<$BlogRSDUrl$>

Testemunho de situações desgraçadas

sábado, janeiro 26, 2008

Nem sei direito há quanto tempo essa história aconteceu. Mas lembro que foi numa noite bem tranqüila de trampo. Eu tava contando as horas pra ir embora, quando algum dos chefes atendeu o telefone. Depois veio me falar pra dar um pulo no 4º DP, da Consolação. Disse que uma atriz, cujo nome eu e ele nunca tínhamos ouvido falar, havia sido agredida pelo síndico do prédio e a confusão tinha ido parar na delegacia.
Peguei o bloco, a caneta e saí. Minutos depois, logo que cheguei no plantão do DP, fui abordado por um tio baixinho. Ele apertou minha mão, disse que era "o empresário" da tal atriz e me levou até ela. A mulher tinha uns 40 e poucos anos. Pele branca, cabelo castanho escuro, comprido e liso. O rosto era bonito, mas o olhar era meio esquisito. Parado e distante.
Pensei que estivesse grávida porque ela tava com um belo barrigão. Mas ela disse que a barriga tinha inchado por causa de um pontapé que o síndico lhe deu no estômago.
"Mas por que o cara te bateu?", eu quis saber. E ela explicou que o síndico a odiava. "Eu não posso levar amigos no meu apartamento, porque ele diz que ator e atriz é tudo drogado. Pra ele, ator é bicha e atriz é puta", contou. Ela tinha saído na mão com o cara um dia depois de uma "reunião com colegas", para "discutir projetos". Além do barrigão inchado, mostrou uns hematomas nos braços.
O síndico tava sentado na delegacia, esperando o B.O. ficar pronto. Fui falar com ele e o cara não quis papo comigo. Então peguei umas poucas palavras do delegado sobre o caso e já tava indo embora, quando o empresário da atriz voltou a me abordar: "Você já tá indo? Peraí que eu vou pegar umas fotos dela pra você levar." Eu disse que não precisava, mas o sujeito insistiu. Então concordei, e o cara foi buscar as fotos no carro ou sei lá onde.
Fui esperar num jardinzinho na frente do DP e a atriz tava lá, fumando um cigarro. Fiquei trocando idéia com ela. A mina era bem melancólica, mas tava querendo conversar. Confesso que avaliei a possibilidade de chamá-la pra tomar uns drinks depois do trampo. Tirando o barrigão inchado, o resto do corpo era bem OK.
Ela me falou da carreira, que tinha feito uma pornochanchada com a Rita Cadillac nos anos 80, que depois dos 40 as atrizes não têm mais chance e blablablá. A certa altura do papo, parou de falar, deu uma tragada no cigarro e olhou para um prédio que fica atrás da delegacia. "Meu marido pulou daquela janela", disparou.
Depois daquilo, a única coisa que me veio na cabeça foi perguntar: "Qual?" E ela apontou uma janela, acho que do oitavo ou sexto andar. "Aquela", disse com voz tremida. "Ele caiu no teto daquela casa e morreu na hora." Fiquei olhando pro teto da tal casa sem saber o que dizer. Foi quando o empresário chegou com as fotos. Peguei, agradeci e caí fora.

sábado, janeiro 19, 2008

Então... Depois de quase um ano sem escrever porra nenhuma aqui, resolvi reaparecer. E vou contar uma historinha que aconteceu há alguns anos. Acho que uns cinco, seis. Época em que eu ainda trabalhava de madrugada.

Eu e os brothers fotógrafo e motorista caímos pra Diadema, onde estradas de terra nos levaram a uma bocada onde havia ocorrido uma quase chacina. Dois baleados e um morto.
Corpo no local, de barriga pra cima, braços e pernas abertos. E cercado de pirulitos, docinhos de abóbora e pés-de-moleque. Uma cena sinistra, que fez o fotógrafo pirar.

Perguntei aos dois PMs que estavam plantados no local, à espera do carro do IML, o que significava aquele monte de doces ao redor do defunto. Aí eles me contaram a história. O sujeito tinha ido num boteco/mercadinho do bairro. E voltava pra casa com os docinhos pra filha pequena.

Tudo indicava que o alvo dos atiradores era o casal baleado. A mina e o cara tinham passagens criminais e tavam envolvidos em várias tretas. Segundo os PMs, o mano dos doces era vizinho deles. Tinha trombado o casal no boteco e voltavam de lá juntos, caminhando. Foi quando os assassinos apareceram e sentaram o dedo nos três. O problema é que acabaram matando o trabalhador e deixado os vagabundos escaparem vivos. Cheios de bala, mas vivos.

História triste. Mas não a ponto de amolecer o coração do companheiro fotógrafo, que estava puto. Poucos dias antes, no trampo, a chefia determinou que o pessoal da fotografia não podia mais gastar filme com cadáveres. "Puta cenário lindo (o morto com os doces) e não posso fotografar! Que merda!", resmungava ele.

Então dei a sugestão: "É... Você não pode fotografar o presunto, mas pode fotografar algum detalhe. Vamos chutar uns doces pra mais perto do pé do morto, aí você faz a foto..." Perguntei aos PMs se podíamos e eles falaram que sim. A perícia já tinha examinado o local do crime.

O que rolou em seguida foi um ensaio fotográfico. Docinhos perto do pé. Um pirulito vermelho, daqueles que tem formato de coração, ao lado da mão, como se o defunto quisesse alcançá-lo. O colega usava toda a sua criatividade. "Porra mano! Essa ficou melhor do que se fotografasse o presunto inteiro!"

Enquanto ele fazia seu trabalho, fiquei jogando conversa fora com os PMs. Nisso, notei que havia um pessoal em cima da laje de uma casa, ali perto, olhando pra gente. Comentei aquilo com os policiais.

"É a família do cara", disse um deles.

Porra, quando o polícia disse aquilo, senti um misto de remorso e vergonha. Tava lá o fotógrafo, empolgado com os doces e o cadáver, seguindo uma sugestão que eu tinha dado, e os familiares do falecido olhando tudo de cima da laje.

Cheguei no colega e falei: "Véio, pára de fotografar que a família do morto tá em cima daquela laje." O mano parou na hora e guardou a máquina na sacola. Depois fiquei em dúvida se ia ou não falar com os parentes. Imaginei que fossem me dar um esporro, chamar de urubu carniceiro e etc. Mas resolvi ir lá. Afinal, era minha obrigação ouvir aquelas pessoas.

E pra minha surpresa, elas me trataram bem. Confirmaram a história que os PMs me contaram, disseram que, realmente, o cara era trabalhador, e lamentaram o fato do sujeito ter encontrado o tal casal no mercadinho. A viúva chorava. Disse que o cara adorava a filhinha de seis anos, para quem levava os doces.
Agradeci e fomos embora de lá.

terça-feira, maio 08, 2007

Virada Cultural. Assisto Nosferatu em um telão montado ao lado do muro do Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha. Um clássico do terror projetado em um cenário sombrio, à meia-noite.
Nada assustador. O verdadeiro horror ainda está por vir.
Terminada a projeção, eu e os manos vamos pro Centro. O destino é a Praça da Sé. Show dos Racionais MC's, marcado para começar às três da manhã.
A gente se mistura ao público. A praça está insuportavelmente lotada. Tiozinhos passam vendendo um caninho fino e comprido de plástico. Um chup-chup gigante de pinga. Vejo dois manos, cada um com a boca numa extremidade, mamando a cachaça vagabunda. Nojento.
Além da cana, são inúmeros os malucos que entornam garrafas de vinho Chapinha. Eu fico com minha cervejinha, nem sempre gelada (fazer o quê?), comprada dos ambulantes que passam com isopor.
Meu camarada Cão Morto aponta para a marquise na entrada de uma farmácia. Um monte de caras está lá em cima, dançando rap. Poucos minutos depois, vejo uma fila de PMs se dirigindo para o grupo. Os bêbados gritam "FILHA DA PUTA!" e atiram coisas nos policiais. "É assim que as merdas começam", digo pro meu amigo.
Resolvemos ficar entre as palmeiras da Sé para ter uma visão melhor do palco. Mas, em qualquer lugar onde vamos, o som chega muito baixo. Estamos muito longe, do outro lado da praça. E é impossível avançar. Gente pra caralho.
Ficamos mais de uma hora lá, de pé. A porra do show não começa logo e estou impaciente.
Às quatro e meia da manhã, finalmente, os Racionais MC's sobem ao palco. Tocando " Eu sou 157". A praça da Sé inteira se empolga, dança e canta junto. "Hoje eu sou ladrão/ Artigo 157/ As cachorra me ama/ Os playboy se derrete..."
Mas o som tá baixo demais. Logo o grau de empolgação na área onde estamos começa a baixar. Tentamos avançar um pouco. Noto que os malucos voltaram a subir na marquise da farmácia e numa banca de jornais ao lado. Alguns deles trepam em varandas de um antigo edifício comercial. E dançam perto de uma grande placa onde lemos "compra-se ouro".
Se não me engano, o grupo está tocando "Crime vai e Crime vem", quando começa o empurra-empurra. O povo se afasta em pânico. Alguns amigos somem. Eu e o Cão continuamos lá. Parados. "Calma. Sem nóia, sem nóia...", é o que um fala pro outro.
Então vejo um bando de PMs com cassetetes na mão ser alvo de uma chuva de garrafas e latas. A situação fica pequena pros meganhas. Olho em direção à catedral e percebo que o recuo do público abre um corredor que pode nos levar até perto do palco. Lá em cima, os Racionais continuam mandando ver no som. "Vamos pra frente", digo pro brother. E a gente vai correndo curvado, pra não tomar garrafada, ao som de Vida Loka parte 1.
Estamos no meio do caminho e surge a tropa de choque. Escudos, cassetetes, capacetes, bombas de efeito moral e espingardas calibre 12, carregadas com balas de borracha. Eles estão dispostos a passar por cima de qualquer um que entrar na frente.
As bombas estouram e o público reage. Alguns manos quebram cavaletes e tacam os pedaços de pau nos gambés. A Sé vira um campo de batalha.
Pra não tomar garrafada nem bomba, o Cão Morto encosta em um poste. Eu, numa palmeira. Algumas minas, sozinhas ou com namorados, estão desesperadas, agaixadas ao pé das árvores e chorando. "Assim não dá!", diz Mano Brown, interrompendo o show.
"Pára com isso.... Vamos usar a inteligência... Tá suave, tá suave...", diz o líder do grupo, tentando acalmar a população. "Eu também sô obrigado a conviver com um monte de coisa que eu não gosto. O mundo é assim. Vocês vê polícia todo dia. Por que, justo hoje, qué arrumá confusão?", prossegue Brown.
Nesse momento, eu e o truta chegamos ao lado do palco. Noto que, pouco a pouco, as pessoas vão parando de atacar a PM. Passam a prestar atenção nas palavras do rapper. Os Racionais também devem ter notado que a situação se acalmava, pois, na seqüência, resolvem seguir em frente. Ouvimos o começo da base de "Negro Drama" e o público delira.
Eu e o Cão entramos na massa bem em frente ao palco.
Estamos lá, pulando e cantando junto com o MC Edy Rock, quando escuto novas explosões de bombas de efeito moral. Na seqüência, a multidão entra em desespero e o tumulto recomeça nervoso. Nesse momento, eu e o Cão somos separados.
Espremido entre os manos, tento sair do meio da multidão em pânico. Mal consigo me mexer. Grito "calma, porra! Calma!". Pouco a pouco vou saindo. Até que, por cima do ombro de um cara à minha frente, vejo um PM apontando a 12 em nossa direção e disparando. "É hoje que tomo bala de borracha", penso.
Os gambés filhos da puta não querem saber. Querem acabar com o show de qualquer jeito. Consigo sair do meio da muvuca. Deixo a multidão com os braços levantados, andando devagar e olhando pros PMs. Nenhum atira em mim. Mas vejo um meganha da tropa de choque mirar a 12 em um grupo de minas que corre em direção à praça João Mendes. O policial covarde está babando pra atirar nas garotas pelas costas. Vejo isso nos olhos dele. Mas outro coxinha lhe fala algo e o cuzão, lentamente, abaixa a 12.
Torno a me virar pra muvuca, à procura do meu camarada. Rapidamente o acho. Ele também sai do meio do povo com os braços pro alto e andando devagar. Caminhamos em direção à João Mendes, enquanto Mano Brown , antes de deixar o palco, diz ao microfone: "parabéns pra PM, hein. Vocês conseguiram acabar com a festa."
Deixando a Sé, vemos fãs dos Racionais revoltados, quebrando vidros e chutando portas de ferro das lojas. Estamos quase atrás da catedral quando sentimos o gás pimenta. A garganta trava e lágrimas saem dos olhos. Ao nosso lado há um jovem casal. A mina não consegue respirar e desmaia. O namorado a pega no colo e sai correndo dali.
Só voltamos a respirar direito no viaduto João Mendes. Horas depois, sou informado de que houve carro incendiado e quebra-quebra em todo entorno da praça. Tudo por causa de meia dúzia de idiotas que resolveu tacar coisa na gloriosa e intocável PM. Mais conhecida como Raça do Caralho.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Um camaradão meu teve acesso aos autos de um inquérito policial bem macabro e jogou a papelada na minha mão. "Isso é bom pro teu blog", ele disse. Dei uma lida na desgraça e vi que ele tinha razão. São os depoimentos do filho e das irmãs da vítima. O texto estava bem estruturado, mas, como toda peça de inquérito, meio chato de ler. Aí resolvi editá-lo e publicar aqui.
Aviso: se tiverem estômago fraco, não leiam.

Iniciou-se o presente procedimento através do Boletim de Ocorrência nºxxxxxxx e demais peças que o instruem, pois, em 16/12/2006 , compareceram nesta unidade policial as testemunhas G. e F., informando que, desde o dia 24/11/2006, não conseguem contato telefônico nem pessoal com sua irmã Z., moradora da avenida x, nº xx, bloco x, ap. xxx, Jd. Bom Clima, Guarulhos.
Diante da conduta suspeita do sobrinho, as testemunhas acionaram a Polícia Militar. No local, os policiais sentiram odor pútrido, bem como cheiro de maconha. Eles, então, invadiram o apartamento.
No interior do imóvel, estava apenas T.. A casa encontrava-se toda desarrumada. Havia velas, copos, incensos e pontas de cigarros de maconha. Como as desculpas e respostas do rapaz eram desconexas, foi acionado o Dr. P., delegado do 1º Distrito.
A autoridade determinou a preservação do local, acionando a equipe de perícia do I.C. de Guarulhos. Preliminarmente, o perito criminal encontrou alguns objetos como tampas de vaso, faca, martelo, corrente e amostras de sangue na soleira do banheiro e no tapete. Foram apreendidos ainda cartões de banco e comprovantes de compras feitas nos últimos dias, além de um caderno universitário com várias anotações de T..
Foi verificado que, ao longo do tempo de desaparecimento de Z., o filho apresentou comportamento estranho e, toda vez que era questionado sobre o paradeiro da mãe, dava uma versão diferente.
Por causa da conduta de T. e das possíveis manchas de sangue, foi representada pelo delegado P. a decretação da prisão temporária do rapaz junto ao Plantão Judiciário, o qual expediu mandado de prisão temporária pro 30 dias, a partir de 16/12/2006.
As vizinhas, Sra. I. e Sra. M, que eram amigas da vítima, em resumo, afirmaram que, a partir do dia xx/11/2006, não viram mais a Sra. Z. e sabiam que o filho desta era pessoa de comportamento estranho. Tal comportamento agravou-se após o desaparecimento da mãe. O jovem passou a fazer uso freqüente de desodorizadores de ambiente Bom Ar, mesmo saindo do interior do apartamento odor fétido. Os porteiros do condomínio J. , U., A. e F. afirmaram que T. saiu um dia, à tarde, com duas mochilas. Após algumas horas, retornou sem elas. Ainda disseram que era freqüente ver T. jogando pequenas sacolas na lixeira do prédio.
No apartamento, a perícia utilizou um produto da marca "Bluestar Forensic", sendo este reagente a sangue. Isso revelou a presença da substância nos rejuntes dos pisos e rente ao batente do banheiro, no mesmo ponto da soleira. No total, foram localizados 14 pontos de reação com sangue, sendo que eles estavam no quarto de Z., no banheiro, no hall entre os quartos e o banheiro, no corredor da saída do apartamento, no hall externo do apartamento, na porta e no interior do elevador.
Pesquisas junto ao IML de Guarulhos constataram que, em data posterior ao desaparecimento da vítima, foi localizada, às margens da Rodovia Ayrton Senna, uma mão humana, conforme boletim de ocorrência nº xxxxxxx, registrado no 5º DP de Guarulhos. No depoimento do policial militar que atendeu a ocorrência, consta que a mão foi encontrada em estado de putrefação, mas que, pelas suas características, poderia ser a mão de uma mulher.
O IML informou que a referida mão já havia sido sepultada, sendo retirado dela um fragmento ósseo para exame, haja vista que foi impossível colher impressão digital.
Foi então soliciado um mapa da região junto à Secretaria de Obras de Guarulhos, no qual foi constatado conexão espacial entre os córregos próximos à residência da vítima e o local onde foi localizada a mão humana. Também foi solicitada e recebida a autorização do 5º DP para a utilização do fragmento ósseo na investigação.
Os objetos apreendidos no apartamento da vítima, bem como o fragmento ósseo, foram encaminhados ao Instituto de Criminalística Sede para exame de DNA, sendo utilizado para confronto sangue fornecido pela irmã da vítima e sangue fornecido por T., filho da vítima temporariamente preso nesta unidade.


A prisão temporária de T. foi prorrogada por mais 30 dias, sendo a partir de 12/01/2007.
T. confessou espontaneamente ter tirado a vida de sua mãe Z., tendo, inicialmente, a agredido com socos no rosto e, depois, a facadas. Posteriormente, ocultou o corpo da mãe, esquartejando-a e jogando as partes no córrego do Cocaia, próximo à sua residência.
O interrogando informou que, no domingo, dia 26/11/2006, depois do meio dia, estava sentado em seu quarto, na cama, e viu uma luz verde. De dentro dessa luz , viu um vulto. Era o espírito de sua mãe, que o ameaçava. Dizia que iria matá-lo e cortar sua cabeça. O espírito ainda agrediu o interrogando, chamando-o de "filho da puta". A fisionomia do vulto era semelhante à de um demônio.
Há tempos T. sentia que iriam fazer algo de mal contra ele. Por isso, escondeu uma faca na parte de trás do sofá. Após ver o espírito dentro da luz verde, percebeu que a única maneira de se salvar seria matar sua mãe, para que o espírito dela não o matasse. O interrogando então pegou a faca do sofá e colocou em cima da televisão de seu quarto, que é próximo ao corredor. Ele premeditou o fato: primeiro daria socos no rosto da mãe para que ela desmaiasse, depois a retiraria do quarto e cortaria a cabeça com a faca, que estava em cima da TV. Foi isso que T. fez. A porta do quarto estava aberta e sua mãe dormia, entre as 10h e 12h do domingo, dia 26/11/2006, deitada de lado e encolhida, vestindo camisola branca e calcinha preta. Foi quando o interrogando ficou ao lado da cama e começou a desferir vários socos no rosto de sua mãe. Aproximadamente sete ou oito, fazendo-a sangrar a região do olho. Ela começou a gritar por socorro. Por isso, T. tampou sua boca, agarrando a cabeça com a outra mão e arrastando-a da cama para o corredor, até a porta de seu quarto. Foi quando o rapaz pegou a faca sobre a televisão, agachou ao lado de sua mãe e, segurando a cabeça dela pelos cabelos, começou a degolá-la, passando a lâmina rapidamente e com força em seu pescoço, para que parasse de gritar e agonizar.
Muito sangue jorrou, mas T. empurrou a cabeça com o pescoço cortado para o interior do banheiro, onde a limpeza seria mais fácil. A mãe se debatia muito, mas, pouco a pouco, foi sossegando e ficou imóvel.
O rapaz então seguiu seu plano. Com a faca, separou a cabeça do corpo. Degolando a mãe por completo. Respondeu que, enquanto cortava a cabeça, ouvia sons similares a grunhidos, saindo da boca e do pescoço.
Quando chegou na região da coluna, girou a cabeça em sentido contrário para facilitar o corte final, separando-a por completo. O interrogando estava com muita raiva da mãe. Arrastou o cadáver para dentro do box e, imediatamente, começou a cortá-lo com a faca. Quebrou as juntas das pernas, forçando os membros com as mãos. Enquanto fazia isso, socava e pisoteava o corpo. Sua raiva era realmente muito grande.
De repente, lembrou-se do que leu sobre anatomia, no livro de Wander Graaf - havia estudado durante um ano para ser tecnólogo em radiologia médica. Disse que, como era necessário muito esforço para cortar e separar as partes _ e sua preocupação em dar sumiço à vítima era grande, foi cortando-a aos poucos. Começando, se não lhe falhe a memória, pelos braços. Depois de tê-los cortado, T. os botou em um saco plástico. Escondeu parte dentro da calça, parte sob a camiseta. Para disfarçar, usou uma blusa de tac-tel azul-marinho e saiu com os dois cães poodle. Deixou o prédio pela portaria. Subiu a rua, virou à direita, desceu para a rua de baixo e chegou ao córrego. Onde rasgou o saco e jogou os membros. Enquanto fazia tudo isso, fumava maconha.
Durante alguns dias, o interrogando usou o mesmo procedimento. Livrava-se de pedaços da mãe fumando um baseado e passeando com os cachorros. No apartamento, para que o cheiro não ficasse muito forte, acendia o incenso "Cristo" e outros. Também usava "Bom Ar". Relatou que, quando cortava o corpo, deixava o ventilador e chuveiro ligados. Para que, além de limpar a sujeira, o cheiro também se dissipasse.
Quando o rapaz chegou ao tronco, abriu a barriga e pegou as vísceras e os órgãos. Pouco a pouco, foi fritando-os "em panelas pretas, até secar" com óleo de girassol. Depois, deixava tudo esfriar e colocava em sacos de lixo. Que jogava na lixeira do prédio.
Ao fritar os órgãos e as vísceras, fechava a porta da cozinha, acendia vários incensos, usava Bom Ar e borrifava talco pelos quartos. Limpava o sangue com panos e jornais. Às vezes, jogava os jornais sujos de sangue no córrego, junto com os pedaços de corpo.
Não se lembra bem de quando jogou a cabeça no rio. Se no início do esquartejamento, no meio ou no fim. Este "trabalho" durou cerca de sete ou oito dias.
O interrogando pensava em tudo para não ser pego. Não se livrou do corpo em dois dias porque poderiam suspeitar de saídas constantes. Disse, inclusive, que colocava os membros e as vísceras fritas em sacos de supermercado virados do avesso _ se alguém os visse em alguma lixeira, não identificaria de que mercado eram.
Respondeu que sua mãe mantinha um armário trancado com corrente, tendo em vista que sempre furtava dinheiro dela para comprar maconha. Como a mãe já estava morta, o rapaz arrombou o armário e pegou os cartões. Fez duas compras nos supermercados Guga e Carrefour. A mercadoria que comprou no último, levou para casa de táxi. Adquiriu, principalmente, produtos de limpeza, cosméticos e Bom Ar. Também um par de luvas amarelas, que usava tanto para esquartejar o cadáver quanto para lavar a louça.
O rapaz diz que pensava na mãe e até chegou a acender um incenso Cristo no quarto dela. Mas como ela e seu espírito iriam matá-lo, achou melhor matá-la primeiro. Por isso acredita que não cometeu crime e agiu em legítima defesa, já que sofria agressões "verbais e espirituais". Alega que fez tudo sozinho, não havendo participação de ninguém. Que inventou várias versões de uma história sobre a mãe ter ido viajar e escreveu tudo em um caderno, para ler no caso de pessoas perguntarem a respeito dela. O telefone foi desligado da tomada.
A relação entre o interrogando e a mãe era de amor e raiva. Ela era uma boa pessoa. Fez tudo pelo filho no que diz respeito a estudos, comida e carinho. Mas era uma muito controladora. Não o deixava ter amizades. Controlava o horário para evitar que ele usasse maconha. Não lhe dava dinheiro, pois sabia que poderia comprar a droga.
T. ainda diz que a mãe bebia. Ficava quase todo dia deitada e bebendo. Em festas, era sempre vexame. O interrogando se sentia mal quando via a mãe bebendo na frente dos outros. Mas a maior raiva que tinha dela era por não entendê-lo "espiritualmente". Diz que tiveram várias discussões porque queria dinheiro para seguir sua vida, ter uma namorada, ser independente. Mas ela não lhe dava. E ele queria um apartamento para morar sozinho.
Reconhece que sabia que sua mãe possuía um seguro de vida, do qual era beneficiário, em torno de cem a duzentos mil reais. Afirma que não a matou por causa desse dinheiro, mas, se recebesse o valor, iria usá-lo. Diz também que pegou as fotos que estavam na estante da mãe, com ele e outras pessoas, e recortou as partes em que ela aparecia, pois, como já a havia matado, não precisava de suas fotografias. Além disso, queria fazer um novo mural, sem sua mãe.
O interrogando jogou fora os objetos da casa de cor preta e vermelha, pois não gosta dessas cores. Responde que comprou novos tapetes porque, após ter matado a mãe e se livrado do corpo, queria começar uma vida nova. Nega estar arrependido do que fez porque "não tem do que se arrepender" e diz que faria tudo novamente. Segundo ele, a mãe atrasava sua vida, privava-o de ser feliz, pois não lhe dava dinheiro para comprar um apartamento e um carro como um "Golf ou um Toyota".
T. pretende agora tocar sua vida para frente. Como o acontecido foi longo e cheio de detalhes, ele se dispôs a ir até o local. Lá, mostrou tudo que fez e como fez.

O indiciado T. foi interrogado em aditamento e respondeu que, logo após ter decaptado a mãe, retirou os dois olhos dela com uma faca. Um dos olhos foi furado. Deixou os dois dentro do box do banheiro. Iria guardá-los de recordação. Mas acabou fritando-os na panela, como fez com os outros órgãos e vísceras. Afirma que não comeu nenhum pedaço. Jogou tudo fora com o restante do corpo, após ter secado.
Ele se recordou do que fez com a cabeça da mãe: lavou-a, secou e colocou em um saco do supermercado Dias. Depois escondeu sob a camiseta e a jaqueta azul. Como ficou um pouco barrigudo, encolheu a barriga, curvou os ombros para frente e foi até o córrego com os dois poodles. E jogou a cabeça de cima da ponte.
Em relação ao tronco, diz que, após ter retirado os órgãos e vísceras, ficou oco. Restou apenas a carcaça da caixa torácica. Depois de tê-la embrulhado, também jogou no rio, arremessando-a de cima da ponte. De acordo com ele, o embrulho ficou encalhado em algumas pedras do córrego. Após ter retornado para casa, ficou pensando em voltar lá e desenroscar o embrulho. Porém, durante a noite, choveu muito. No dia seguinte, quando retornou ao local, a correnteza já o havia levado.

domingo, dezembro 17, 2006

Naquela tarde eu estava no Morumbi, tentando apurar detalhes sobre um assalto na mansão de um ricaço. Mas rico, geralmente, é filho da puta. Olha pra gente como se estivesse num patamar superior, não colabora com nosso serviço e, quando pode, ainda atrapalha. Como diz um grande camarada meu, é o tipo de gente que merece um tour pelo Grajaú no porta-malas de um carro.
Enfim; eu estava lá no Morumbi, insistindo na campainha do grã-fino, quando meu celular vibrou. Era minha ex-chefe, dizendo que tinha rolado um arrastão em um condomínio fechado de Taboão da Serra, cidade relativamente próxima de onde eu estava. "Esquece isso e vai pra lá." E pra lá eu fui.
Pensei que fosse chegar e encontrar mais um monte de playboys cuzões a fim de atrasar meu lado, mas não. Era um condomínio simples. Apesar de ser fechado, com portaria e tal, o local reunia casas não muito grandes. Modestas, até.
Os porteiros não embaçaram. Deixaram eu entrar lá na boa. Ainda descreveram todo o episódio. Narraram a chegada dos encapuzados, armados com fuzis, em um Fiat Doblò. "Eu fiquei na portaria, junto com um cara que apontava o fuzil pra minha cabeça. Tinha que fingir que estava trabalhando normalmente", disse um dos funcionários.
Depois caí pra dentro do lugar e comecei a tocar as campainhas e falar com os moradores. Entre uma e outra história do arrastão, eu soube que, no condomínio, havia uma casa de assistência para crianças com câncer. E o pior: que os bandidos tinham entrado lá e tocado o terror.
Eu e a colega que me acompanhava corremos para a entidade, onde fomos muito bem recebidos e pudemos conversar com as crianças. Aquilo foi muito triste.
A maioria dos moleques tinha idades entre três e dez anos, e deformidades pelo corpo. Uns não tinham a orelha. Em outros faltavam alguns dedos. Um garoto caolho, que usava óculos e tinha a boca meio torta, contou como tinha sido a parada. "Os bandido chegaro apontando a arma e falaro 'fica todo mundo quieto, senão vai tomá tiro,'" disse ele, imitando o jeito dos vagabundos.
As crianças até que não estavam tão apavoradas. A maior parte delas empolgava-se com a presença dos repórteres e das câmeras de TV. Brincava sem parar num pequeno playground.
Já as mães delas, que também estavam no abrigo no momento do assalto, não haviam se recuperado do susto. Várias choraram enquanto conversavam comigo.
Os malditos as haviam trancado com as crianças em quartinhos minúsculos, enquanto levavam computadores e outros objetos. Coisas que haviam sido doadas para a casa assistencial.
Sinceramente, aquilo me deu vontade de chorar. Por toda maldade e filhadaputagem que existe nesse mundo desgraçado. Penso até hoje: "Como um verme desses teve coragem de apontar o fuzil pra uma criancinha deformada pelo câncer?" Mas é foda. O mundo é assim mesmo. Ruim pra caralho. Ricos, ladrões, assassinos, pervertidos... Filho da puta é mato nessa terra de bosta.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Não sou muito chegado em restaurantes por quilo. Alguns até são bons. Mas, na maioria deles, tenho impressão de que aqueles rangos que ficam ali, expostos nas bandejas, são velhos, sujos e sem sabor. Prefiro bater PF em boteco.
Porém, às vezes, não tô a fim de comer muito. Quero só uma saladinha e um montinho de arroz com mistura. Aí o quilão se torna uma opção barata e prática. Foi pensando nisso que resolvi ir hoje a um restaurante perto de casa. Já tinha ido lá várias vezes e sempre achei a comida boa. "Vou pegar só uma saladinha e um filé de frango", pensei.
Aí cheguei lá e comecei a encher o prato de salada. Peguei um monte de alface, brócolis, tomate e uns ovos de codorna. Nas bandejas quentes, vi que tinha bacalhoada. Aí peguei um pouco com arroz. Também peguei uma banana à milaneza. Desisti do filé de frango. E fui pra mesa.
Comecei a comer o bacalhau antes da salada, pra ele não esfriar. De repente, tenho a impressão que o alface tá se mexendo. Olho pra ele e demoro algumas frações de segundo pra ver uma minhoquinha verde. Ela tinha, pelo menos, um centímetro e era bem fina. Esticava-se e contraía-se. Dava um rolê em cima do meu rango.
Com cuidado, peguei o bicho com o garfo. Coloquei-o ao lado do prato, que estava sobre uma bandeja de plástico, e fiquei observando o verme rastejar.
Depois olhei para o prato e pensei "será que continuo a comer?" Nisso, lembrei de uma vez, anos atrás, em que comia junto com um colega no refeitório da firma.
A gente batia a chepa e conversava, quando ele me falou "olha aqui". Com o garfo, o camarada tirou do meio das tiras de alface uma minhoquinha parecida com a que vi hoje, só que bem menor e menos ágil. Aí, o mano, tranqüilo e sereno, colocou o bichinho sobre a mesa e o partiu em dois, com um dos dentes do garfo. As duas metades da minhoquinha ficaram se contorcendo, agonizantes. E o brother continuou a comer sua salada.
- Mano, você vai continuar a comer isso? _ perguntei.
- Esses bichinhos são coisa normal. Não tem nada, não _ foi a resposta.
Lembrando dessa ocasião, hoje eu fiquei lá, olhando ora para o bicho, ora para o rango. Não sou um cara fresco pra comida, mas não conseguia parar de observar aquele verme rastejando na minha bandeja e imaginar que pudesse haver irmãozinhos dele no meio daquela saladona servida que peguei.
Aí, uma garçonete do pico passou do lado minha mesa e a chamei.
- Olha isso _ disse para ela, apontando a minhoca.
- Onde esse bicho tava?
- No alface. Acho que não vou comer mais essa salada.
- Quer trocar de prato?
- Seria bom...
Ela me trouxe um novo prato. Não peguei mais salada. Só o arroz, a bacalhoada e a banana à milaneza. A mulher me pediu mil desculpas.
- Geralmente, sou eu quem lava a salada. É que hoje eu tava ocupada e não pude. E a moça que lavou esqueceu de colocar o remédio...
- Tudo bem. Não tem problema.
A garçonete passou pela minha mesa mais umas cinco vezes, sempre pedindo mais desculpas.
Terminei de almoçar, paguei a conta e vazei. Agora ficarei um bom tempo sem ir a restaurantes por quilo.

sexta-feira, outubro 27, 2006

"Tô indo lá pro viaduto Sumaré. Parece que um cara tava fazendo rapel e caiu", disse o colega, por telefone.
Pra quem não mora em São Paulo, esse viaduto é um pico da cidade onde, toda noite, praticantes de esportes radicais fazem rapel. Você passa lá às 22h, 23h e vê aquele monte de jovens de capacete, descendo em cordas até o canteiro central da Avenida Sumaré. Uma descida de, no mínimo, uns 20 metros.
E lá fomos nós. Paramos o carro debaixo do viaduto, próximo a uma rodinha de PMs. Eles estavam em volta do corpo. Cheguei perto pra olhar. Era um moleque. De camiseta e bermuda. Tinha caído de cara no chão. A cabeça estava aberta, com os miolos e pedaços de crânio espalhados na calçada. Um buraco no lugar do rosto.
"Não. Não tava fazendo rapel. Parece que foi suicídio", disse um PM.
Fomos pra cima do viaduto. Colei na galerinha do rapel e perguntei como tinha sido a parada. "O cara chegou, subiu aqui (na grade da ponte), ficou um tempinho olhando pra baixo e pulou. Não falou nada. Ninguém conhecia ele."
Não havia mais o que fazer ali. Eu e o colega fomos tomar café. Foi uma noite bem tranqüila.

sábado, setembro 09, 2006

Certa vez vi um ser humano do avesso.
Foi em Itaquaquecetuba, em 2001. Cheguei lá à tarde, horas depois da explosão de um cilindro de oxigênio. Que era transportado por um caminhão que havia tombado ao lado de uma avenida, numa área industrial. Com auxílio de um guincho, uns manos foram lá e destombaram o caminhão. Aí, do nada, a carreta foi pelos ares. Ninguém soube dizer a causa.
Três caras morreram. O que estava mais perto do cilindro de oxigênio foi arremessado a uma distância de cerca de 15 metros. Os corpos estavam cobertos com lonas.
Cheguei lá e comecei a fazer meu trampo, falando com bombeiros, PMs e pessoas que trabalhavam nos arredores. Elas contavam que, na hora do estrondo, o chão tremeu.
Quando estava quase indo embora, notei uma aglomeração em torno de um dos cadáveres. O que tinha sido arremessado a 15 metros. De longe, vi tirarem a lona de cima do presunto. Aliás, ao chegar perto descobri que estava mais para patê de presunto.
Um amontodado de carne moída, ossos e órgãos. Tudo no meio de muito sangue. A única coisa que fazia a gente perceber que aquilo havia sido uma pessoa eram as roupas. Meio rasgadas, mas recheadas de carne humana disforme.
Todos os curiosos que estavam em volta viraram a cara.
Os PMs haviam tirado a lona de cima do corpo para que um primo da vítima reconhecesse o morto. E, chorando, o cara o reconheceu pelas roupas. Parece que eles eram bem amigos e trabalhavam juntos, o que aumentava o sofrimento do sujeito. "Olha como ele ficou, olha como ele ficou...", repetia o rapaz transtornado.
Fui embora dali.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Quando o verão chegou, no ano passado, os chefes me mandaram ir pra Praia Grande. Num dia de muito sol, em meio a um feriado prolongado. Seria bom se eu tivesse ido de bermuda, pra nadar, observar garotas de biquini e tomar brejinha, despreocupado, em um quiosque.
Mas não era o caso.
Eu tava de tênis, calça jeans e minha tarefa era abordar turistas na areia e conversar com eles. Fazer-lhes perguntas do tipo "o que o (a) senhor (a) tá achando da praia?", "vocês vêm sempre aqui nessa época do ano?", "tá mais cheio do que o ano passado?", "a água tá boa?", enfim.... Fazer o que chamamos de "cascata", no meu trampo _ que, muitas vezes, resume-se apenas a preencher espaços com baboseira.
E lá fui eu, junto com um colega fotógrafo.
Abordávamos casais de tiozinhos barrigudos _ ele de sunga e boné, ela de maiô e viseira _, sentados em suas cadeiras de praia, com latas de breja na mão e rodeados de filhos pequenos e barulhentos. Alguns também estavam acompanhados de cães poodle brancos, sujos de areia.
Eu achava aquilo horrível. Minhas pernas suavam por baixo da calça jeans. O sol castigava. E os tiozinhos abordados nos olhavam com desconfiança. Davam respostas vagas, desinteressadas. E eles tinham razão. Sentado em uma cadeira de praia, eu também não ia querer jogar conversa fora com um mala de calça jeans que chegasse com papo furado. Sentia-me mal fazendo aquilo.
Falamos com umas três ou quatro famílias e eu então disse pro fotógrafo: "Pronto, mano. Faz mais umas fotos gerais da praia e vamo encerrá essa merda." Ele fez as fotos e começamos a caminhar em direção a um quiosque. Pra tomar uma cerveja de leve antes de pegar a estrada de volta à Capital.
Nesse trajeto, eu praguejava, reclamando do meu trampo. Foi quando vi algo que fez com que me sentisse realmente mal. Dois vendedores de algodão doce caminhavam na areia quente. Um usava fantasia do Tigrão, da Disney. O outro estava fantasiado de Teletubbie. Aquele roxo, que é bicha. As roupas eram pesadas, grossas. Feitas de lã, veludo, sei lá...
Eu e o colega decidimos abordá-los. Os manos tiraram suas cabeças de Tigrão e Teletubbie. Eram jovens caiçaras, com caretas de sofrimento encharcadas de suor.
- Essa fantasia é o inferno. É quente demais. Mas a gente precisa do dinheiro. Não consigo encontrar outro trampo _ disse o Teletubbie.
- A gente tá andando na praia desde as nove da manhã _já era umas três da tarde _ e o pior é quando a molecada cisma de puxar o rabo do Tigrão _ disse o personagem da Disney.
O fotógrafo registrou as imagens daqueles dois pobres diabos e nos despedimos deles, que continuaram sua triste jornada pela areia quente, sob o sol assassino.
Naquele dia, não reclamei mais do meu trabalho.

quinta-feira, junho 29, 2006

Madrugada. Fomos todos para Guarulhos. Um vereador petista, presidente da câmara da cidade, havia atropelado três moleques naquela noite, durante a volta de um jogo do Palmeiras. No opalão dele, além de uma camisa do palestra, a polícia encontrou várias latas de cerveja.
Levado ao 7º DP do município, o parlamentar foi indiciado por embriaguez ao volante.
Chegando à delegacia, já encontrei vários colegas. Todos esperando pelo político, que estava trancado em uma salinha. Não saía por medo de ser fotografado. Um batalhão de assessores do cara olhava feio para a gente.
Ficamos em frente à porta da sala, aguardando. Afinal, ele não podia ficar lá dentro para sempre. Mas, como o cara recusava-se a sair devido à nossa presença, aquela situação foi se prolongando. Irritado com a multidão de assessores, repórteres e mais um monte de cidadãos que lotavam o plantão do distrito para registrar ocorrências, o delegado acabou mandando a gente aguardar a saída do vereador na rua. Obedecemos.
O plantão da delegacia funcionava no primeiro andar de um sobrado. O acesso a ele se dava por uma escadinha estreita, em um corredor na lateral do imóvel. Continuamos esperando. Alguns assessores vieram pedir para que a gente saísse fora. "Sem chance", dizíamos a eles.
Dali a pouco, vimos um bloco de puxa-sacos do petista começar a descer a escadinha estreita. O vereador vinha atrás, cambaleando e com os olhos vermelhos. Ainda tava meio breaco.
Dois camaradas meus, fotógrafos, logo começaram a subir os degraus em direção a ele, disparando flashs. E os aspones caíram na besteira de tentar tampar com as mãos as lentes das máquinas. Não sabiam que um dos fotógrafos lutava jiu-jitsu e o outro era um cara esquentado, também bom de briga (o mesmo que socou crentes no 1º DP de SP, alguns posts abaixo).
Começou a pancadaria. Vi os brothers distribuindo socos. O tumulto desceu a escada e uma briga generalizada tomou conta da frente do DP. Todo mundo entrou na treta. Vi um repórter de TV _ que costumava ser um cara bem tranqüilo _ batendo com o microfone na cara de um petista. Relembrando os shows de punk rock e hardcore da minha adolescência, mergulhei na confusão, dando socos, pontapés e cotoveladas. Aquilo realmente estava divertido.
De braços cruzados, alguns PMs assistiam a tudo sem fazer absolutamente nada. Vi uma mulher, também puxa-saco do vereador, chegando até os policiais e dizendo "estamos sendo agredidos, vocês não vão fazer nada?". O meganha então olhou para a cara dela e disse "eu não tô vendo agressão nenhuma". Depois ainda virou para outro PM e perguntou "você tá vendo alguma coisa?". "Não", foi a resposta.
A pancadaria acabou quando os assessores finalmente conseguiram colocar o vereador dentro de um carro. Acho que ele também tomou umas porradas. Na briga, levamos vantagem. Nenhum de nós apanhou. Já os aspones, saíram revoltados, com cara de choro.
Radiantes e rachando o bico, ficamos mais um pouco na frente do DP. Depois saímos de lá rumo ao local do acidente. Queríamos fotos do opalão do político, com as latas de breja e a camisa do verdão.
Chegamos ao local e encontramos o carro enfiado na traseira de um caminhão, onde bateu após atropelar os três moleques. Uma lona o cobria e a retiramos. Como prevíamos, vimos várias latas de cerveja no assoalho e a camisa do Palmeiras. Nossos companheiros então começaram a fazer fotos. Mas, assim que os primeiros flashs foram disparados, um cara saiu puto de dentro de um automóvel que estava parado ali perto. Veio pra cima da gente, gritando. Era o irmão do vereador. Ele pegou a lona do chão e jogou de novo em cima do Opala.
E ficou lá do lado do carro, montando guarda como um idiota.
Nisso, um cara grande saiu de dentro de uma casa do outro lado da rua. Sem cerimônia, ele passou pelo irmão do vereador e arrancou a lona de cima do carro.
- Vai fotografá essa porra sim! O filho da puta atropelou os moleques e tem que se foder! _ disse o grandão, que atravessou a rua com a lona, seguido pelo irmão do vereador. Este dizia "ei!... Ei!... Volta aqui!" Mas o cara não dava ouvidos. Passou pelo portão de sua casa e tacou a lona no chão.
- Qué essa porra? Entra aqui e pega então _ falou em seguida.
Não percebi, mas alguns amigos meus disseram ter notado um volume na cintura do sujeito. Inclusive ele teria desafiado o irmão do bêbado com a mão em cima do tal volume.
Nervoso e contrariado, o mano do vereador deu meia volta, caminhou até seu carro, entrou e bateu em retirada. Os fotógrafos puderam então trabalhar tranqüilos.
Sempre que relembramos essa fita damos risada.

sexta-feira, junho 09, 2006

Hoje, primeiro dia da Copa do Mundo, passei pelo viaduto Major Quedinho, a caminho do trampo, e vi um farrapo humano dormindo. Sentado na calçada, com a boca aberta e as costas escoradas no muro. Provavelmente tava com muita cachaça na cabeça. Inchado, vestia roupas sujas.
Sentado no seu colo havia um menino de uns cinco anos, no máximo. Devia ser filho do cara. Também trajava roupas velhas e sujas.
Mas estava contente. Tocava uma pequena corneta de plástico verde e amarela. E gritava "Basil! Basil!"
Como todo o povo brasileiro, aquele garotinho que mal deve ter o que comer quer que o país seja novamente campeão do mundo. Por quê? Sinceramente não sei. Não consigo entender essa euforia que, de quatro em quatro anos, enche a cidade de bandeiras, pinturas, fitinhas verdes e amarelas. E deixa todo mundo retardado.
Já faz anos que desprezo o futebol. Acho que o "amor" que o torcedor fanático tem pelo clube não passa de uma grande estupidez. Uma idiotice sem sentido, característica da raça humana em geral. Que é tremendamente medíocre.
Tô cagando e andando se essa porra de seleção do caralho, com suas estrelinhas de comercial da Nike, vai conseguir essa merda de hexa ou não. Esses caras enchem o rabo com milhões de euros só para serem ídolos de uma gente fracassada que nunca será nada nessa vida.
Torço para que o garotinho da corneta seja retirado da rua, receba educação, cresça inteligente, acredite em algo quando for adulto e tenha algum motivo bom para viver e ser feliz. Mas talvez eu nunca mais o veja. Talvez ele morra amanhã ou depois, incendiado ou espancado por vândalos de classe média alta, enquanto o Brasil inteiro grita gol.
Eta país de bosta.

quarta-feira, maio 31, 2006

Você já trabalhou na noite de Natal? Entrando no trampo às 23h e incumbido de ir para a Catedral da Sé, assistir à Missa do Galo? Pois é... Eu já. No Natal de 2004.
Não sou um cara muito religioso, portanto ia bem desanimado para a catedral, no carro da firma. Mas aí o colega que me acompanhava, fotógrafo, sugeriu que passássemos em um posto de gasolina e comprássemos umas cervejas. É óbvio que eu e o motorista concordamos na hora.
Como morava bem perto do trampo, ainda pedi ao piloto para passar em meu apartamento, onde peguei uma caixa térmica da Sadia. Havia ganhado aquela caixa como brinde natalino da empresa, com um peru dentro. Naquela noite, ela foi preenchida com long necks geladas.
Bebendo nossas cervejas, chegamos à Sé.
Eu e o fotógrafo então deixamos as outras garrafas na caixa, dentro do carro, e entramos na catedral. Ela estava lotada. A missa já havia começado. Algumas das pessoas que a assistiam usavam uma roupa estranha, branca e marrom, com uma cruz esquisita desenhada no peito, além de botas pretas de couro que iam até os joelhos. Nunca havia visto aquela merda. Imaginei que fossem de alguma ordem religiosa fanática. Eram todos brancos e tinham cara de elite.
O colega fez algumas fotos.
Eu ainda tinha que falar com o padre, mas como aquela porra ia longe, resolvemos sair e esperar pelo fim da missa do lado de fora. Junto ao carro, matamos todas as nossas long necks. Confesso que as brejas me deram uma leve entorpecida. Então o celular tocou. Era um companheiro de desgraças, avisando que movimentos de sem-teto haviam acabado de promover uma série de ocupações de prédios na cidade. Um dos imóveis era um quartel desativado da PM, que estava abandonado no Brás.
Segundo o brother, a Tropa de Choque estava indo para lá, sentar o cacete nos sem-teto.
"Foda-se essa missa do caralho, vamo pro quebra-pau!", eu disse pro fotógrafo e pro motora, assim que desliguei o telefone. Saímos cantando pneus e logo estávamos em frente ao quartel. Os sem-teto gritavam em coro algo como "QUEREMOS MORADIA!" Das janelas do prédio, eles balançavam bandeiras do movimento.
Eu e o fotógrafo descemos do carro. Estávamos em frente ao quartel quando vimos o caminhão da tropa de choque chegar e despejar os PMs de escudo e capacete. Os caras não estavam pra brincadeira.
A moleza causada pelas cervejas se foi instantaneamente assim que uma bomba de efeito moral explodiu do meu lado. Como animais, os PMs partiram para cima dos invasores. Dei uma afastadinha pra não ficar no meio da treta. Mesmo assim, vi bem de perto os meganhas descendo o cassetete nos sem-teto. Rangendo os dentes e sem dó, eles sentavam pauladas até na cara de tiazinhas gordas, de meia idade. Também davam tiros com balas de borracha, além de usar as bombas de efeito moral e gás pimenta.
Tudo para esvaziar um prédio velho. Que não era qualquer prédio velho, mas um prédio velho que pertencia à gloriosa Polícia Militar de São Paulo.
Diante de um ataque tão violento, os coitados dos sem-teto saíram fora do pico rapidinho. Quando a treta tava quase no fim, reencontrei o fotógrafo. Havia uma mancha vermelha bem grande em sua calça de cor branca, na região da batata da perna, e ele mancava. Fora atingido por uma bala de borracha que deixou um machucado bem grande. Tanto que, de lá, ele foi direto para um hospital. Mas até que teve sorte, pois os sem-teto tinham ferimentos como aquele na testa ou na bochecha.
Passei o resto da madrugada de Natal percorrendo outros prédios ocupados pelos movimentos. Nesses, porém, a PM limitou-se a deixar meia dúzia de gambés na frente, vigiando para que não ocorressem maiores problemas.
"Nada mal pra uma noite que começou na Missa do Galo", pensei de manhã, ao voltar para minha casa.

terça-feira, maio 23, 2006

Um breve comentário:

Não costumo escrever esse tipo de post, mas não podia ficar quieto diante de toda a desgraça vivida por São Paulo nos últimos dias.
Encaminharam-me hoje um e-mail da associação de policiais militares do Estado. O presidente da entidade propõe que a categoria "cruze os braços e deixe que o Ministério Público faça o policiamento da cidade", em resposta aos "ataques" do MP Federal, entre outros órgãos, contra a PM.
O que a associação chama de "ataques" é somente a exigência de que a Secretaria da Segurança Pública aja com transparência, fornecendo aos promotores todos os BOs e laudos de casos onde houve morte de supostos suspeitos em "confrontos" com a PM desde o início da onda de ataques do PCC.
Considero esse tipo de protesto uma afronta ao bom senso.
Policiais não são pessoas acima da lei. Portanto não podem sair por aí matando a torto e a direito, sem que cada uma dessas mortes seja investigada com esmero. Um governo sério tem a obrigação de fazer isso. E de divulgar os resultados desse trabalho para que toda a população saiba como age a polícia que é paga para protegê-la. É uma coisa básica.
Em outras palavras, se o policial matou gente inocente, tem mais é que se foder. E se foder pra caralho.

quarta-feira, maio 10, 2006

Meu expediente tinha se encerrado havia dez minutos, às 23h. E eu continuava no trampo, respondendo um e-mail pessoal. Dali a pouco iria encontrar alguns amigos para tomar cerveja. Entre eles, uma garota que me deixava louco. Ou seja, estava eufórico.
Acabei de mandar o e-mail e ia desligar o computador, quando o telefone tocou na mesa da minha chefe _ que ficava lá até 23h30, meia-noite. Ela atendeu, fez uma cara de susto e disse "O quê!?". Em seguida exclamou, como se repetisse o que lhe diziam ao telefone, que o bispo de um grande império brasileiro da religião evangélica havia acabado de atropelar um motoqueiro na Avenida do Estado.
Rápido, antes que ela largasse o telefone, desliguei o computador, peguei meu casaco, minha mochila e saí andando. Quando já estava fora da empresa, atravessando a rua, o celular tocou. Por um instante, pensei em não atender. Naquele curto espaço de tempo, que deve ter durado, no máximo, dois segundos, pensei na balada, nas minhas responsabilidades, no horário que já havia cumprido e nas possíveis represálias que poderia sofrer se não atendesse aquela ligação.
Acabei atendendo. Era um subchefe, dizendo que a chefe _ a que foi avisada sobre o bispo _ estava puta comigo, pois eu tinha fugido do trabalho. Ela queria que eu voltasse imediatamente.
Ao ouvir aquilo, fiquei insano de tanta raiva. Minha vontade era pegar uma barra de ferro e quebrar aquela firma inteira, inclusive o crânio de quem não saísse da minha frente.
Surtando, passei de novo pela catraca daquele maldito prédio do inferno. O ódio me cegava. "FILHA DA PUTA! FILHA DA PUTA! FILHA DA PUTA!", era o que ecoava em minha mente. Peguei o elevador até o andar onde eu trabalhava. Entrei no recinto dando um soco violento na porta e olhando fixo para a minha chefe. Acho que ela percebeu que corria risco de ser morta, por isso não me encarou. Ficou com o rosto escondido atrás do monitor do computador dela.
Sem tirar os olhos da chefe, fui até minha mesa, atirei a mochila no chão, e, ao pendurar o casaco no encosto da cadeira, o fiz com tanta força que esta caiu, fazendo um puta barulho. O subchefe _ aquele que me ligou _ então perguntou: "que é? Cê tá nervoso?".
Respondi algo como "Tô sim. Nervoso pra caralho." E ele se calou. Depois, peguei o bloco de anotações, fui até minha chefe e perguntei secamente: "qual é o número da avenida do Estado?"
Sem tirar os olhos do computador, ela me disse, quase que sussurrando, que não tinha a numeração. Falei algo como "tá", e saí fora.
No carro da firma, a caminho da porra da avenida do Estado, o celular tocou. Era a minazinha de quem eu era a fim. Dizendo que a galera estava me esperando na casa de uma amiga nossa para irmos ao boteco. Expliquei-lhe o que estava acontecendo e disse que o pessoal podia ir pro bar. Eu iria assim que resolvesse a parada.
Com o motorista, percorri toda a bosta da avenida do Estado e não encontramos absolutamente nada. Liguei para a base e meu subchefe falou para eu ir ao 1º DP, da Sé, responsável por aquela região, para ver se descobria algo. Um colega, fotógrafo, me encontraria lá.
Chegando no distrito, tive que enfrentar a falta de colaboração dos policiais de merda. Eles confirmaram o atropelamento do motoqueiro, mas não queriam dizer, nem fodendo, quem o havia atropelado. Perguntei "é o bispo fulano de tal?". "Não posso dizer", era sempre a resposta. Porém, o tira deixou escapar que o responsável pelo atropelamento estava no andar de cima, onde eu não podia ir, prestando depoimento. Antes de mandar o filho da puta tomar no meio do cu dele e ser preso por desacato, resolvi ir pro pátio da delegacia e esperar.
Logo chegou o fotógrafo, um grande camarada meu, a quem muito admiro. Tramenda figura. Na época, ele trabalhava de madrugada. Relatei-lhe o que ocorria e ficamos na escada que levava ao primeiro andar da delegacia.
O 1 º DP de São Paulo, pra quem não conhece, fica em um casarão antigo. A escada onde esperávamos o líder religioso é larga e de mármore. Liga o pátio ao primeiro andar. Ficamos lá um tempão. Eu, reclamando da vida. O brother, ouvindo. Até que a porta do primeiro andar se abriu. Uma galera começou a descer. Eram crentes que tentavam fazer uma barreira para que o bispo não fosse fotografado. Nesse exato instante, meu celular tocou. O subchefe me pedia informações. Queria saber o que estava acontecendo. Estava acabando o prazo para que eu passasse, por telefone, um texto sobre aquela situação.
Enquanto eu falava com ele, vi meu amigo, que é bom de briga, avançando nos crentes. Um deles tentou tapar a lente de sua máquina com a mão. O camarada logo deu um soco na boca do infeliz, que quase caiu da escada. Foi uma tremenda porrada. Outros evangélicos tentaram barrá-lo, sem sucesso. Pois ele distribuía mais socos.
Então pude ver a cara de quem atropelou o motoqueiro. Não era o bispo que pensávamos, mas outro, líder de um império evangélico rival. Ainda com o subchefe no celular, relatei para ele o que acontecia e quem era o responsável pelo atropelamento. "Ixi... Peraí, peraí...", foi o que ouvi em resposta.
Nesse ínterim, os crentes colocaram o bispo no carro e todos bateram em retirada. O colega veio até mim dizendo que havia conseguido a foto. Estava eufórico, rindo à toa, feliz por ter esmurrado a cara de uns três evangélicos. "Filho da puta que vem tapar minha câmera leva soco na cara!", dizia.
Logo o subchefe voltou ao telefone. Disse que eu podia ir embora. Não precisaria escrever nada, pois aquele bispo estava processando a firma e prestes a ganhar a causa, que envolvia muita grana. Praguejei. Toda aquela correria pra nada.
Entrei no carro da empresa para voltar à base. Cheguei lá e minha chefe já havia saído. Peguei a mochila para ir embora e liguei pro celular de um amigo meu, que estava na balada com os demais. "Porra, mano, acabamos de sair fora", ele disse. A gatinha, pelo que me contou, também tinha ido embora, de carona com uma amiga nossa. Só então olhei o relógio e vi que já tinha passado das duas da manhã.

quarta-feira, abril 26, 2006

Aconteceu em um feriado. Fazia um calor da porra. Meus amigos estavam na praia e eu, em São Paulo. Trabalhando.
Fazer plantão em feriado é uma grande merda. Você vai pro trampo vendo as ruas vazias, exceto por alguns tiozinhos de bermuda, passeando com seus cães, ou por moleques jogando pelada com traves improvisadas, de tijolos e pedaços de pau.
Com a cidade nesse clima, o que a gente menos quer é ir para o trabalho, sabendo que só vai sair de lá depois de horas e horas de tédio e enchição de saco.
Enfim; era esse meu estado de espírito quando cheguei na firma e sentei em frente ao computador naquela manhã. O dia, porém, não foi como eu esperava. Logo apareceu a notícia da desgraça, pra me salvar do marasmo. Uma rebelião de presos com carcereiro refém. No 83º DP, responsável pela área do Parque Bristol. Onde, além do Jardim Zoológico, ficam algumas quebradas bem sinistras da cidade.
Aí fiquei eufórico. Avisei um colega, pegamos um táxi e voamos pro DP.
Quando chegamos, o sol castigava pra valer. A porta da delegacia estava cheia de mulheres e mães de presos, repórteres e policiais do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil.
Os tiras não deixavam ninguém passar da porta. Ficamos lá um tempo, loucos pra chegar mais perto, olhando a entrada e saída dos homens do GOE, com armamento pesado.
Aos poucos, porém, os agentes foram relaxando e dando mais liberdade para a gente. Ao contrário do que fizeram com as mulheres e mães de detentos, que foram obrigadas a ficar no meio da rua.
Então vi um grupo delas, de longe, acenando para a lateral do DP. Este fica no alto de um pequeno morro, ao lado de uma rua em declive. Eu e mais alguns manos então demos a volta no distrito e vimos para onde as mulheres acenavam. Atrás de janelinhas com grades entrelaçadas e barras de ferro, pudemos ver os detentos, com camisetas escondendo o rosto e naifas _ aquelas facas que fabricam com pedaços de ferro _ nas mãos. Eles acenavam em resposta aos parentes e esposas.
Começamos a trocar idéia com eles.
- Nóis aqui passa fome, sinhô. Nem os rato come a comida que dão pá nóis. A gente apanha. Tá lotado e não tem onde durmi...
Essas eram algumas das reclamações. Outros presos também pediam para a gente levar mensagens à mãe ou à namorada, que estavam vendo na rua.
- É aquela ali, de camiseta amarela... _ disse um deles.
Segundo os caras, além de transferência para estabelecimentos prisionais menos lotados, eles queriam garantias de que o GOE não fosse "esculachá-los" (como eles chamam o espancamento) e a presença do juiz corregedor dos presídios.
Mas logo a festa acabou. Um tira foi à lateral da delegacia e mandou a gente sair de lá. Depois ficou montando guarda para que não voltássemos.
Como os presos pediram, fui à rua levar as mensagens às mulheres. Elas choravam e narravam mais e mais atrocidades a que os detentos eram submetidos naquela carceragem.
De volta ao DP, o clima entre os jornalistas e os tiras do GOE já era mais descontraído. Um agente fortão, metido a herói de filme americano, chavecava uma repórter da Record, mostrando-lhe suas armas e músculos. Então entrei na delegacia. Devagar, sem ser notado, fui me aproximando da entrada da carceragem.
Lá, os caras do GOE estavam amontoados. Um delegado negociava a libertação do carcereiro com o preso. Fiquei no meio dos brutamontes armados, escutando a negociação. Até que um deles finalmente me notou e disse "ei, caralho, o que você tá fazendo aqui?", e me mandou ficar um pouco mais longe, o suficiente para que eu não escutasse a negociação.
Vendo-me por ali, alguns repórteres também chegaram junto. Entre eles uma mina da Globo. Acostumada a fazer reportagens sobre flores e coisinhas bonitas, ela teve o azar de estar de plantão naquele dia e, por isso, ter sido mandada para lá. O mau-humor e vontade de mandar tudo à merda era evidente em seu rosto.
De onde estávamos, só conseguíamos ouvir alguns gritos de exigências dos presos. Até que alguns começaram a gritar "QUEREMOS A REDE GLOBO AQUI DENTRO DA CARCERAGEM! PRA MOSTRÁ A SITUAÇÃO QUE NÓIS VIVE!!"
Nesse momento, olhei para a cara da repórter das flores. Lentamente, ela baixou a cabeça com cara de choro, apoiando uma têmpora no indicador e a outra, no polegar. Não demorou e o delegado veio falar com ela.
- Então; você pode entrar lá dentro?
Ela levantou a cabeça, titubeou um pouco e fez sinal afirmativo pro delega. Em seguida, vimos ela e o câmera sumirem no corredor que levava aos presos. Mais um tempinho passou.
Logo a repórter saiu da carceragem. Sua cara demonstrava impaciência. Louca para ir embora dali, avisou a gente que o carcereiro seria solto.
Todos os fotógrafos e câmeras ficaram posicionados na saída do corredor. Então o refém saiu. Bem castigado. A cara toda roxa e com sangue pisado. O branco dos olhos estava vermelho de tanta porrada que levou.
E acabou a rebelião. Saí dali satisfeito. Até que o feriado não tinha sido tão escroto...

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Weblog Commenting by HaloScan.com