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Testemunho de situações desgraçadas
Quinta-feira, Março 11, 2004
Na manhã da última segunda, meu primeiro dia de férias, senti um cheiro familiar já descrito aqui. O de carne humana queimada. Mas não foi em um local de homicídio ou incêndio. Foi em uma cadeira de dentista. E a carne que queimava era a da minha gengiva.
Um pano verde cobria todo meu rosto, menos a boca. Por isso não vi que tipo de aparelho o dentista usou para que aquele odor nauseante se espalhasse pelo ar e trouxesse de volta à minha mente as imagens de corpos carbonizados. Mas acho que era uma broca. Pelo menos, imaginei que o barulho que fazia fosse desse tipo de instrumento.
Com muito esforço, carne queimada, cortes de bisturi e marteladas na minha arcada dentária, o doutor e sua assistente conseguiram finalmente extrair meu siso. O dente estava deitado, sob camadas e camadas de gengiva. Por isso a cirurgia foi tão complicada.
Não senti dor nenhuma devido às anestesias. E também não senti nenhum tipo de nervosismo. Nem mesmo quando o médico avisou que teria de dar algumas marteladas na minha boca. Pois as mãos macias de sua assistente estavam ali. Aquela linda moça de cabelos lisos curtos, pintados de vermelho, e expressão séria segurava meu rosto. Pressionava minha cabeça contra seu peito para imobilizá-la, enquanto eu absorvia os golpes de martelo.
Na despedida, ela sorriu para mim. Com um saco de gelo encostado na cara, saí dali também sorrindo.
Um pano verde cobria todo meu rosto, menos a boca. Por isso não vi que tipo de aparelho o dentista usou para que aquele odor nauseante se espalhasse pelo ar e trouxesse de volta à minha mente as imagens de corpos carbonizados. Mas acho que era uma broca. Pelo menos, imaginei que o barulho que fazia fosse desse tipo de instrumento.
Com muito esforço, carne queimada, cortes de bisturi e marteladas na minha arcada dentária, o doutor e sua assistente conseguiram finalmente extrair meu siso. O dente estava deitado, sob camadas e camadas de gengiva. Por isso a cirurgia foi tão complicada.
Não senti dor nenhuma devido às anestesias. E também não senti nenhum tipo de nervosismo. Nem mesmo quando o médico avisou que teria de dar algumas marteladas na minha boca. Pois as mãos macias de sua assistente estavam ali. Aquela linda moça de cabelos lisos curtos, pintados de vermelho, e expressão séria segurava meu rosto. Pressionava minha cabeça contra seu peito para imobilizá-la, enquanto eu absorvia os golpes de martelo.
Na despedida, ela sorriu para mim. Com um saco de gelo encostado na cara, saí dali também sorrindo.
Quarta-feira, Março 10, 2004
Uma criança assassinada durante assalto a um fliperama de Francisco Morato. Essa foi a primeira informação que chegou até mim naquela noite. Eu e um colega então corremos ao município, um dos mais pobres da região metropolitana de SP.
O "fliperama" ficava em um bairro de ruas de terra. Chegamos lá por volta das 21h e a região estava completamente deserta e escura. Sabíamos que nesse tipo de situação, todo cuidado é pouco. O melhor a fazer é ficar atento e orientar o motorista a bater em retirada se houver qualquer movimentação estranha.
No endereço indicado, encontramos uma porta de ferro abaixada, com três homens conversando na frente. Um de nós teria que se arriscar a descer e falar com eles. Eu iria de qualquer jeito, pois meu trabalho é esse: Obter informações. Se ficasse com medo de falar com aqueles três, minha ida até Morato seria inútil. Meu camarada foi corajoso e desceu comigo. A meu ver, não havia necessidade. Mas o cara é ponta firme e não me abandonaria morto naquela quebrada. Morreria junto, se preciso.
Nosso receio e cautela, porém, revelaram-se sem motivo. Um dos homens era o proprietário do estabelecimento. Atendeu-nos com muita educação e deixou que entrássemos para ver a cena do crime. O local não era um fliperama. Era uma locadora de fitas de video game, onde também havia TVs equipadas com os aparelhos. A molecada pagava para ficar jogando durante certo tempo.
O corpo da vítima não estava lá. O garoto, que tinha 12 anos, havia sido socorrido e morrera no PS da região. Segundo narrou o dono da locadora, havia uns seis moleques se divertindo com os jogos eletrônicos quando os ladrões chegaram. Se me lembro bem, eram dois.
"Eles mandaram todo mundo deitar no chão e pegaram todo dinheiro que tínhamos. Levaram também uns joysticks. Já estavam indo embora quando um voltou e atirou nas costas do moleque, sem mais nem menos", disse o cara. A poça de sangue do menino morto ainda estava no chão da locadora.
Pensei: "É muito difícil morrer de graça. No mínimo, o moleque tinha treta com um dos caras. Devia estar envolvido com alguma merda".
Li uma cópia do boletim de ocorrência fornecida pelo dono do estabelecimento. Além da identidade da vítima fatal, lá constava seu endereço. Apesar de suspeitar que o garoto tivesse envolvimento com crimes, era meu dever ir até a casa dele e falar com sua família.
Voltamos para o carro e, com ele, penetramos mais ainda no breu de Francisco Morato, à procura da residência do menino. Paramos em frente a uma casa de alvenaria que, pelas indicações que obtivemos do proprietário da locadora e seus amigos, devia ser onde morava o garoto.
Novamente, eu e meu amigo descemos do carro, que permaneceu com o motor ligado. Deixamos a porta da frente e traseira abertas. Qualquer coisa, mergulharíamos dentro do veículo para vazar dali o mais rápido possível.
Batemos palmas e de dentro da casa saiu um homem branco, cerca de 30 e poucos anos, trajando calças jeans, sem camisa. Parecia estar meio breaco. "O que é?", perguntou ele. Identificamo-nos e dissemos qual era nosso motivo de estar ali. O cara teve uma reação estranha.
"Que é? Que é? Menino morto, iiiiiihhhh...", disse o bêbado, quase que rosnando. Não sei por que, o cara ficou nervoso com a gente. Por mais que eu tentasse argumentar, ele rosnava "iiiiihhhhh".
"Vambora, bicho. Vambora...", disse meu amigo, com medo que o cara sacasse um cano e mandasse chumbo na gente. Mas logo, uma senhora também saiu da casa. Pediu desculpas pelo jeito que o cara estava falando e esclareceu que estávamos na rua errada.
Foi com o mesmo receio das outras abordagens que, finalmente, chegamos à casa do menino. Ao contrário do que eu pensava, fomos muito bem recebidos pela família, que me ofereceu até café e sugeriu que eu sentasse em uma mesa, ao lado do pai. Havia dezenas de parentes e amigos da vítima, inclusive um garotinho que estava com o moleque na locadora. "Depois do tiro, eu olhei para ele. Ele passou a mão nas costas e depois na cara. Ficou com a cara toda suja de sangue", disse o menino.
Minha suspeita de que a vítima também estivesse envolvida com crimes caiu totalmente por terra. Em um relato emocionado que, confesso, me deu até vontade de chorar, o pai, um senhor evangélico, pardo, de cabelos e bigode grisalhos, que trabalhava como pedreiro, contou como o seu filho o ajudava todo dia na obra depois de sair da escola. "Era um menino muito bom. Ajudava bastante. Nunca reclamava. Ia bem na escola. Ele nunca ia no video game porque eu não gostava. Mas juntou uns trocados e foi hoje sem me avisar...".
Naquela noite, eu me senti um idiota. Primeiro por suspeitar dos caras da locadora, segundo por ter medo de um bêbado inofensivo e terceiro por ter imaginado que aquela pobre criança estava envolvida em crimes. Mas fazer o quê? Num lugar daqueles, dominado pela violência, onde crianças são mortas sem motivo algum, nunca se sabe o que pode acontecer.
O "fliperama" ficava em um bairro de ruas de terra. Chegamos lá por volta das 21h e a região estava completamente deserta e escura. Sabíamos que nesse tipo de situação, todo cuidado é pouco. O melhor a fazer é ficar atento e orientar o motorista a bater em retirada se houver qualquer movimentação estranha.
No endereço indicado, encontramos uma porta de ferro abaixada, com três homens conversando na frente. Um de nós teria que se arriscar a descer e falar com eles. Eu iria de qualquer jeito, pois meu trabalho é esse: Obter informações. Se ficasse com medo de falar com aqueles três, minha ida até Morato seria inútil. Meu camarada foi corajoso e desceu comigo. A meu ver, não havia necessidade. Mas o cara é ponta firme e não me abandonaria morto naquela quebrada. Morreria junto, se preciso.
Nosso receio e cautela, porém, revelaram-se sem motivo. Um dos homens era o proprietário do estabelecimento. Atendeu-nos com muita educação e deixou que entrássemos para ver a cena do crime. O local não era um fliperama. Era uma locadora de fitas de video game, onde também havia TVs equipadas com os aparelhos. A molecada pagava para ficar jogando durante certo tempo.
O corpo da vítima não estava lá. O garoto, que tinha 12 anos, havia sido socorrido e morrera no PS da região. Segundo narrou o dono da locadora, havia uns seis moleques se divertindo com os jogos eletrônicos quando os ladrões chegaram. Se me lembro bem, eram dois.
"Eles mandaram todo mundo deitar no chão e pegaram todo dinheiro que tínhamos. Levaram também uns joysticks. Já estavam indo embora quando um voltou e atirou nas costas do moleque, sem mais nem menos", disse o cara. A poça de sangue do menino morto ainda estava no chão da locadora.
Pensei: "É muito difícil morrer de graça. No mínimo, o moleque tinha treta com um dos caras. Devia estar envolvido com alguma merda".
Li uma cópia do boletim de ocorrência fornecida pelo dono do estabelecimento. Além da identidade da vítima fatal, lá constava seu endereço. Apesar de suspeitar que o garoto tivesse envolvimento com crimes, era meu dever ir até a casa dele e falar com sua família.
Voltamos para o carro e, com ele, penetramos mais ainda no breu de Francisco Morato, à procura da residência do menino. Paramos em frente a uma casa de alvenaria que, pelas indicações que obtivemos do proprietário da locadora e seus amigos, devia ser onde morava o garoto.
Novamente, eu e meu amigo descemos do carro, que permaneceu com o motor ligado. Deixamos a porta da frente e traseira abertas. Qualquer coisa, mergulharíamos dentro do veículo para vazar dali o mais rápido possível.
Batemos palmas e de dentro da casa saiu um homem branco, cerca de 30 e poucos anos, trajando calças jeans, sem camisa. Parecia estar meio breaco. "O que é?", perguntou ele. Identificamo-nos e dissemos qual era nosso motivo de estar ali. O cara teve uma reação estranha.
"Que é? Que é? Menino morto, iiiiiihhhh...", disse o bêbado, quase que rosnando. Não sei por que, o cara ficou nervoso com a gente. Por mais que eu tentasse argumentar, ele rosnava "iiiiihhhhh".
"Vambora, bicho. Vambora...", disse meu amigo, com medo que o cara sacasse um cano e mandasse chumbo na gente. Mas logo, uma senhora também saiu da casa. Pediu desculpas pelo jeito que o cara estava falando e esclareceu que estávamos na rua errada.
Foi com o mesmo receio das outras abordagens que, finalmente, chegamos à casa do menino. Ao contrário do que eu pensava, fomos muito bem recebidos pela família, que me ofereceu até café e sugeriu que eu sentasse em uma mesa, ao lado do pai. Havia dezenas de parentes e amigos da vítima, inclusive um garotinho que estava com o moleque na locadora. "Depois do tiro, eu olhei para ele. Ele passou a mão nas costas e depois na cara. Ficou com a cara toda suja de sangue", disse o menino.
Minha suspeita de que a vítima também estivesse envolvida com crimes caiu totalmente por terra. Em um relato emocionado que, confesso, me deu até vontade de chorar, o pai, um senhor evangélico, pardo, de cabelos e bigode grisalhos, que trabalhava como pedreiro, contou como o seu filho o ajudava todo dia na obra depois de sair da escola. "Era um menino muito bom. Ajudava bastante. Nunca reclamava. Ia bem na escola. Ele nunca ia no video game porque eu não gostava. Mas juntou uns trocados e foi hoje sem me avisar...".
Naquela noite, eu me senti um idiota. Primeiro por suspeitar dos caras da locadora, segundo por ter medo de um bêbado inofensivo e terceiro por ter imaginado que aquela pobre criança estava envolvida em crimes. Mas fazer o quê? Num lugar daqueles, dominado pela violência, onde crianças são mortas sem motivo algum, nunca se sabe o que pode acontecer.
Terça-feira, Março 09, 2004
Alguns assassinos carregam algo de muito sinistro no olhar. Acredito que seja pura maldade. Os olhos do cara são opacos, completamente sem brilho. Causam arrepios quando ele os volta para você. Fazem lembrar aquela expressão "sangue nos olhos", que diz respeito a pessoas gente boa. Pois os do assassino parecem não ter sangue, não ter vida. Só morte.
O pior é que não percebi esse tipo de olhar somente em criminosos algemados. Já o notei também em policiais militares. Principalmente da Rota.
Vi morte em olhos de PMs antes mesmo de ficar cara a cara com assassinos confessos. Logo que ingressei no mundo da desgraça, por exemplo, compareci a uma solenidade no comando da Polícia Militar. Vários policiais foram premiados com medalhas pelos serviços prestados à sociedade. Entre eles, alguns da Rota que haviam eliminado suspeitos de crime. Um me chamou atenção justamente por ter essa vista opaca, sinistra.
Naquela época, porém, eu ainda não havia conversado com nenhum matador e não sabia o que aquilo poderia significar. E tomara que esteja errado, pois também não são todos assassinos que possuem olhos assim. Os mais psicopatas, apenas. Para quem matar é algo normal como escovar os dentes.
Encontrei o pior de todos esses olhares no 22º DP, em São Miguel, bairro no extremo da zona leste paulistana. Pertencia a um nordestino baixo, aparentando 30 e poucos anos, de bigodinho estilo motoboy, cabelos encaracolados e expressão calma. Muito calma.
Conversei com ele, que não admitiu a mim ter cometido o assassinato de que era acusado. Não admitiu, não me deu detalhes daquele terrível crime, mas seus olhos ficaram cravados nos meus enquanto falávamos. E não tive dúvida de que ele realmente havia feito aquilo. Além disso, a polícia já havia obtido sua confissão e indicação do local onde escondera o cadáver.
O nordestino fora preso pelo assassinato de uma senhora que havia lhe ajudado quando chegou a São Paulo passando fome, com mulher e filhos para criar. A vítima vivia sozinha. Tinha um barzinho. O cara chegou lá e pediu um pouco de comida. A senhora então lhe deu comida, emprego e residência. Ele e a família passaram a morar nos fundos do boteco. Sua esposa cuidava da limpeza do local, enquando ele ajudava a proprietária no balcão e atendia os clientes quando ela não estava lá. Durante meses foi assim.
Segundo a polícia, no entanto, o acusado resolveu, certo dia, matar a dona para ficar com o bar para ele. A mulher então desapareceu. Familiares que foram lá atrás dela acabaram sendo maltratados pelo cara, que ainda os ameaçou. Ou seja, além de malvado, o cidadão era muito burro, pois os parentes foram direto à polícia.
Detido, o acusado confessou que havia matado a mulher a facadas e ateado fogo ao corpo. Da delegacia, fomos ao local onde o cadáver estava escondido. Um matagal no Parque Ecológico Tietê, ao lado de uma estrada de terra.
Chegamos à noite e o lugar era muito escuro. O ar estava quase irrespirável, devido à putrefação. O bzzzz das moscas deixava a gente nervoso. Uma lanterna iluminou o cadáver. De longe, consegui ver apenas o que assemelhava ser o tronco da vítima. Para se ter uma idéia, parecia aqueles pernis que são fatiados para sanduíche em porta de estádio. A cor era a mesma.
O pior é que não percebi esse tipo de olhar somente em criminosos algemados. Já o notei também em policiais militares. Principalmente da Rota.
Vi morte em olhos de PMs antes mesmo de ficar cara a cara com assassinos confessos. Logo que ingressei no mundo da desgraça, por exemplo, compareci a uma solenidade no comando da Polícia Militar. Vários policiais foram premiados com medalhas pelos serviços prestados à sociedade. Entre eles, alguns da Rota que haviam eliminado suspeitos de crime. Um me chamou atenção justamente por ter essa vista opaca, sinistra.
Naquela época, porém, eu ainda não havia conversado com nenhum matador e não sabia o que aquilo poderia significar. E tomara que esteja errado, pois também não são todos assassinos que possuem olhos assim. Os mais psicopatas, apenas. Para quem matar é algo normal como escovar os dentes.
Encontrei o pior de todos esses olhares no 22º DP, em São Miguel, bairro no extremo da zona leste paulistana. Pertencia a um nordestino baixo, aparentando 30 e poucos anos, de bigodinho estilo motoboy, cabelos encaracolados e expressão calma. Muito calma.
Conversei com ele, que não admitiu a mim ter cometido o assassinato de que era acusado. Não admitiu, não me deu detalhes daquele terrível crime, mas seus olhos ficaram cravados nos meus enquanto falávamos. E não tive dúvida de que ele realmente havia feito aquilo. Além disso, a polícia já havia obtido sua confissão e indicação do local onde escondera o cadáver.
O nordestino fora preso pelo assassinato de uma senhora que havia lhe ajudado quando chegou a São Paulo passando fome, com mulher e filhos para criar. A vítima vivia sozinha. Tinha um barzinho. O cara chegou lá e pediu um pouco de comida. A senhora então lhe deu comida, emprego e residência. Ele e a família passaram a morar nos fundos do boteco. Sua esposa cuidava da limpeza do local, enquando ele ajudava a proprietária no balcão e atendia os clientes quando ela não estava lá. Durante meses foi assim.
Segundo a polícia, no entanto, o acusado resolveu, certo dia, matar a dona para ficar com o bar para ele. A mulher então desapareceu. Familiares que foram lá atrás dela acabaram sendo maltratados pelo cara, que ainda os ameaçou. Ou seja, além de malvado, o cidadão era muito burro, pois os parentes foram direto à polícia.
Detido, o acusado confessou que havia matado a mulher a facadas e ateado fogo ao corpo. Da delegacia, fomos ao local onde o cadáver estava escondido. Um matagal no Parque Ecológico Tietê, ao lado de uma estrada de terra.
Chegamos à noite e o lugar era muito escuro. O ar estava quase irrespirável, devido à putrefação. O bzzzz das moscas deixava a gente nervoso. Uma lanterna iluminou o cadáver. De longe, consegui ver apenas o que assemelhava ser o tronco da vítima. Para se ter uma idéia, parecia aqueles pernis que são fatiados para sanduíche em porta de estádio. A cor era a mesma.
Sábado, Março 06, 2004
Sou amigo de muitos repórteres daqueles telejornais policiais que mostram, de forma violenta e sensacionalista, o cotidiano da cidade.
A maioria desses profissionais é bem diferente do personagem que, trajando terno, empunha o microfone e narra, com voz indignada, os detalhes macabros dos crimes para chocar os telespectadores. Vendo o trabalho deles na TV, quem não os conhece pode até pensar que são todos caras e minas reacionários, moralistas, cujo dever é defender os "bons costumes" da sociedade.
Considero nojenta essa imagem de bons moços de família. E boa parte deles pensa como eu. São pessoas comuns, divertidas e gente boa. Alguns, até, depois do expediente tiram o terno cedido pela produção e caem na balada.
Não são eles que decidem como devem aparecer na tela, como devem falar, que perguntas idiotas devem fazer para o pai que acabou de perder o filho assassinado.
Este personagem escroto é moldado pela linha editorial do programa, que tem como principal objetivo, agradar o zé povinho ignorante, que acha que "bandido tem tudo que morrer" e que "é tudo culpa da droga".
"Mas eu nunca faria uma coisa dessas. Prefiro morrer de fome a trabalhar pra um desses programas que fazem lavagem cerebral na população", pode dizer algum estudante de jornalismo engajado, chato e radical, que se acha melhor do que os outros porque lê Karl Marx. A esse tipo de imbecil, eu digo: Morra de fome então, palhaço! Na minha opinião, quem precisa trabalhar tem que aceitar qualquer coisa que aparecer. Ainda mais em jornalismo, área em que o emprego é extremamente escasso. E repórteres de TV, no geral, trabalham menos, ganham mais dinheiro e têm mais reconhecimento do que os jornalistas de outras mídias. "Antes, os funcionários do meu prédio viam a mim e a meus amigos como um bando de vagabundos bêbados que fazem barulho à noite. Depois que entrei pra TV, todos passaram a me tratar bem", disse um camarada meu, certa vez.
Quem não gosta de ser bem visto? Bem tratado? Admirado por todos? Essa admiração do zé povinho pelo destemido, corajoso e indignado repórter televisivo, porém, pode também fazer mal ao profissional. Mexer com a mente dele...
Comecei esse texto falando sobre os jornalistas de TV gente fina, que, como eu já disse, são a maioria dos que conheço. Como em qualquer lugar, no entanto, há nesses telejornais alguns cabeças fracas. Que, só porque são admirados pela camada mais tosca da população, sentem-se celebridades. Até pior do que isso; acham que têm autoridade para fazer o que querem. Aí começa a desgraça...
Faz uns dois anos que presenciei uma das cenas mais deprimentes que já vi. Protagonizada justamente por uma repórter de um telejornal sensacionalista. Foi durante uma manhã chuvosa, em um cemitério na zona norte, onde foi enterrado um garotinho que havia morrido devido a agressões da mãe. Quando cheguei, o moleque ainda estava sendo velado. A situação estava tensa. A mãe, até então apenas suspeita de ter causado a morte do filho, não havia comparecido.
Familiares do pai da criança lançavam olhares feios para os da acusada, que retribuíam com olhares mais feios ainda. No meio de tudo aquilo, estava o pai, um homem negro de cerca de 30 anos, que não parava de chorar ao lado do caixãozinho branco _lacrado_, onde estava seu garotinho.
Apesar de toda aquela tensão, consegui, discretamente, levar um avô do menino para o lado de fora. O idoso me deu as informações de que eu precisava e ainda trouxe o pai para falar um pouco comigo. Quando meu trabalho já estava praticamente encerrado, chegou a repórter de TV.
Essa mulher, que está há muitos anos na profissão, é considerada por mim uma das pessoas mais estúpidas, grossas e escrotas do telejornalismo. E se acha a maioral, só porque, como a maioria de seus colegas, é admirada pelo povão.
Ela entrou no velório sem pedir licença. Se me lembro direito, a câmera estava ligada. Obviamente, os familiares do moleque se revoltaram, exigindo que ela os respeitasse e fosse embora.
Mas a tosca, em vez de se pôr em seu lugar e pedir desculpas, reagiu com grosseria. Começou a bater boca com a família. A tensão que, até então, era vista apenas no olhar das pessoas, transformou o velório em gritaria. Sorte da repórter que a família era composta por gente humilde, evangélica e educada, senão ela certamente seria agredida. Acho que, na cabecinha dela, não dava para entrar o fato de que a população, que costuma admirá-la e tratá-la como celebridade, pode também ficar zangada com ela.
Enfim, o bate boca foi geral. O papelão da jornalista acabou servindo de estopim para outro bate boca nervoso, dessa vez entre os familiares do pai e da mãe. Quando essa briga acontecia, porém, a repórter que a havia causado virou as costas e foi embora, deixando para trás aquela triste cena: Tiozinhos e tiazinhas se xingando em volta do caixãozinho do menino. E o pobre pai chorando mais ainda.
A maioria desses profissionais é bem diferente do personagem que, trajando terno, empunha o microfone e narra, com voz indignada, os detalhes macabros dos crimes para chocar os telespectadores. Vendo o trabalho deles na TV, quem não os conhece pode até pensar que são todos caras e minas reacionários, moralistas, cujo dever é defender os "bons costumes" da sociedade.
Considero nojenta essa imagem de bons moços de família. E boa parte deles pensa como eu. São pessoas comuns, divertidas e gente boa. Alguns, até, depois do expediente tiram o terno cedido pela produção e caem na balada.
Não são eles que decidem como devem aparecer na tela, como devem falar, que perguntas idiotas devem fazer para o pai que acabou de perder o filho assassinado.
Este personagem escroto é moldado pela linha editorial do programa, que tem como principal objetivo, agradar o zé povinho ignorante, que acha que "bandido tem tudo que morrer" e que "é tudo culpa da droga".
"Mas eu nunca faria uma coisa dessas. Prefiro morrer de fome a trabalhar pra um desses programas que fazem lavagem cerebral na população", pode dizer algum estudante de jornalismo engajado, chato e radical, que se acha melhor do que os outros porque lê Karl Marx. A esse tipo de imbecil, eu digo: Morra de fome então, palhaço! Na minha opinião, quem precisa trabalhar tem que aceitar qualquer coisa que aparecer. Ainda mais em jornalismo, área em que o emprego é extremamente escasso. E repórteres de TV, no geral, trabalham menos, ganham mais dinheiro e têm mais reconhecimento do que os jornalistas de outras mídias. "Antes, os funcionários do meu prédio viam a mim e a meus amigos como um bando de vagabundos bêbados que fazem barulho à noite. Depois que entrei pra TV, todos passaram a me tratar bem", disse um camarada meu, certa vez.
Quem não gosta de ser bem visto? Bem tratado? Admirado por todos? Essa admiração do zé povinho pelo destemido, corajoso e indignado repórter televisivo, porém, pode também fazer mal ao profissional. Mexer com a mente dele...
Comecei esse texto falando sobre os jornalistas de TV gente fina, que, como eu já disse, são a maioria dos que conheço. Como em qualquer lugar, no entanto, há nesses telejornais alguns cabeças fracas. Que, só porque são admirados pela camada mais tosca da população, sentem-se celebridades. Até pior do que isso; acham que têm autoridade para fazer o que querem. Aí começa a desgraça...
Faz uns dois anos que presenciei uma das cenas mais deprimentes que já vi. Protagonizada justamente por uma repórter de um telejornal sensacionalista. Foi durante uma manhã chuvosa, em um cemitério na zona norte, onde foi enterrado um garotinho que havia morrido devido a agressões da mãe. Quando cheguei, o moleque ainda estava sendo velado. A situação estava tensa. A mãe, até então apenas suspeita de ter causado a morte do filho, não havia comparecido.
Familiares do pai da criança lançavam olhares feios para os da acusada, que retribuíam com olhares mais feios ainda. No meio de tudo aquilo, estava o pai, um homem negro de cerca de 30 anos, que não parava de chorar ao lado do caixãozinho branco _lacrado_, onde estava seu garotinho.
Apesar de toda aquela tensão, consegui, discretamente, levar um avô do menino para o lado de fora. O idoso me deu as informações de que eu precisava e ainda trouxe o pai para falar um pouco comigo. Quando meu trabalho já estava praticamente encerrado, chegou a repórter de TV.
Essa mulher, que está há muitos anos na profissão, é considerada por mim uma das pessoas mais estúpidas, grossas e escrotas do telejornalismo. E se acha a maioral, só porque, como a maioria de seus colegas, é admirada pelo povão.
Ela entrou no velório sem pedir licença. Se me lembro direito, a câmera estava ligada. Obviamente, os familiares do moleque se revoltaram, exigindo que ela os respeitasse e fosse embora.
Mas a tosca, em vez de se pôr em seu lugar e pedir desculpas, reagiu com grosseria. Começou a bater boca com a família. A tensão que, até então, era vista apenas no olhar das pessoas, transformou o velório em gritaria. Sorte da repórter que a família era composta por gente humilde, evangélica e educada, senão ela certamente seria agredida. Acho que, na cabecinha dela, não dava para entrar o fato de que a população, que costuma admirá-la e tratá-la como celebridade, pode também ficar zangada com ela.
Enfim, o bate boca foi geral. O papelão da jornalista acabou servindo de estopim para outro bate boca nervoso, dessa vez entre os familiares do pai e da mãe. Quando essa briga acontecia, porém, a repórter que a havia causado virou as costas e foi embora, deixando para trás aquela triste cena: Tiozinhos e tiazinhas se xingando em volta do caixãozinho do menino. E o pobre pai chorando mais ainda.