Testemunho de situações desgraçadas

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004

Uma vez, fui a Taubaté devido à morte de um dos principais líderes do PCC. O homem que teria sido responsável pela rebelião simultânea em 29 presídios de São Paulo, em fevereiro de 2001.
A megarrebelião, como ficou conhecido o episódio, talvez, foi a maior demonstração de poder de criminosos já vista em todo mundo. Na tela da TV, o programa do Gugu mostrava, ao vivo, o mais poderoso Estado do país refém do “Partido do Crime”. Até então, o governo negava a existência da facção. Dizia que era invenção de jornalistas.
Por isso, naquele domingo, quando minha mãe me acordou, dizendo “tem rebelião em um monte de presídios ao mesmo tempo. Vem ver!” e eu, sonolento, saí da cama e vi as imagens do helicóptero do Gugu, que mostravam a sigla PCC gigantesca, escrita no pátio da Casa de Detenção, quase pulei de tão eufórico. Deu vontade de gritar para todos os membros do governo: “Tomaram no cuuuuu! Seus filhos da puuuuutaaa!!!”. Para mim foi um domingo que ficou na história.
Sete meses depois, cheguei a ficar triste quando soube da morte do cara que havia acendido o pavio para que tudo aquilo tivesse acontecido. Um dos maiores motivos da megarrebelião havia sido a transferência deste líder para o Piranhão, como é conhecida A Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, o presídio paulista mais temido pela bandidagem até a criação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), atualmente predominante nas prisões de segurança máxima, como a de Presidente Bernardes. Pouco antes de ser transferido, o bandidão havia avisado: “Se eu for para o Piranhão, vamos virar o sistema”.
Uma amiga minha já havia conversado com ele pessoalmente. Falava do mano com brilho nos olhos, como se ela tivesse se apaixonado nos poucos encontros que tiveram. Segundo contou, o criminoso era uma pessoa quieta, pensativa, cuja liderança e inteligência estavam estampadas no olhar. “É o tipo de pessoa que, quando fala, a gente fica quieta”, dizia essa minha colega. Outros líderes presos chegaram a chamá-lo de “paizão” na frente dela.
Pensei em tudo isso durante a uma hora e pouco de viagem até o Vale do Paraíba. Aos 41, condenado a 218 anos e quatro meses, com uma extensa ficha criminal recheada de roubos a joalherias e bancos, aquele homem, que já chegou a ser considerado um dos dez assaltantes mais procurados do Estado, havia sido assassinado durante a manhã, por outros membros do PCC, amigos dele. Quando saiu para tomar banho de sol, por volta das 7h30, os traidores o estrangularam com um cordão de sapato, deram-lhe vários pontapés e pisões na cara, além de bateram sua cabeça contra o chão, afundando seu crânio.
Já ouvi muitas histórias sobre o motivo do homicídio. A que eu mais acredito é que o criminoso estava conquistando muito espaço dentro do partido, ganhando mais destaque do que seus outros fundadores. Na minha opinião, foram eles os mandantes do assassinato.
Em Taubaté, ouvi a versão oficial do ocorrido contada pelo diretor do presídio. Conversei ainda com mulheres de outros líderes do PCC. Uma delas foi assassinada não muito tempo depois, em meio às disputas de poder e da rede de traições que se formou dentro da facção após o homicídio que ocorreu durante aquela manhã no Piranhão.
Entre as mulheres, porém, não estava a com quem eu mais precisava falar: A viúva da vítima.
Por isso, quando já anoitecia, fui até a funerária de Taubaté, onde ela estava cuidando da papelada do óbito. A funerária fica anexa ao cemitério da cidade. Encontrei a mulher, gorda e de olhos claros, já indo embora, amparada pelas amigas, do lado do muro do cemitério. Ela passava tão mal que vomitou ao lado do carro que a traria de volta a São Paulo. Devia ter visto o corpo. Falou muito pouco comigo.
Os dois colegas que me acompanhavam nesse dia tiveram de resolver um problema em São José dos Campos, enquanto eu havia ido conversar com a viúva. Depois que ela foi embora, fiquei cerca de uma hora e meia esperando os manos retornarem para podermos voltar a SP. Enquanto esperava, dei uma chegada na funerária e troquei uma idéia com os funcionários. Um deles então perguntou: “Por que você não vai lá ver o corpo?”. Gostei da sugestão. Outros agentes ainda tentaram me fazer mudar de idéia. Explicaram-me que o cadáver estava sendo “preparado” para o enterro por outros dois funcionários, em uma casinha que fica bem no meio do cemitério. Para chegar até lá, eu teria de caminhar uma distância considerável em meio aos túmulos, com risco de ser assaltado por nóias.
Minha curiosidade mórbida falou mais alto que a prudência e fui. Comecei a caminhar sozinho, na direção indicada. Estava muito escuro.
As pessoas, geralmente, têm medo de cemitério à noite. Acho que não tem nada a ver. Temo infinitamente mais os vivos do que os mortos. Minha preocupação no trajeto eram os nóias citados pelos agentes, que pulam os muros da necrópole para queimar pedra. Mas, graças a Deus, não encontrei nenhum pelo caminho.
No fim da caminhada encontrei a tal casinha. Toda iluminada. Em uma sala branca estavam o corpo e os dois funcionários da funerária. O líder do PCC já estava de terno. O homem que eu gostaria de ter conhecido vivo já não se parecia mais com a imagem que eu tinha na cabeça, de bandido respeitado, responsável pela histórica megarrebelião.
Em sua face esquerda, um dos assassinos havia deixado a sola do sapato, em um desenho perfeito de sangue pisado. O resto da cara era só hematomas inchadões. Ele fora completamente desfigurado pelas porradas.
Os caras que preparavam o corpo, sem se importar com minha presença, terminavam de ajeitar o terno no defunto, que já estava duro, devido à rigidez cadavérica, com os braços e pernas esticados para fora do caixão. Nesse momento, perguntei aos caras se eles injetavam alguma substância no cadáver para ele amolecer, pois, daquele jeito, não entraria no caixão. “Que injeção o quê... A gente faz assim, ó”, disse um deles, pegando em seguida o braço direito do falecido.
“Crrrrrraaaack !!!!” foi o barulho dos ossos do pulso e do braço sendo quebrados para dobrar sobre o peito, como ficam quase todos os mortos nos velórios. Outros crrrrraaacks se seguiram, quando os dois, trajando luvas brancas de borracha, endireitavam a cabeça do bandidão e arrumavam suas pernas dentro do caixão. Quando a tampa do féretro escondeu o defunto, saí dali. Fui tomar uma cerveja _que estava geladíssima_ em um boteco próximo. Lá terminei de esperar meus amigos, que logo chegaram. Tomamos mais umas duas garrafas enquanto eu contava a história para eles.

Sábado, Fevereiro 21, 2004

Na última quarta, ocorreu uma chacina na Cidade Líder, zona leste. Cheguei lá de madrugada, quando o local já estava sendo periciado. Dois corpos estavam no asfalto e um, na calçada. Todos mortos com tiros na cabeça. Eu aguardava a conclusão do trabalho, de braços cruzados, atrás da fita de isolamento, quando uma senhora branca, de óculos, meia idade, passou por debaixo da fita correndo. "Onde tá meu filho? Onde tá? Cadê? Quero ver se é meu filho..." , gritava ela, compulsiva e histericamente.
O filho, um rapaz de 21 anos, estava a poucos metros de mim. Trajando só cuecas, pois as roupas já haviam sido cortadas pelos peritos. Ao lado do cadáver , a mãe parou com os olhos arregalados e colocou a mão direita na boca. "Ai!!! Meu filho!!! O que fizeram com você, meu filho?!" Parentes correram até ela, seguraram-na e a afastaram do rapaz. A coitada da mulher gritava e chorava como se um pedaço dela tivesse sido amputado, sem anestesia. Na sequência, olhei para o morto que estava na calçada.
A mãe dele também havia ultrapassado a fita de isolamento. Morena e gorda, a mulher estava ajoelhada ao lado do rapaz _este, de 25 anos_ e abraçava o cadáver ensanguentado. Não gritava como a outra mãe, mas mantinha seu rosto encostado ao do filho e parecia murmurar coisas para ele. Parentes também a tiraram de lá à força.
A atitude dessas duas mães no local do crime, sem dúvida, chocou mais as dezenas de curiosos da vizinhança, aglomerados em torno da cena desgracenta, do que a visão dos corpos de cabeça estourada. Pensei como seria se eu estivesse no lugar de um daqueles três e desejei que nunca minha mãe ou meu pai passem por aquilo. Muitos devem ter pensado o mesmo. Principalmente os bandidinhos amigos das vítimas. Estas, segundo a polícia, eram suspeitas de integrar o PCC.
Uma das mães, a que se ajoelhou ao lado do corpo, inclusive, havia sido presa junto com o filho, dias antes, acusada de montar uma central telefônica do PCC em casa. Outro filho dela havia sido morto em outubro. "Isso é tudo merda. Se trocar uma latinha de merda por essa gente, você sai no prejuízo. Perde a latinha", disse um policial a mim e aos meus amigos. Sim... Pode ser que os três mortos e a mãe que abraçou o defunto sejam bosta pra sociedade. Mas que a cena foi perturbadora, foi.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004

O dia estava ensolarado naquela manhã, em abril de 2001, quando chegamos a Osasco. Devia ser umas 8h30. De dentro do carro, vi o helicóptero da polícia sobrevoando a rua onde passaríamos o dia inteiro.
No princípio, havia uns dez policiais no local. Minutos depois, mais de cinquenta apareceram. Foi uma tarde tensa. Em uma casa térrea, uma mulher de 29 anos armada dizia aos PMs, através do vitrô da cozinha, que mataria seu filho de oito anos e depois cometeria suicídio. A frente da casa ainda não estava isolada quando cheguei. Por alguns segundos pude ver o vulto da mulher atrás do vitrô. Vi o brilho de seus óculos. Logo os policiais vieram me dar bronca, mandando eu me afastar de lá. Obedeci. Eles tinham motivo pra não me deixar em frente à residência. Além da razão óbvia _havia uma pessoa armada e eu estava na linha de tiro_, ela já tinha disparado o revólver quatro vezes naquele dia.
Seu alvo era um policial civil afastado que, durante um tempo, fora seu amante. Segundo o porta voz da PM, o ex-tira a teria enganado, convencendo-a a comprar uma moto para ele. Aos PMs negociadores, ela contou que o cara veio com uma conversa de que trabalharia com a tal moto para juntar dinheiro e os dois poderiam se casar. Divorciada e apaixonada, a moça fez o desejo do amante, que terminou o namoro logo depois de ganhar o presente. Que não devolveu.
Isso deixou a mulher doida. Irmã de um policial, ela tinha um revólver em casa. Resolveu então pegar o cano e ir atrás do cafajeste.
Como eu já disse, a mina disparou quatro diros. Todos foram em direção ao ex-amante. Mas não atingiram o alvo. Uma das balas pegou de raspão a perna de um tiozinho de 63 anos que estava na rua, de bobeira.
Depois que tudo terminou, fiquei imaginando se ela não acertou o ex-amante porque era ruim de pontaria ou se, inconscientemente, não queria balear o sujeito.
Feita a merda, a atiradora voltou para casa, a quatro quarteirões dali. No caminho, cumprimentou alguns vizinhos. Em casa, ela ligou para a polícia e disse que tinha a intenção de matar o filho e se matar.
Aquela situação durou oito horas. A mãe não apontava a arma para o garoto, que andava pela casa e brincava enquanto a negociação seguia no vitrô da cozinha. Policiais do Gate (elite da PM) subiam no telhado e tentavam entrar pelas janelas. O menino os via e, em vez de ficar quieto, avisava a mulher. Isso estragava o plano dos PMs e ainda piorava o estado de nervos dela. Seu irmão e o ex-amante apareceram para tentar convencê-la a desistir. Mas ambas as conversas terminaram em bate boca e com os policiais tirando os caras de perto da casa, temendo que fossem baleados.
Às 17h e pouco, o garoto foi libertado. Isso aliviou a tensão que havia tomado conta da rua. Mas a arma continuou na mão da mulher, que continuava querendo se matar. Ela ainda ficou uma hora dentro da casa. Nesse espaço de tempo, eu e meus colegas, já cansados daquilo, perguntávamos uns aos outros "essa porra dessa mulher vai ficar embaçando? Por que não se entrega logo? Vai fazer a gente ficar aqui até que horas?". De saco cheio, usávamos nosso humor negro para fazer piadinhas a respeito de tudo aquilo.
Fomos silenciados pelo barulho do tiro. Mais ou menos às 18h, a mulher saiu da residência. Em uma maca de bombeiros e com uma bala no peito. Morreu no hospital Antonio Giglio. Ou já chegou lá morta, não lembro...
Deixou em seu quarto um coração desenhado na parede com batom. Dentro dele, escreveu o nome do ex-amante e as palavras eu te amo.

Domingo, Fevereiro 15, 2004

Aos 67 anos, aquele tiozinho magro, de bigode e cabelos brancos, deveria estar sossegado, curtindo a aposentadoria ao lado da patroa e dos netinhos.
Isso foi o que me veio à cabeça quando o olhei deitado no chão, ao lado de seu táxi, na favela do Boi Malhado, zona norte de SP. Ele estava de olhos abertos, com a camisa social toda ensanguentada. Havia levado um tiro no lado direito do tórax.
Segundo os peritos da polícia, o assassino, provavelmente, estava sentado no banco do passageiro, quando encostou o cano do revólver no pobre coitado e disparou. Isso foi deduzido porque o ferimento estava chamuscado de pólvora. Tiro à queima roupa.
O latrocínio ocorreu anteontem, à noite. Como sempre acontece em homicídios de taxistas, uma porção deles chegou depois para dar uma espiada no colega morto. Um nos contou que entrou na profissão há quatro meses e já sofreu quatro assaltos no período. "Vou parar essa semana mesmo", disse depois de ver os policiais, com luvas brancas de borracha, mexendo no cadáver.
Quando os peritos acabaram, colocaram um pano branco sobre o corpo. Logo depois chegaram os funcionários do IML. E aquele homem idoso de aparência humilde, que, às 3 da manhã, deveria estar dormindo ao lado de sua senhora, foi pra gaveta do rabecão. Fiquei com muita pena dele. Se não vivesse em um país de merda, não estaria trabalhando à noite, dando sopa para os ladrões.
O pano branco que o cobria ficou todo sujo de sangue, em frente à casa de uma mulher. Já irritada, pois fora intimada, contra sua vontade, a comparecer na divisão de homicídios para prestar depoimento, ela perguntou: "E agora? Quem vai tirar esse pano da frente da minha casa?"
"A senhora", respondeu um policial, virando as costas para ir embora. Ele também estava irritado com a mulher. Minutos antes, ambos haviam discutido ao lado do corpo. A dona da casa fazia cara feia e resmungava. "Não tenho nada a ver com isso. O que eu vou fazer? Tenho culpa que mataram o cara em frente à minha casa?". Dizia isso ao lado do defunto, que parecia pensativo, com os olhos abertos. Se pudesse voltar à vida, talvez se levantasse e dissesse "tá bom. Não precisam brigar por minha causa".
Terminado o "show" da perícia, a platéia começou a voltar para dentro das casas, os policiais foram embora e eu e meus amigos combinamos de ir comer salgadinhos num lugar que um deles conhecia e recomendava. Quando nosso carro deixava o local, vi uma amiga da mulher briguenta passar por nós com pano ensanguentado nas mãos para jogá-lo em um terreno, ao lado de um campo de futebol.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004

Já falei aqui do cheiro de carne humana queimada.
Outro odor desgraçado que tive a infelicidade de sentir várias vezes é o de putrefação. Em uma dessas ocasiões, o cheiro estava tão forte que, mesmo estando a dez metros dos corpos, a gente ainda fazia careta e prendia a respiração.
Foi durante uma tarde, no estacionamento do cemitério da Vila Carrão (z/l). Eram dois cadáveres, no porta-malas de um Voyage preto, em frente ao velório. Acho que os assassinos tinham humor negro. Podiam ter abandonado o carro em qualquer quebrada. Mas resolveram deixá-lo no cemitério. ´"Olhaí... É só levar pra dentro e enterrar", debochavam os curiosos que se aglomeravam em torno do veículo.
O carro havia amanhecido no local havia uns três ou quatro dias. Ficou lá, parado, sem despertar suspeitas. Pelo menos, ninguém estranhou a ponto de chamar a polícia. Só que o cheiro dos cadáveres apodrecendo começou a se espalhar, denunciando que ali havia algo bem pior do que um simples Voyage, talvez roubado, abandonado no pátio.
Quando cheguei lá, o porta-malas estava fechado. Permaneceu assim até o início da perícia policial. Antes que fosse aberto, o cheiro já era ruim. Dezenas, talvez centenas, de moscas rodeavam o carro. Dava para ouvir de longe o bzzzzzzz que faziam. Então o perito apareceu e levantou a tampa. De dentro, saiu um bafo forte de carne humana apodrecida que dava náuseas. Isso afastou a maioria dos curiosos.
Se nesse mundo há gente com estômago de aço, são os peritos policiais e os funcionários do IML. Os primeiros tiraram os dois mortos de dentro do carro e cortaram suas roupas sem fazer nenhuma careta. Pareciam imunes àquele odor. As vítimas haviam sido executadas com tiros na cabeça.
Os corpos estavam roxos e muito inchados. A rigidez cadavéria tornava-os estátuas de carne podre. Nesse dia, o perito me explicou que aquele cheiro maldito e tóxico se espalha pelo ar em espécies de partículas de gordura, que, ao chocarem-se contra as nossas roupas, passam o fedor para elas.
Fiquei ali até os cadáveres serem removidos pelo rabecão do IML. Sem documentos, as vítimas não foram identificadas.
Não tenho certeza quanto a isso, mas, provavelmente, esse homicídio não foi solucionado. Por que a polícia iria investigar a morte de dois indigentes que deviam estar envolvidos em tráfico, roubo ou algo assim? "Tavam devendo", como dizem por aí. Pelo menos uns 15, 20 caras morrem desse jeito todos os dias. Mas nem todos chegam a feder tanto.

Sábado, Fevereiro 07, 2004

Gosto de conversar com assassinos. Toda vez que tenho oportunidade, tento procurar nos olhos do homicida algo que o diferencie dos seres humanos comuns. Porém, geralmente, não encontro nada.
Há muitos que possuem algo de sinistro no olhar. Esses são os maus. Maus mesmo. Que matam com requintes de crueldade, planejam o crime cuidadosamente ou apenas gostam da coisa. São loucos, perigosos.
No entanto, grande parte dos assassinatos cometidos no dia-a-dia tem motivo fútil. Na semana passada, por exemplo, um morador da zona leste matou o vizinho após eles discutirem a respeito de um saco de lixo no lugar errado. Há dois anos, no largo de São Miguel, também no lado leste, um bêbado enfiou a faca na barriga de um rapaz que vendia espetinhos, porque este não quis lhe vender um que estava reservado para outro cliente.
Acha que esses caras são diferentes de mim, de você?
Após examinar diversos casos de assassinato, pude perceber que basta um momento de fúria, descontrole, birita na mente e uma arma na mão para assinar o artigo 121 do código penal, que, dependendo do juiz, pode render ao acusado uma condenação de até 30 anos.
É o preço que se paga por tirar a vida de alguém. Não importa se sua vítima sacaneou, se deu mancada, se xingou sua mãe ou se você é um homem honrado. Se a polícia descobrir tudo, vai em cana como bandido.
Uma vez fiquei com pena de um assassino. Era um coveiro. Trabalhava no cemitério da Vila Formosa _outro bairro da zona leste. Matou por ciúme. A vítima era um cozinheiro homossexual que dividia com ele uma pequena casa de dois quartos nos fundos de um terreno onde funcionava um consultório de ortopedia.
Em troca da moradia, o coveiro dava um trato no jardim do consultório e fazia os serviços pesados, tipo de eletricista e etc. O outro morador fazia comida e faxina. O lugar era de uma médica ortopedista, de cerca de 30 anos de idade. O coveiro, que tinha uns 50, mas aparentava mais, estava apaixonado por ela.
Ele era um homem muito magro, alto, de bigode e cabelos grisalhos e mão calejada. Quando conversamos, usava um boné com manchas de terra e roupa surrada. Falava com voz e olhar firmes, como quem não deve nada a ninguém. Contou com detalhes como foi o crime.
Segundo sua versão, o companheiro de casa conversava muito com a ortopedista, o que lhe despertava ciúme, mesmo sabendo que o cara não gostava de mulher. Ainda de acordo com o coveiro, durante a noite, o homossexual, que sabia de sua paixão pela médica, ficava lhe provocando, jogando na cara que nunca ficaria com ela. “Ele falava que eu vivo sujo de terra de cemitério e, por isso, ela nunca vai gostar de mim. Eu não aguentava mais”, disse-me o assassino.
Na noite anterior à nossa conversa, ele discutiu com o desafeto e o matou a facadas. Depois, arrastou o corpo até uma rua ao lado do cemitério, que ficava a poucas quadras dali, e ateou fogo. Depois, limpou o sangue e voltou ao cemitério, onde ficou zanzando. À tarde, a ortopedista foi procurá-lo lá, estranhando a ausência dos dois moradores na casa dos fundos. Ele então contou tudo à sua amada e ainda revelou seus sentimentos por ela.
Quase toda a história foi narrada por um homem sério, determinado, inabalável. Quando lhe perguntei como a médica havia reagido, no entanto... “Ela disse que nunca ia ficar comigo. Que não me perdoava. E foi embora. Fugiu de mim”, dito isso, toda a firmeza daquele homem desapareceu e ele desabou. Começou a chorar feito um pré-adolescente bobo após tomar o primeiro fora de uma menina. Chorava não porque iria tirar uns anos de cadeia, mas por ter um amor não correspondido.
O cheiro de carne humana queimada é estranho. Muito parecido com o de churrasco, mas não igual. É meio enjoativo. Já senti duas ou três vezes, se me lembro bem. A última foi no ano passado, em Guarulhos, durante uma madrugada. Dois moleques tentaram roubar fios de cobre de uma cabine de transformação de energia que ficava numa quebrada nervosa. Meio do mato, estrada de terra. Havia chovido muito e o caminho estava pura lama. Quase atolamos o carro.
Um dos dois garotos estava lá ainda. O outro sobreviveu.
O cheiro de carne tostada dominava completamente o interior da cabine. O moleque tinha uns 14 anos e estava caído de bruços. Perto dele havia um grande alicate de corte. Em sua nuca, víamos um tremendo buraco preto. Dava até pra ver o osso no meio daquele monte de carne carbonizada. Um pouco da pele daquela nuca estava grudada em um transformador de energia gigantesco, atrás do cadáver.
O técnico que compareceu ao local acreditava que o garoto devia estar a poucos centímetros das costas do amigo, que tentava cortar fios de cobre usando apenas luvas de eletricista e o alicate. O que morreu, provavelmente, deu uns passos para trás e encostou a nuca no transformador. 6.000 voltz o fritaram.
Quando sua nuca grudou no aparelho, ele segurou o amigo, que tinha a mesma idade. A ponta dos dedos dos pés e das mãos deste explodiram. Ainda assim o garoto empurrou sua bicicleta por uns 200 metros, até chegar em uma casa, onde pediu ajuda. Dava para ver o rastro de sangue.
Um camarada meu chegou depois de nós e da perícia no local. Por isso, não pôde entrar de imediato. Comecei a descrever para ele o estado do corpo, falando da nuca queimada e etc. Falava algo mais ou menos assim: “Bicho, o cara ficou feio... Tem um buracão nervoso na nuca... Sente o cheiro...” e comecei a contar tudo.
Minha fala foi então interrompida por outro colega, que me deu um toque: “Fica quieto. Olha o pai do cara aí...”.
Eu não havia notado a chegada de um tiozinho de bigode e cabelos grisalhos. Na hora me senti um lixo. Mas acho que ele não estava prestando atenção na minha descrição de seu filho. Devia estar concentrado na movimentação dos peritos, dentro da cabine mal-iluminada, pois não falou nada e nem fez cara feia. De fora não dava para ver o corpo.
Depois conversei com o pai, que chorou um pouco e contou a mesma coisa que ouvi de muitos outros pais. Todos sempre diziam para o filho parar de fazer coisa errada e etc... Esse não parou. Foi parado.
Por 6.000 voltz.

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