhos. Suas feições pareciam com as de um oriental. Nem fodendo lembravam o rosto de uma mulher. Olhando o corpo sem roupas, porém, vimos os pequenos seios e a vagina. Ao lado, uma cueca e um modess sujo. “Ixi... O Careca ainda tava menstruado, ah ah ah ah...”, divertiam-se os peritos.
Só então entendi por que o filho da outra vítima havia mencionado a palavra sapatão. Quando a verdade sobre o relacionamento de sua mãe com uma mulher veio a público, um monte de piadinhas começaram a brotar entre o zé povinho que assistia à perícia. "Ele falava grosso e era bravo. Pra mim era homem. Nunca imaginei que fosse mulher", dizia o dono do bar, atônito. Mais revoltados ainda, os filhos da namorada do Careca não falaram mais nada.
Voltei a falar com a prima dele. Esta me contou: “Ele sempre foi assim. Desde pequeno. É mulher, mas não é”, disse a moça.
No fim, o funcionário bebum do IML _ que havia tomado o Dreher _ sacou do rabecão, que em Barueri é uma Kombi podre, as únicas duas bandejas de cadáveres que trazia. Numa, colocou o pobre cantor do bar. Noutra, o casal homossexual.
Careca e sua namorada entraram na perua expremidos dentro da mesma bandeja branca, com manchas de sangue já antigas. Estavam nus, um de frente pro outro, com os rostos e corpos colados. “Que romântico”, pensei.
Segunda-feira, Abril 26, 2004
É com imensa satisfação que anuncio a estréia do primeiro colaborador do Desgraceira. O texto abaixo é de autoria do meu camarada Giba, grande companheiro de desgraças. Espero que, como eu, vocês gostem.
Aproveito a oportunidade para dizer que qualquer um que tenha visto alguma situação desgraçada de perto e quiser descrevê-la aqui é benvindo. Boa leitura
Olheiro da Desgraça
"Por favor, os senhores podem me ajudar? Preciso ser
resgatado". A frase vinha de um rapaz de uns 33 anos, que
falava picotado, com dificuldade. Era o segundo nóia que
aparecia em frente ao DHPP, departamento de homicídios da polícia paulistana, naquela madrugada fria. Eu e alguns colegas estávamos à espera de um estudante que matara o pai e a
madrasta, e não devia estar muito a fim de se entregar.
Ignoramos o pobre coitado, que já havia cheirado várias e,
provavelmente, nos confundiu com policiais. Seria só mais um
nóia, não fosse a seqüência _comum, embora interessante_ da
história.
O rapaz deu sorte. Um atencioso policial de plantão na
portaria lhe cedeu uma cadeira, com a condição de que ficasse
quieto.
O plantonista veio de dentro da sede do departamento e se
dirigiu aos repórteres: "Alguém tem um cigarro para o nóia
ali?" Um minuto depois, o rapaz acendia o Marlboro cedido.
Mas, além de um cigarro, ele queria atenção. Abriu uma
janelinha da portaria e puxou papo conosco. "Cara, m... m... me ouve.
Eu usei pó. T... t... t... tinha parado. Nn... n... não s... sei o que me deu, e caí
na tentação. Pó é foda", lamentava o rapaz, chorando. Um
choro triste, verdadeiro.
Mais alguns minutos de conversa e ele contou sua história. Não dei muita bola. "Sou operador da bolsa. Mexo com
dólar. Não tem como não se drogar. Após os pregões, a gente
toma uma cerveja e depois...", explicou, imitando o ato de
separar as carreirinhas. "A pressão é muito grande, tem que
mostrar resultado, senão....", completou, fazendo um sinal,
como se estivesse cortando o próprio pescoço.
O operador disse o nome e explicou
que estava afastado do trabalho, de licença médica. "Vou até
ao psiquiatra. Chique para um drogado, não é?".
O cara chorou de novo. Disse que alguém viria lhe buscar. "Por
favor, na hora que minha mãe chegar, fique junto", implorou
ele, gesticulando muito, com um olhar aterrorizante,
depressivo.
Já eram 5h. O sol refletia suavemente nos prédios da rua
Brigadeiro Tobias quando uma senhora, de uns 70 anos, com
roupa e cabelos impecáveis, se aproximou da portaria do DHPP.
De longe, franziu a testa, como se tentasse enxergar melhor,
e avistou o "seu menino". E o nóia, novamente chorando, me
pediu: "Fique junto na hora que eu for conversar com ela,
fique". "Vamos lá", me disse um colega, visivelmente
sensibilizado. Entramos no saguão daquele prédio da polícia e
presenciamos o reencontro. "Desculpe, mãe. Mas, eu adoro pó",
disse o rapaz, abraçando aquela senhora forte e segura.
Triste, mas sem chorar, ela lhe aplicou um sermão, de forma
delicada: "Filho, você não pode beber que acaba no pior", já
explicando ao policial que o rapaz trabalhava na Bolsa de
Valores há 18 anos e fazia seis meses que ele não se
drogava. "Está em tratamento psiquiátrico", lamentou, como se
pedisse desculpas. "Filho, vamos pra casa", pediu a senhora.
O rapaz abraçou o policial atencioso que o ajudou, em seguida
fez o mesmo comigo e com o colega ao lado. Antes de ir, a
última frase daquela senhora incrivelmente forte e ao mesmo
tempo doce: "Onde eu pego um táxi?". Apontamos a esquina e a
idosa _de cerca de 1,70 metros_ agradeceu e seguiu,
conduzindo pela mão aquele marmanjo de 1, 90, como deve ter
feito muitas vezes quando ainda criava um menino. Dessa vez,
o resgate veio a tempo.
Giba
Aproveito a oportunidade para dizer que qualquer um que tenha visto alguma situação desgraçada de perto e quiser descrevê-la aqui é benvindo. Boa leitura
Olheiro da Desgraça
"Por favor, os senhores podem me ajudar? Preciso ser
resgatado". A frase vinha de um rapaz de uns 33 anos, que
falava picotado, com dificuldade. Era o segundo nóia que
aparecia em frente ao DHPP, departamento de homicídios da polícia paulistana, naquela madrugada fria. Eu e alguns colegas estávamos à espera de um estudante que matara o pai e a
madrasta, e não devia estar muito a fim de se entregar.
Ignoramos o pobre coitado, que já havia cheirado várias e,
provavelmente, nos confundiu com policiais. Seria só mais um
nóia, não fosse a seqüência _comum, embora interessante_ da
história.
O rapaz deu sorte. Um atencioso policial de plantão na
portaria lhe cedeu uma cadeira, com a condição de que ficasse
quieto.
O plantonista veio de dentro da sede do departamento e se
dirigiu aos repórteres: "Alguém tem um cigarro para o nóia
ali?" Um minuto depois, o rapaz acendia o Marlboro cedido.
Mas, além de um cigarro, ele queria atenção. Abriu uma
janelinha da portaria e puxou papo conosco. "Cara, m... m... me ouve.
Eu usei pó. T... t... t... tinha parado. Nn... n... não s... sei o que me deu, e caí
na tentação. Pó é foda", lamentava o rapaz, chorando. Um
choro triste, verdadeiro.
Mais alguns minutos de conversa e ele contou sua história. Não dei muita bola. "Sou operador da bolsa. Mexo com
dólar. Não tem como não se drogar. Após os pregões, a gente
toma uma cerveja e depois...", explicou, imitando o ato de
separar as carreirinhas. "A pressão é muito grande, tem que
mostrar resultado, senão....", completou, fazendo um sinal,
como se estivesse cortando o próprio pescoço.
O operador disse o nome e explicou
que estava afastado do trabalho, de licença médica. "Vou até
ao psiquiatra. Chique para um drogado, não é?".
O cara chorou de novo. Disse que alguém viria lhe buscar. "Por
favor, na hora que minha mãe chegar, fique junto", implorou
ele, gesticulando muito, com um olhar aterrorizante,
depressivo.
Já eram 5h. O sol refletia suavemente nos prédios da rua
Brigadeiro Tobias quando uma senhora, de uns 70 anos, com
roupa e cabelos impecáveis, se aproximou da portaria do DHPP.
De longe, franziu a testa, como se tentasse enxergar melhor,
e avistou o "seu menino". E o nóia, novamente chorando, me
pediu: "Fique junto na hora que eu for conversar com ela,
fique". "Vamos lá", me disse um colega, visivelmente
sensibilizado. Entramos no saguão daquele prédio da polícia e
presenciamos o reencontro. "Desculpe, mãe. Mas, eu adoro pó",
disse o rapaz, abraçando aquela senhora forte e segura.
Triste, mas sem chorar, ela lhe aplicou um sermão, de forma
delicada: "Filho, você não pode beber que acaba no pior", já
explicando ao policial que o rapaz trabalhava na Bolsa de
Valores há 18 anos e fazia seis meses que ele não se
drogava. "Está em tratamento psiquiátrico", lamentou, como se
pedisse desculpas. "Filho, vamos pra casa", pediu a senhora.
O rapaz abraçou o policial atencioso que o ajudou, em seguida
fez o mesmo comigo e com o colega ao lado. Antes de ir, a
última frase daquela senhora incrivelmente forte e ao mesmo
tempo doce: "Onde eu pego um táxi?". Apontamos a esquina e a
idosa _de cerca de 1,70 metros_ agradeceu e seguiu,
conduzindo pela mão aquele marmanjo de 1, 90, como deve ter
feito muitas vezes quando ainda criava um menino. Dessa vez,
o resgate veio a tempo.
Giba
Quarta-feira, Abril 14, 2004
O garoto devia ter, no máximo, uns 15 anos. A menina, 12 ou 13. Ela era loirinha. Ele, moreno. Os trapos que trajavam e o cascão nos pés e nas mãos indicavam que eram moradores de rua. Estavam sem documentos. E mortos, com tiros na parte de trás da cabeça e na nuca.
A garoa fria caía sobre os corpos em uma rua do Pari, zona norte de SP, completamente deserta. De um lado dela havia o muro de uma ferrovia, do outro, galpões abandonados. Nenhum parente chorava por aqueles dois, nenhum curioso estava lá para ficar parado, olhando os cadáveres, como acontece na maioria dos locais de homicídio. Era 4h da manhã quando cheguei lá e a única companhia do jovem casal morto eram dois PMs, com a ingrata tarefa de esperar a perícia do departamento de homicídios e o carro de cadáveres do IML.
Cheguei mais perto para ver as perfurações de bala no pescocinho da menina, que estava caída de bruços _como também estava o garoto. Vi então que ao lado dela havia um gibi da turma da Mônica, parcialmente sujo de sangue.
Às 5h e pouco a perícia ainda não havia chegado. O colega que me acompanhava perguntou "e aí? Vamo?". Concordei com ele. Não havia mais nada para fazermos naquele lugar. Entramos no carro e vazamos. Enquanto rodava para longe daquela cena desgraçada imaginava outra cena, mais desgraçada ainda. Do casalzinho sem nome congelado em gavetas do IML. Talvez eles seriam mandados como material para aulas de anatomia. Talvez seriam enterrados como indigentes com apenas dois ou três coveiros como público do funeral. Tudo que deixariam no mundo seria um gibizinho infantil, com páginas sujas de sangue, em uma rua deserta do Pari.
A garoa fria caía sobre os corpos em uma rua do Pari, zona norte de SP, completamente deserta. De um lado dela havia o muro de uma ferrovia, do outro, galpões abandonados. Nenhum parente chorava por aqueles dois, nenhum curioso estava lá para ficar parado, olhando os cadáveres, como acontece na maioria dos locais de homicídio. Era 4h da manhã quando cheguei lá e a única companhia do jovem casal morto eram dois PMs, com a ingrata tarefa de esperar a perícia do departamento de homicídios e o carro de cadáveres do IML.
Cheguei mais perto para ver as perfurações de bala no pescocinho da menina, que estava caída de bruços _como também estava o garoto. Vi então que ao lado dela havia um gibi da turma da Mônica, parcialmente sujo de sangue.
Às 5h e pouco a perícia ainda não havia chegado. O colega que me acompanhava perguntou "e aí? Vamo?". Concordei com ele. Não havia mais nada para fazermos naquele lugar. Entramos no carro e vazamos. Enquanto rodava para longe daquela cena desgraçada imaginava outra cena, mais desgraçada ainda. Do casalzinho sem nome congelado em gavetas do IML. Talvez eles seriam mandados como material para aulas de anatomia. Talvez seriam enterrados como indigentes com apenas dois ou três coveiros como público do funeral. Tudo que deixariam no mundo seria um gibizinho infantil, com páginas sujas de sangue, em uma rua deserta do Pari.
Terça-feira, Abril 13, 2004
"Olhaí" me disse o camarada na saída da favela Paraguai, zona sul de SP. Tínhamos ido lá para acompanhar uma operação pente fino da Polícia Militar. Olhei na direção que o colega apontava e vi um filhotinho de vira-latas caído em cima de um monte de lixo. Era cinza claro, só osso e pele e estava coberto de moscas. Os insetos entravam em sua boca aberta. Eu já ia desviar o olhar do cãozinho morto quando notei que sua barriga mexia. Ele estava respirando. Observei sua agonia por mais alguns segundos e fui embora sem fazer nada. Isso aconteceu há uns três anos. A imagem permanece nítida na minha mente.
Sábado, Abril 10, 2004
Faltava cerca de meia hora para eu chegar em Trancoso quando o microônibus, que me trazia de Porto Seguro, parou em frente a um boteco. Já era noite.
A parada me deixou impaciente. Teríamos que esperar um ônibus que trazia outros passageiros. Eles se juntaríam a nós para, então, seguirmos viagem.
Eu já não via a hora de chegar. Estava com fome, louco por um PF. Por isso não desci. Fiquei dentro do microônibus lendo Numa Fria, do Bukowski, enquanto todos aguardavam do lado de fora, tomando cafezinho e cerveja.
De repente, percebo uma certa correria. Pela janela vejo uns três caras trazendo uma tiazinha carregada. Debatendo-se, a mulher, que quase fora atropelada por uma moto, foi colocada em um banco do boteco.
Caiçara, de vestido comprido, aparentando mais de cinquenta anos, ela estava completamente bêbada. Mal conseguia se manter sentada. Parecia que ia tombar a qualquer momento.
Uma mina que estava na birosca levou um copo com água para a tia, que recusou. A garota então começou a conversar com ela, para convencê-la a voltar para casa, dizendo que arrumaria um carro ou uma moto para levá-la. A tiazinha respondia coisas sem nexo, meio que gritando. E mostrando seus poucos dentes apodrecidos. Cambaleava feito um joão bobo.
Desci do ônibus para ver aquela desgraça mais de perto. Tentava entender o que a mulher queria dizer com seus resmungos de pinguça, quando duas adolescentes e um rapaz que não devia ter mais de 17 anos chegaram. Eram os filhos dela.
O garoto cravava na mãe um olhar cheio de ódio. Com muita brutalidade, ele a agarrou e pegou no colo, sob protestos da moça, que muito pacientemente, estava quase convencendo a breaca a voltar para casa. As filhas da mulher deixaram que o irmão fizesse todo o serviço. Ao ser erguida pelo rapaz, a tiazinha começou a espernear e a se debater como se estivesse com o capeta no corpo. A alguns metros do boteco, ela se soltou dos braços do filho e caiu de cara no chão de terra.
A minazinha que tentara dar água para a mulher ficou chocada com a violência da cena e começou a falar um monte, mas ninguém se juntou a ela. Todos ficaram em silêncio, bebendo, vendo o moleque arrastar a bêbada pelo chão, puxando-a pelos braços. Acabei pedindo um cafezinho, que estava meio frio. Era de graça.
A parada me deixou impaciente. Teríamos que esperar um ônibus que trazia outros passageiros. Eles se juntaríam a nós para, então, seguirmos viagem.
Eu já não via a hora de chegar. Estava com fome, louco por um PF. Por isso não desci. Fiquei dentro do microônibus lendo Numa Fria, do Bukowski, enquanto todos aguardavam do lado de fora, tomando cafezinho e cerveja.
De repente, percebo uma certa correria. Pela janela vejo uns três caras trazendo uma tiazinha carregada. Debatendo-se, a mulher, que quase fora atropelada por uma moto, foi colocada em um banco do boteco.
Caiçara, de vestido comprido, aparentando mais de cinquenta anos, ela estava completamente bêbada. Mal conseguia se manter sentada. Parecia que ia tombar a qualquer momento.
Uma mina que estava na birosca levou um copo com água para a tia, que recusou. A garota então começou a conversar com ela, para convencê-la a voltar para casa, dizendo que arrumaria um carro ou uma moto para levá-la. A tiazinha respondia coisas sem nexo, meio que gritando. E mostrando seus poucos dentes apodrecidos. Cambaleava feito um joão bobo.
Desci do ônibus para ver aquela desgraça mais de perto. Tentava entender o que a mulher queria dizer com seus resmungos de pinguça, quando duas adolescentes e um rapaz que não devia ter mais de 17 anos chegaram. Eram os filhos dela.
O garoto cravava na mãe um olhar cheio de ódio. Com muita brutalidade, ele a agarrou e pegou no colo, sob protestos da moça, que muito pacientemente, estava quase convencendo a breaca a voltar para casa. As filhas da mulher deixaram que o irmão fizesse todo o serviço. Ao ser erguida pelo rapaz, a tiazinha começou a espernear e a se debater como se estivesse com o capeta no corpo. A alguns metros do boteco, ela se soltou dos braços do filho e caiu de cara no chão de terra.
A minazinha que tentara dar água para a mulher ficou chocada com a violência da cena e começou a falar um monte, mas ninguém se juntou a ela. Todos ficaram em silêncio, bebendo, vendo o moleque arrastar a bêbada pelo chão, puxando-a pelos braços. Acabei pedindo um cafezinho, que estava meio frio. Era de graça.