Testemunho de situações desgraçadas

Sábado, Janeiro 31, 2004

No último domingo, o paulistano comemorou o aniversário da cidade. Às 20h, milhares de pessoas assistiam shows de graça no Anhangabaú.
Enquanto isso, eu dormia no banco de trás do carro, indo para o Jardim Satélite, zona sul.
Um amigo havia me informado de que, naquele bairro, foram encontradas duas crianças mortas por envenenamento.
Quando a polícia entrou na casa, a mãe estava caída no chão do banheiro, ainda viva. Ela foi socorrida, internada e autuada por homicídio seguido de tentativa de suicídio. Teria, segundo hipótese da polícia, tomado o veneno depois de dá-lo aos meninos.
Fui acordado por meus colegas quando chegávamos à rua da tragédia. Os irmãozinhos mortos tinham 1 e 7 anos. Os corpos ainda estavam dentro da casa, aguardando a perícia e o rabecão do IML. Os peritos chegaram pouco depois da gente e entraram na residência. Ficaram lá por cerca de 40 minutos (acredito). Enquanto isso, eu conversei com vizinhos.
O garotinho de 7 era conhecido na rua como Zezé, pois a vizinhança achava sua cara parecida com a do cantor sertanejo. "Era um garoto muito esperto, falante. Conversava com todo mundo. Vivia brincando", disse uma vizinha. Ela sorria, como se falasse de uma pessoa ainda viva. Toda a vizinhança falava a respeito do menino com sorriso no rosto.
Ele não morava naquela casa. Vivia com o pai e a irmã mais velha, de 11 anos. De vez em quando visitava a mãe ou ia lá passar o fim de semana. Mesmo assim, toda a rua lhe conhecia.
O menino mais novo nasceu de um relacionamento entre a mãe de Zezé e um colega de trabalho, com quem ela não chegou a se casar. Desempregada havia mais de um ano, criava o bebê sozinha. Passava por problemas financeiros.
No domingo, a mãe partiria para Vinhedo, onde teria arrumado um emprego. Não sei se levaria consigo só o filho menor ou os dois. Seus pertences estavam encaixotados, no chão da cozinha.
Mas a tarde chegou e a vizinhança não a viu partir. Também não viu ninguém entrar ou sair da casa. Uma menininha de 9 anos, amiga do Zezé, foi até a porta e chamou o garoto e sua mãe aos berros. Ninguém respondeu. Ela então comentou com uma senhora que achava aquilo "esquisito", pois parecia que todos na casa ainda estavam dormindo. A PM foi chamada e encontrou os corpos e a mãe inconsciente às 15h.
Eu ainda conversava com os moradores da rua quando os agentes do IC saíram da casa. Tive a impressão de que a visão dos meninos mortos havia feito mal ao perito. Sua voz e olhar tristes denunciavam isso. Uma coisa o intrigava: Ele não havia encontrado o veneno supostamente usado pela mãe.
Despedi-me dos agentes e um colega me avisou que nossa entrada na casa estava liberada. A residência ficava sobre uma oficina. Para chegar a ela subimos por um corredor/escada. Entrei no quarto e os garotos estavam escondidos sob cobertores. Um deitado na cama de casal e o outro, na de solteiro. Ambas no mesmo quarto. Perguntei ao cabo da PM qual deles era o de 1 e qual o de 7 _mais para confirmar, pois outro policial já havia me dito. "Esse é o de 1", falou então o cabo. E levantou o cobertor.
A criança estava roxa, de olhos abertos, barriga para cima, com a cabeça virada para o lado direito, sobre a cama de casal. Pela boca semi-aberta escorria uma baba espessa. O PM tornou a cobri-lo e em seguida disse: "E olha o outro".
O Zezé estava mais roxo ainda, com várias manchas em torno do pescoço. Os lábios eram praticamente azuis. Mas ele tinha o rosto tranquilo. Parecia estar dormindo com a boca aberta. O PM ficou mais tempo com o cobertor dele erguido. Entendi por que o perito parecia triste. A visão dos irmãos mortos era realmente perturbadora.
Mas a pior sensação que eu tive dentro daquela casa ainda estava por vir.
Pouco após eu deixar o quarto, nós encontramos na cozinha álbuns de fotografia da família. Vi então o Zezé que a vizinhança descrevera. Um garoto fotogênico, que tentava fazer poses engraçadas e sorria em todas as fotos. A cada página que virava do álbum, a cada retrato dele e do bebê que eu via, voltava à minha cabeça a imagem dos dois roxos. Sem vida. Um pouco inchados. Aquilo me deu uma sensação estranha. Horrível.
Desde segunda-feira estou trabalhando de madrugada e não sei em que pé andam as investigações do caso. Mas o fato de não ter sido encontrado veneno no local pode indicar que a primeira hipótese da polícia esteja errada. Não se sabe se a mãe realmente matou os filhos e tentou se matar. Assim que ela tivesse alta do hospital, seria levada ao DP e interrogada. Não sei se isso já aconteceu. E não sei como alguém pode ter coragem de transformar crianças alegres e indefesas em corpos roxos, inchados, de boca azul.

Domingo, Janeiro 25, 2004

Domingo, 17h. Verão. Um forte sol deixa a tarde alaranjada na zona sul de São Paulo. A brisa suave bate em nosso rosto. Estamos sobre um morro, pisando em chão de terra. Aos pés dele, a represa Guarapiranga parece prateada.
À nossa frente, uma trilha reta, em meio a grandes pés de mamona, poderia nos levar até a água. Mas não podíamos passar por ela devido às fitas de isolamento. Dois corpos aguardam o rabecão do IML bem no meio do caminho. Os caras tentaram fugir pela trilha, mas não teve jeito. Levaram muito chumbo.
A alguns metros dali, uma mulher de trinta e poucos anos também está caída. Cabeça, costas e nuca perfurados. Ninguém viu os assassinos. Ninguém ouviu nada. Ninguém sabe de nada. Os parentes olham feio e não querem conversa. "Treta de droga", é o motivo provável, segundo os policiais. Permanecemos algumas horas por ali, aguardando a perícia policial ser concluída, vendo o sol se pôr e respirando o agradável ar da região. Fomos embora felizes. Quem me dera todo local de chacina fosse assim.

Sexta-feira, Janeiro 23, 2004

"Hoje cedo, não sei por que, fiquei olhando pros olhos verdes do meu filho. Pensei comigo mesmo: 'Puxa... Meu filho tem uns olhos bonitos...`".
Quem me disse isso, na noite de anteontem, foi um comerciante de 56 anos, morador do Jardim Pery, zona norte, que chorava compulsivamente. Era pardo, de cabelo grisalho, muito humilde e estava com as roupas manchadas de sangue.
O filho de quem ele falava morreu poucas horas antes dessa conversa, atingido por um tiro no pescoço. O disparo foi dado por um irmão do garoto.
R., que morreu nos braços do pai, tinha 12 anos. O que atirou, G., tem 13. Eram os mais jovens de seus quatro meninos.
Segundo o comerciante, enquanto R. tomava banho, G. foi até o armário do quarto que divide com W., 18, o mais velho. Lá, pegaria uma correntinha de pendurar no pescoço. Ao abrir o armário, no entanto, encontrou outra coisa: Um revólver 38. O irmão maior havia deixado a arma lá.
Há duas versões.
Segundo a família, um tal de Cicinho, bandido da região, pediu para W. guardar o cano para ele porque a polícia estava em seu pé. A polícia, porém, suspeita que a arma fosse mesmo do irmão mais velho.
Após a morte do moleque, o 38 desapareceu.
PMs me chamaram em um canto e contaram que, depois de o irmão caçula morrer, W. mandou outros jovens do pedaço darem sumiço na arma. Teria ainda feito ameaças, dizendo que se vingaria caso o revólver chegasse a mãos de policiais.
Não sei qual das versões é a verdadeira.
Sei que o pai trabalhava em seu barzinho, em frente de casa, quando ele e sua mãe _avó dos jovens e também moradora da residência_ ouviram "um barulho que parecia estouro de botijão de gás", seguido por gritos de G..
"Corri para casa e vi meu filhinho caído e sangrando. Tirei ele debaixo do chuveiro. Fiquei abraçado com ele no chão da sala. Ele não chorava. Só respirava. Aí parou de respirar. Ouvi o último suspiro", contou o pai, em meio a soluços. De acordo com sua narrativa, W. chegou logo depois, vindo da casa da namorada. Quando soube o que aconteceu, ajoelhou-se e bateu repeditas vezes a cabeça contra o chão, gritando "por que peguei essa arma?! Por quê?!". Acabou autuado por homicídio culposo.
Mas vamos voltar ao tiro: Assim que descobriu o revólver no armário, G. teria o apontado para a parede e puxado o gatilho. Não saiu nenhuma bala. Em seguida, ele foi até a porta do banheiro e apontou para o irmão, brincando. Este, segundo policiais, disse "Pára, pára...". G. não parou. Novamente puxou o gatilho. E acabou com a vida do irmãozinho de olhos verdes.

Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Na última sexta, uma amiga minha me disse que queria ver corpos. Que se sentia ansiosa para isso mas, ao mesmo tempo, tinha um pouco de medo.
Há cerca de quatro anos, quando ingressei nesse mundo de desgraças, sabia que seria só questão de tempo até encontrar um presuntão recheado de balas em alguma bocada da cidade.
Na época, sentia-me mais ou menos como essa amiga minha. Medo não era bem o que eu tinha. Curiosidade talvez seja a palavra mais adequada para definir meu sentimento. Eu não sabia como iria reagir. Se sentiria nojo, se ficaria impressionado... Mas é certo que eu queria ver. A expectativa era grande.
Já tinha visto gente morta, é claro. No velório, dentro do caixão, maquiada e cercada de flores e parentes chorosos. Não sabia como era um cara zerado no meio de uma poça de sangue.
E demorou mais do que eu esperava. Houve uma noite em que eu pensei que fosse rolar. Foi em uma favela dominada pelo breu, às 3h da manhã, no Jardim Robru, zona leste. Subi as ruas de terra em um táxi. O corpo estava dentro de um barraco. Quando chegamos em frente, vimos que não havia nenhum PM preservando o local. Diante da maloca, meia dúzia de jovens olhavam feio para nós, que nem descemos do carro. A prudência mandou-nos dar a volta e ir embora. O adiamento da visão desgraçada me deixou decepcionado.
Poucos meses depois, também de madrugada, pude então encarar a desgraça. Não era só um morto, mas sete. Entre eles uma menina de 16 anos, loirinha, grávida de oito meses. Os cadáveres estavam dentro do "Bar do Bigode", um boteco podre em Ermelino Matarazzo, zona leste.
Não lembro quantos eram os assassinos, mas, segundo as testemunhas, eles chegaram no local perguntando sobre dois integrantes de uma gangue de traficantes rival, o Tchaca e o Cabeção.
Os caras deviam estar bicudassos, pois, como ninguém soube (ou não quis) revelar o paradeiro da dupla, ficaram loucos e começaram a atirar em todo mundo.
Quando cheguei ao local, uma multidão cercava o boteco, atrás da fita de isolamento da PM. A porta de ferro estava abaixada. Umas duas horas depois chegou a equipe da Divisão de Homicídios para fazer a perícia. A porta foi levantada e pude ver os corpos, caídos em volta da mesa de sinuca, sobre o chão coberto de sangue.
Dentro do bar, os policiais trabalharam com a porta abaixada só até a metade. Pudemos então vê-los fotografando os cadáveres e, depois, com uma tesoura, cortando as roupas de um por um. É um procedimento de praxe. Com os presuntos trajando só roupas íntimas, são contados os buracos de balas.
Como eu dizia no início, não sabia como reagiria a uma cena dessas. Mas não houve reação. Mesmo olhando sem parar para aquilo, não fiquei enojado, mal impressionado e, pior, sequer tive pena daquelas pessoas. Não me abalei nem ao ver os policiais cortando a roupa da loirinha grávida, deixando à mostra aquele imenso barrigão sujo de sangue. O tiro acertou a testa da menina, tingindo parte dos cabelinhos dourados de vermelho escuro. Parecia que os peritos não estavam lidando com corpos de seres humanos, mas com bonecões de pano, recheados de líquido escarlate.
Fiquei lá até os cadáveres serem ensacados e colocados no carro do IML. Pela manhã, contei o que presenciara a meus pais. Eles perguntaram se eu conseguiria dormir. Minutos depois, eu já estava dormindo tranquilamente. Pelo que me lembro, nenhum pesadelo me incomodou.

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004

Vamos falar um pouco mais sobre mães.
Após publicar o último post, aquela situação voltou à minha mente. Desde então, estou tentando entender por que fiquei tão sensibilizado com ela.
Não foi a única vez em que vi uma mãe de bandido chorar. Talvez o que me impressionou foi a brusca mudança da mulher, da raiva à tristeza extrema. Mas o fato é que já presenciei o choro de muitas mães. De criminosos, de vítimas de homicídio, de mortos em acidentes, etc.
Em qualquer caso de morte, a chegada da mãe ao local é sempre o momento mais "pesado". Algumas gritam e precisam ser seguradas. Para não invadir a área restrita à perícia policial e abraçar o corpo ensanguentado do filho. Há ainda as que desmaiam. E as que choram quase em silêncio, soluçando baixo, resmungando coisas inaudíveis e olhando para o vazio.
Por mais desgraçadas e dramáticas que sejam essas cenas, foram muito poucas as que chegaram a me abalar. Já tive, inclusive, diversas conversas com mães sobre a morte dos filhos. Na maior parte delas, permaneci como uma pedra de gelo, vendo suas lágrimas e ranho de nariz escorrerem, ouvindo as palavras intercaladas com soluços, preocupado apenas em colher informações. Faço cara de triste só para estimular a pessoa a falar mais. Puro 171.
Um caso curioso foi o de uma mãe que me procurou diversas vezes há dois anos. Não me lembro da idade dela, devia ter uns 65. Era branca, magra, de cabelos acinzentados e olhar desvairado. Seu filho, um taxista usuário de cocaína, havia desaparecido. Irritada com a falta de empenho da polícia, ela se meteu em favelas e falou com traficantes na tentativa de obter pistas. Até no Jardim Elba, uma das favelas mais perigosas de São Paulo, ela entrou e falou com os chefões do tráfico. Pois soube que o filho, de vez em quando, ia até lá para pegar farinha.
Na Favela do Moinho, aquela sob o viaduto Rio Branco, no centro, ela conseguiu, talvez, a pista mais quente.
Moradores de lá lhe disseram que dois caras haviam sido mortos por uma gangue de traficantes que ali atuava. Assassinatos que ocorreram na mesma noite em que seu filho sumira.
Um dos mortos seria um amigo do desaparecido, segundo apurou, que se desentendeu com os criminosos de lá. A descrição do outro cadáver batia com a do taxista.
Segundo testemunhas lhe contaram, as vítimas foram zeradas a tiros. Depois, um a um, os corpos foram colocados em um carrinho desses de pegar papelão e levados até o pé do moinho que dá nome à favela, uma antiga estrutura branca, gigantesca e estranha, que pertencia à família Matarazzo.
Os cadáveres foram então jogados em um buraco, onde havia um grande acúmulo de lixo, e incendiados.
Com base nos dados coletados por aquela senhora, a polícia foi lá com uma escavadeira e fuçou atrás de corpos, não encontrando nada. Para mim, o chefe dos tiras do 77º DP disse que provavelmente o taxista realmente tivesse sido morto na ocasião. Os assassinos poderiam ter dado sumiço aos restos queimados.
O fato de a escavadeira não encontrar nenhum resto mortal no local, deixou a tiazinha _que já era meio 13_ completamente doida. Pois sua dúvida continuou. Seu filho estaria morto ou vivo? Na última vez em que me procurou, com os olhos arregalados, ela perguntou o que eu achava. Àquela altura, eu já tinha percebido que não podia fazer mais nada para ajudá-la. Já havia ido à delegacia da área, ao DHPP, fuçado nos inquéritos e falado com tiras e delegados. Disse então para a mulher que o filho dela deveria realmente ter morrido.
A reação foi desesperadora. Ela começou a chorar e a falar sem parar. Seu olhos, que eu já achava meio estranhos, passaram, definitivamente, a expressar insanidade. Sem perceber, a mãe foi gradativamente aumentando o tom de voz. De repente, estava berrando. "Mas não tem coooorpo! Como pooode? Se não tem corpo, ele está vivoooo! Meu Acir (nome do cara)! Meu Aciiiir...".
Nessa hora, percebi que todos meus colegas presentes olhavam para nós. Aquilo estava fugindo de meu controle. Aí decidi tirar minha máscara de tristeza e mostrar quem eu realmente era. Um escroto frio que não estava dando a mínima se o Acir estava vivo ou não.
É lógico que não disse isso para a mulher. Apenas falei, com o máximo de frieza que pude expressar na voz, que já havia feito o que podia a respeito e que, se ela conseguisse mais alguma informação, que me telefonasse.
A mulher chorou mais um pouco e foi embora. Nunca mais tive notícias.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2004

Quase nunca sinto vontade de chorar. Nem presenciando a mais desgraçada das situações.
Certa tarde, no entanto, estava eu no 14º DP, em Pinheiros, quando apareceu uma moradora da região do Capão Redondo. Era negra, gorda, de cabelos grisalhos e estava extremamente brava. Mãe de um menor de 17 anos, detido após participar, com amigos, de um arrastão na avenida Rebouças.
A mulher entrou na delegacia acompanhada de uma filha. Ela falava consigo mesma, resmungando e, algumas vezes, gritando. Comecei então a conversar com aquela senhora, que praguejava e metia a boca no filho. Com expressão de ódio no rosto, ela me contou que, apesar de sentir dores no corpo devido à idade _uns 60 anos_ trabalhava como faxineira sete dias por semana para criar o rapaz e os irmãos com dignidade.
"Mas ele só fica atrás dos vagabundos da rua. Só anda com gente que não presta. Não faz nada", bradava a pobre mãe.
De repente, após perguntar, não sei se a mim ou a si mesma, "o que vou fazer agora?", todo o ódio desapareceu de seu rosto, que se contraiu. Ela então abaixou a cabeça e começou a chorar. Muito. A ponto de não conseguir falar mais de tanto que soluçava.
Parado na frente dela, eu não sabia o que fazer. Fiquei ali, ao lado do balcão, no plantão policial, olhando aquela triste cena. Por pouco, lágrimas não saíram também de meus olhos.
A senhora foi então abraçada por sua filha, uma mulatinha bonita de uns 19 anos, que me olhou com raiva, como se eu tivesse alguma responsabilidade por tudo aquilo que estava acontecendo.
Fiz então um carinho no ombro daquela mãe, desejei-lhe e à mulatinha boa sorte, virei as costas e parti. Infelizmente, eu não sabia o que podia fazer para ajudar. Aquilo ficou na minha cabeça o dia todo. E até hoje a lembrança me entristece.

Quarta-feira, Janeiro 14, 2004

As desgraças que já testemunhei na minha vida não envolvem só gente morta ou vítima de crime. Uma cena desgracenta que ficará para sempre em minha memória é a de uma mulher bêbada em um bar de Caraguá, ao lado da rodoviária, às 4h e pouco da manhã.
Pelo seu rosto, dava para perceber que já tinha passado por muitos anos de alcoolismo forte. A aparência era de uns 55 a 60 de idade. Branca, gorda, olhos castanho claros, enrugada, com os cabelos encaracolados começando a embranquecer e moletom branco velho do Hard Rock Cafe, ela pediu ao balconista, com um grunhido, para que lhe arrumasse gelo. Com um cubo entre os dedos, então levantou a velha blusa de lã, deixando os seios caídos e a barrigona imensa e flácida à mostra.
Aí começou a esfregar o gelo, com movimentos circulares, ao redor dos mamilos. Os poucos sóbrios do boteco ficaram parados, vendo aquilo com triteza no olhar. Inclusive o balconista que lhe atendera. Este nem tentou impedir a mulher de esfregar o gelo nas tetas podres. Não disse absolutamente nada. Só ficou olhando.
Alguns bêbados olharam e nem deram atenção, voltaram aos copos e continuaram a encher a cara. A maioria deles nem percebeu.

Terça-feira, Janeiro 13, 2004

O último post me fez lembrar de outra vez em que pulei um cadáver. Foi em Diadema. Numa favela ao lado da Imigrantes. O corpo era de uma mulher esfaqueada pelo ex-marido. A expressão de horror que ficou estampada na cara da coitada fez dela a morta que mais me impressionou. E olha que já vi gente virada do avesso.
A mulher estava com os olhos bem arregalados e a boca escancarada, deitada no chão da cozinha. Seu rosto ficou inteiro coberto de sangue seco, uma crosta vermelho escura.
As facadas atingiram-na no peito e garganta. Foram tantas que a camisa ficou rasgada, deixando um dos seios, também perfurado, à mostra. A jugular foi cortada, o que fez com que o sangue espirrasse até no teto da casa. Meu tênis e a barra das calças ficaram vermelhos.
O delegado plantonista do 3º DP, um cara gente boa, mas completamente 13, estava empolgado. Pediu-me para segui-lo até o outro cômodo, onde mostraria os indícios da luta que antecedeu o assassinato.
Como a mulher estava perto da porta, barrando a passagem, ele pulou por cima dela. Hesitei um pouco e ele insistiu. "Vem! Vem!". Pulei também. Mas depois, pulei de volta para ir embora. "Despulei", como disse meu amigo supersticioso na Dutra (vide post anterior).
A história desse homicídio é interessante (a meu ver). Segundo familiares e vizinhos, o assassino sempre havia sido um cachaceiro sem vergonha, que enchia a cara e batia na esposa evangélica e trabalhadora. Situação que durou até a separação do casal.
Um dia, já depois do rompimento com a mulher, ele adoeceu e ficou à beira da morte. A ex então passou a ir todo dia no hospital, cuidar dele, até que se recuperou. A atenção da antiga companheira deixou o cara emocionado. Fez com que ele chegasse à conclusão de que sua vida estava errada e de que deveria largar a bebida e reatar o casamento.
O pé de cana então parou de beber e virou crente, passando a encher o saco da mulher para que ela voltasse para ele. Esta, porém, dera-lhe atenção no hospital e tudo mais, porém, não tava a fim de voltar.
No dia do crime, como de costume, o assassino foi tomar banho na casa em que havia morado com a ex-esposa _após o divórcio, ele passara a morar em um barraco nos fundos, sem chuveiro.
Ao sair do banheiro, ele vestiu cuecas e tentou, sem sucesso, dar uns catos na mulher. A recusa da ex deixou o cara doido. Ele então pegou uma faca e a deixou daquele jeito que descrevi nas primeiras linhas. Depois, saiu correndo de casa, só de cuecas, em direção à Imigrantes, onde foi atropelado. Não morreu. Todo quebrado, foi em cana.

Segunda-feira, Janeiro 12, 2004

Ontem vi um cara que teve as pernas reduzidas a carne moída grudada em pedaços de pele e osso. Ele estava sentado em um ponto de ônibus na rodovia Dutra, quando um maluco que disputava racha perdeu o controle de um Marea. O ponto foi atingido em cheio pelo carro, que estava a cerca de 150 km/h.
Dois homens que esperavam o coletivo _entre eles, o que ficou sem pernas_ e o piloto do Marea morreram. Duas mulheres, uma menina de nove anos e um rapaz ficaram feridos. O último teve a perna direita amputada.
No local do acidente, chamava atenção uma placa fixada na parada de ônibus: "Temos que conversar. -Deus".
Dois cadáveres estavam debaixo da placa, à espera do carro do IML. Devido à minha distração, pulei por cima de um deles quando cheguei no local. Um camarada me disse para despular o corpo, senão eu ficaria com azar. Desencanei.

Sexta-feira, Janeiro 09, 2004

Sinceramente, eu não queria conversar com aquele garoto de nove anos. Morador de um buraco cercado de vielas e ruas de terra do Capão Redondo, ele e a irmã de três haviam acabado de ser poupados em uma chacina na qual os pais e o tio foram mortos por engano.
Da casa deles, os assassinos foram para a de um vizinho, o verdadeiro alvo. Este e a mulher morreram com tiros na cara. A filha do casal, de dois anos, também foi poupada. Segundo o delegado plantonista do 47º DP, quando a polícia chegou, a menininha estava sentada no chão, ao lado dos corpos.
Perguntei à vizinhança onde estavam as crianças sobreviventes da primeira casa. Uma senhora então me pediu para acompanhá-la e disse que eu poderia falar com o garoto, que estava acordado.
Eu não tinha a mínima vontade de conversar com uma criança que havia acabado de presenciar a morte dos pais e do tio. Mas fiquei quieto e fui apresentado ao moleque.
Em muitos casos de morte de ente querido, a pessoa leva um tempo até entender o que isso significa. A ficha demora a cair. Nota-se que ela fica com um olhar estranho, sem brilho. E fala como se nada tivesse acontecido. Fala até mais do que o normal.
Esse era o estado do guri.
Com os olhos arregalados, aquele toquinho de gente começou a descrever o ocorrido. Falava rápido, com a voz um pouco trêmula. Os assassinos (não lembro quantos eram) invadiram sua casa de dois cômodos e logo mandaram seu tio, que ocupava parte de cima do mesmo beliche em que ele dormia, descer e deitar no chão. "Aí, eles atiraram no meu tio. Fechei os olhos com força. Fingi que tava dormindo. Aí eles entraram no quarto do meu pai e da minha mãe. Ouvi mais um monte de tiros. Aí eles saíram. Fiquei mais um tempo de olho fechado. Aí começou a entrar fumaça em casa (os filhos da puta tacaram fogo em um carro que estava estacionado em frente à residência. Toda a treta, como você lerá logo mais, aconteceu por causa desse carro). Abri os olhos e vi que eles tinham saído. Fui pro quarto dos meus pais e vi minha irmãzinha chorando no meio deles. Toda suja de sangue".
Acho que a cena do moleque falando sem parar foi uma das piores que eu já vi na minha vida. Além de descrever as mortes, ele me contou tudo a respeito da família, da vida que levavam, de como ajudava o tio _que era camelô_ no trabalho... Quando eu não tinha mais nada a perguntar, agradeci a ele. Olhei para as pessoas que também ouviram o relato e todo mundo estava com cara de cu (imagino que eu também estivesse). Falei tchau e fui embora, sentindo-me extremamente mal com aquilo.
Dias depois, os matadores foram presos. Motivo da chacina: o vizinho do menino tinha dado calote na compra de um Passat velho. O antigo dono, acompanhado de amigos, foi lá para se vingar. Como o caloteiro não tinha vaga em frente de casa, parava o carro no quintal do vizinho, pai do garoto. Isso fez com que os assassinos se confundissem e o moleque e a irmã ficassem órfãos.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2004

Era dia de Natal. 25 de dezembro de 2000, se não me falha a memória. Dentro de um barraco na Brasilândia, uma chacina de adolescentes. Dois irmãos e suas namoradinhas. Muitos tiros na cara.
Um dos garotos trabalhava com o tio, que era bastante apegado a ele e teve uma crise de choro ao ver os corpos dentro do barraco. Justo nesse momento, um tira cabeludo, com pinta de motoqueiro Hell`s Angels, abordou o tio.
Tira: "Seu sobrinho estava envolvido com traficantes"?
Tio: "N... na... não sei..."
Tira: "Brigou com alguém da favela?"
Tio: "N... na... não sei..."
Tira: "Ele usava crack?"
Tio: N... na... não sei..."
Tira (aos berros): "Você trabalhava com ele e diz que não sabe nada! Tá achando que eu tô aqui brincando!? Que eu tenho cara de palhaço!?"
Já abalado pela visão horrível do sobrinho morto com tiros na cara, o parente não aguentou os berros do policial. E desmaiou.
O investigador então virou as costas e saiu andando. Não mexeu um dedo para ajudar o coitado.
O lugar estava cercado por uma multidão de vizinhos curiosos. Para tentar dispersá-los, um PM idiota mandou spray de gás pimenta na galera. Como estava ventando, a substância se espalhou pelo ar e todos tossiram, inclusive os estúpidos policiais.
Aconteceu em Francisco Morato. Eu estava saindo da delegacia da cidade quando uma mulher chegou. Era gorda, parda e aparentava ter mais de 50 anos. Quando falava, o sangue espirrava de sua boca. Seu marido havia lhe dado uma facada. A lâmina entrara em seu papo e cortara parte da língua, o que prejudicava a fala, deixando-a meio fanhosa.
Por onde a gorda passava, o chão ficava vermelho. Policiais não deixaram ela entrar no DP. Pela cara deles, via-se que estavam com muito nojo.
Aproximei-me com cuidado para também não ficar sujo de sangue. Perguntei o que tinha acontecido. Ela estava nervosa. Falava apressadamente, enquanto eu desviava das gotas de sangue que saltavam de sua boca.
Apesar de toda a desgraça dessa cena, senti vontade de rir. Tive de segurar a gargalhada, enquanto ela tentava explicar o que o marido fizera. Segundo grunhia, o esposo era um bêbado ciumento. Achava que ela trepava com o vizinho, um velhinho de 60 anos.
A conversa bizarra foi interrompida por PMs, que colocaram a mulher em uma land rover _no chiqueirinho, onde, geralmente, vão os presos_ e a levaram para o hospital. Duas coisas me impressionaram mais do que tudo. O tratamento que os policiais deram à pobre senhora e a louca vontade de rir que senti enquanto falava com ela.
Dia de sol em Heliópolis. Reintegração de posse em parte da favela, que amanhece cercada pela PM. Um bêbado me guia por entre os barracos. Aponta para toda criança que vê na frente. "Olha aí: Criança", diz ele, cambaleando. Em frente a uma das malocas, pára. "Entra aqui que tem uma mulher doente".
A mulher é magra. Tem quarenta e poucos, com cara de setenta. Está deitada na cama, coberta com lençol. "Tenho câncer no seio. Olha". Ela se descobre. Está nua. No lugar de um dos seios, uma cicatriz. Pouco antes de seu barraco ser derrubado, pude ver os PMs tirarem-na de lá em uma maca.

Terça-feira, Janeiro 06, 2004

Tarde de verão na Vila Guilhermina. Muitas crianças brincavam em um campinho de futebol ao lado da ferrovia. Entre elas, dois garotos de 12 anos. Quando cheguei lá, os dois já não estavam mais brincando, mas caídos, cada um de um lado do trilho.
Foram deformados pelo impacto do trem, que, pelo menos, não passou por cima. Se isso tivesse acontecido, estariam em pedaços. Ambos correram até a ferrovia para pegar uma pipa que acabara de cair. Um deles passava as férias escolares na casa do tio, que estava completamente bêbado na hora da desgraça e parecia não estar nem aí para o ocorrido, enquanto os bombeiros removiam o corpo dos moleques pra gaveta do IML.

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